O Guardião da Vila

Fabulação e transformação da realidade

Alexandre Sequeira

Movido pelo interesse de conhecer novos lugares e, quem sabe, encontrar algo que me estimulasse a desenvolver um novo trabalho artístico, me lancei, no ano de 2008, por estreitos caminhos de terra que atravessam a região da Serra do Cipó – interior do estado de Minas Gerais –, até chegar ao pequeno vilarejo de Lapinha da Serra. O que jamais poderia imaginar é que o destino me reservava um encontro com alguém que subverteria muitas de minhas certezas, ao confundir os limites que separam a realidade da imaginação.

Logo em minha primeira incursão pela vila, cruzei com um menino franzino que conduzia alguns cavalos para o curral. Nitidamente interessado no equipamento fotográfico que eu trazia pendurado no pescoço, ele se aproximou e, na condição de guia mirim, se ofereceu para me apresentar os encantos do lugar. O pequeno Rafael (então com 12 anos de idade) estudava durante o turno da manhã e, no tempo restante, brincava nas cachoeiras que descem os morros que circundam Lapinha. Foi ele que me apresentou o lugar que eu passaria a frequentar regularmente pelos próximos dois anos. Ao referir-se à sua vida no vilarejo, na livre flutuação de um pensamento repleto de encantarias do imaginário infantil, aquele inusitado guia, conduzia meus olhos e pensamento por dobras do real, que escondiam na concretude do lugar um campo poético repleto de metáforas. Um convite a desvelar o mundo, a partir de uma miríade de projeções, que se tornavam tanto mais instigantes, quanto mais eu as aceitava como parte da realidade, a ponto de ganharem uma existência própria. Movido pela satisfação de ser apresentado à vila de forma tão singular, firmo com Rafael um pacto de companheirismo, escolhendo-o como meu novo parceiro de devaneios.

A beleza singela de Lapinha (Arquivo)

Minha segunda ida a Lapinha da Serra coincidiu com a semana de aniversário de Rafael e resolvi presenteá-lo com uma pequena máquina fotográfica. Sabia do encanto que tinha por tais equipamentos e do quão fascinante seria, para mim, conhecer mais sobre a vida da vila a partir daquele olhar tão singular. Foi o início de uma grande parceria, tendo a fotografia e a fabulação, como vetores de aproximação. Um convívio em que o espírito de companheirismo e intimidade se adensava, na medida em que mergulhávamos na experiência de partilhar nossas visões de mundo. E, assim, passamos a vacilar perdidos por tempos diferentes: o tempo real, objetivo, de quando fotografamos; e o tempo vivido, a duração subjetiva que vivíamos ao fotografar. Tempo plural, que revestia as coisas do mundo de uma camada de imprecisão, convertendo-as em sonhos criadores.

Ao longo desse convívio, Rafael me falava da lendária “Mulher do pé de manga” – figura brilhante, que surgia por detrás de uma mangueira com o intuito de proteger a vila, como também da ameaça que Lapinha enfrentava de uma invasão de discos voadores que, segundo ele, comumente riscavam o céu estrelado. Apesar do desdém dos moradores (que tomavam Rafael como um garoto perdido em fantasias), me intrigava a veemência com que ele partilhava tais inquietações. Certamente por conta da miopia seletiva comum a todo adulto “senhor da verdade”, demorei certo tempo para perceber que as narrativas de Rafael refletiam, na perspectiva de um menino de 13 anos, o verdadeiro dilema que a vila enfrentava: ter que lidar com valores de um futuro que, cada vez mais, se fazia presente.

O asfaltamento da estrada, que ligava Lapinha à sede do município, fazia com que um número cada vez maior de pessoas invadisse a tranquilidade da pacata vila com seu comportamento pouco condizente com os costumes locais, seus carros e motos barulhentas – convertidos pela imaginação de Rafael, em assustadoras veículos interplanetários.   

O ponto de uma tomada de decisão foi quando Rafael me falou do plano de construir uma armadilha para capturar discos voadores em um local onde ele acreditava ser o ponto de pouso das espaçonaves. Ao ver o projeto por ele concebido, me dei conta que estava diante de um genuíno guardião da vila e, diante do descaso de todos quanto aos seus apelos, percebi a importância de me unir à sua estratégia de defesa. Foi com imensa alegria que Rafael me acolheu como assistente na construção da armadilha – tarefa que passou a ser acompanhada por olhares incrédulos de moradores e visitantes. Paralelo à construção daquele inusitado marco local, produzimos também uma tiragem de cerca de 200 postais com fotos de recantos da vila (todas feitas por Rafael), que passaram a ser vendidas no posto de informações turísticas de Lapinha, como forma de sensibilizar a todos da importância de se preservar determinados valores locais.

Eu e o guardião da Lapinha (Arquivo Pessoal)

Para surpresa dos que riam de seus relatos, os foto-postais de Rafael passaram a ser disputados pelos visitantes e a armadilha para discos voadores ganhou o status de ponto turístico que todos faziam questão de fotografar. Foi lindo assistir o menino sonhador se converter em grande defensor de Lapinha, lançando mão como estratégia de algo que ele dominava tão bem: a fabulação.  

Sou eternamente grato a Rafael por, através da sabedoria de quem crê que a fantasia pode transformar o mundo, me libertar das amarras de um sentido impositivo de realidade, como uma espécie de lei da qual é insensato querer escapar. Só mesmo o devaneio criativo daquele menino para me redimir de um mundo preconcebido, e me devolver a condição de agente, através do qual este mundo efetivamente acontece, se dá, se faz. Um viva à “Mulher do pé de manga” e à armadilha para discos voadores por me ajudarem a perceber que, paradoxalmente, é justamente pela fabulação que muitas vezes estruturamos nosso sentido de real.

*Alexandre Sequeira é artista visual, Doutor em Arte pela UFMG e professor da Faculdade de Artes Visuais da UFPa.

Troppo
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