O mundo como espelho

Alexandre Sequeira*

Muitos são os motivos que nos levam a viajar: o desejo de conhecer novos lugares, a necessidade de um tempo para descansar, dentre tantos outros. Mas, e se a viagem se oferece como possibilidade de nos encantarmos com algo que, em verdade, está em nós? 

Anos atrás, um quadro de Guillain Barré [síndrome autoimune que afeta o sistema nervoso] praticamente tirou os movimentos e a força de minhas pernas e mãos. Foram tempos de muita incerteza, desafios e uma enorme força de vontade para lutar determinadamente contra um mal que lenta e silenciosamente paralisava meu corpo. Mesmo recuperado, as sequelas decorrentes (uma significativa perda de tônus muscular e força nas pernas e mãos) me fizeram supor que viver determinadas experiências não seria mais possível. Um sentimento que se manifestava de maneira recorrente na forma de dúvida quanto a minha real capacidade de lidar com determinados desafios que o mundo me apresentava.

Mas eis que, nos últimos meses de 2018, aquele sentimento de fechamento de ciclo, tão comum ao período de fim de ano, me incitou a encarar esse temor numa das viagens mais transformadoras de minha vida. Diante do olhar incrédulo de alguns, anunciei que, apesar de minhas limitações, celebraria a entrada em 2019 no topo do Monte Roraima – a mítica terra de Macunaima situada na região da tríplice fronteira Brasil/Venezuela/Guiana Inglesa.

A escalada do paredão do Monte Roraima (Acervo pessoal)

A viagem começou com um percurso aéreo até a cidade de Boa Vista e um deslocamento terrestre de cerca de seis horas até, já em território Venezuelano, chegar à Paratepui, uma comunidade composta por descendentes dos povos Kumarakapay e Paray Tüpu, que protegem o que consideram seu santuário ecológico e espiritual. Foi ali que conheci os “anjos da guarda” que me acompanhariam por doze dias de encantamento mas também de grandes desafios, como os cerca de 100km de trilha feitos a pé (entre ida e volta), travessia de corredeiras com pedras escorregadias e uma escalada de 2.800m até o topo do Monte. Lembro que, quando o cansaço se convertia em alimento para a dúvida quanto à minha capacidade de seguir adiante, me vinha ao pensamento a fala de Tuahir, personagem de “Terra sonâmbula”, romance de Mia Couto que levei para ler na viagem: – O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro. E justo pelo estímulo de Tuahir, eu seguia em frente! Por isso os livros são meus companheiros de viagem. A literatura me ajuda a habitar o mundo poeticamente, a compreender a vida como um exercício de construção permanente de um sentido que diz respeito à qualidade dessa presença.

Confesso que seguirei ainda por muito tempo processando essa louca experiência de autoconhecimento. Dias de grande encantamento e surpreendentes revelações como quando, ao assistir do topo do Monte Roraima o raiar do último dia do ano de 2018, o mundo me devolveu – feito reflexo de espelho – a imagem de uma força que, apesar de supor não existir mais em mim, aguardava pacientemente pelo dia que eu a resgatasse.                                           

*Alexandre Sequeira é artista visual, Doutor em Arte pela UFMG e professor da Faculdade de Artes Visuais da UFPa.

Troppo
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