O amor nos tempos do corona

A Troppo + Mulher conversou com três casais, para saber como têm encarado o momento e reinventado suas relações

Lorena Filgueiras

A pandemia, que tomou o mundo de assalto, causou profundas mudanças em nossas vidas, além de ter colocado em revisão (ou pausa obrigatória) prioridades, planos e conceitos – inclusive entre casais. A Troppo + Mulher conversou com três deles, para saber como têm encarado o momento e reinventado suas relações.

Acerteza de que o amado a aguarda do outro lado da quarentena é o que consola a estudante e atriz Ana Carolina Soares, 21 anos, que há um ano e meio namora Afonso Lima, 19 anos, também estudante e ator. A última vez em que se viram foi no dia 16 de março, quando contracenaram juntos em um musical que passou um final de semana em cartaz. Desde então, são só saudades. “Estamos lidando bem, apesar de tudo. Ainda é muito difícil ficar longe um do outro por tanto tempo”, afirma Ana Carolina. 

Para tornar o momento o menos traumático possível, o casal – assumidamente romântico – tem buscado surpreender um ao outro. “Ele me manda vídeos cantando e tocando violão. Nos mandamos presentes e até lanches, essas coisas”, conta. “A gente faz o que pode. Estamos tentando sempre fazer algumas coisas juntos, mesmo que à distância. Conversamos bastante ao longo do dia por mensagem [de texto] e chamada de vídeo. Às vezes, a gente até se liga durante uma refeição, pro outro não se sentir sozinho. Assistimos filmes juntos, jogamos”, detalha. Além de todas as estratégias para manter a chama acesa, os dois revelam que fazem planos para quando puderem se ver. “Queremos passar a maior parte do tempo juntos quando tudo isso acabar, fazendo o que a gente mais gosta, como ir pra Estação das Docas, que virou o nosso lugar favorito desde o início do namoro”, deseja.

Eles disseram sim

Ana Carolina Pires e Fabrício Peralva são jornalistas, produtores da TV Globo, no Rio de Janeiro e protagonistas de uma história que teve um final para lá de feliz (e que inspirou centenas de outros casais Brasil afora). Eles casaram durante a pandemia, em meio a uma cerimônia muito surpreendente.

Juntos desde novembro de 2017, os namorados decidiram morar juntos um ano depois, em dezembro de 2018. Em 16 de abril de 2019, Fabricio surpreendeu a namorada com o pedido de casamento. “A partir do momento em que começamos a morar juntos, conversávamos sobre ter um momento que fosse um marco da nossa história, de ter de fato um casamento. Nunca fui uma pessoa que sonhei com casamento, igreja... nem ele. A gente queria festejar com amigos, mas a gente sempre teve uma vontade de casar fora, só nós dois", conta.

"Começamos a pesquisar, seguimos alguns blogs de viagem e chegamos à Tailândia, porque lá é muito comum fazer esse tipo de casamento, na praia. Começamos a ver preço, melhor época e tudo mais. Quando foi em outubro do ano passado, a gente fechou a viagem. Compramos as passagens, começamos a ver hotéis e viajaríamos no dia 1 de abril [de 2020] e voltaríamos dia 22. Seriam 20 dias e casaríamos lá no dia 07 de abril, uma terça-feira”, detalha. 

O fato de terem escolhido uma terça-feira para casar não foi por acaso, conforme ela explica. “Começamos a namorar porque postei uma foto juntos”. Morar juntos também foi algo que se desenrolou naturalmente. Os contratos de aluguel de ambos estavam vencendo e veio a ideia de morar juntos. “Sempre disse a ele que o único pedido formal de que eu fazia questão era o de casamento, ao que ele respondia que me pediria em casamento ‘em uma terça-feira qualquer, quando eu menos imaginasse’ e sempre brincava que o anel apareceria debaixo do meu travesseiro”.

Naturalmente que com tantas brincadeiras em torno do tão desejado pedido, Ana Carolina considerou o lance apenas uma “bobeira da cabeça dele” – até que no dia 16 de abril do ano passado, vivendo sob o mesmo teto, após despertarem para mais um dia de trabalho, ele, de fato, tirou um anel de debaixo do travesseiro e perguntou se todos os planos estavam de pé e se ela queria casar com ele na Tailândia. 

O pedido foi o startde todo o planejamento para o casamento do outro lado do mundo. Fariam a viagem e, na volta, realizariam uma festa no Rio de Janeiro, onde os dois morame uma outra, em Salvador, onde Fabrício nasceu e a família reside.

Ana Carolina Pires (foto) e Fabrício Peralva casaram durante a pandemia, em meio a uma cerimônia surpreendente (Acervo Pessoal)

Até que veio a pandemia. Acompanhando os noticiários todos os dias, eles focaram as atenções na situação da Tailândia, que estava sob controle – os planos iniciais, portanto, mantidos(adiariam somente os festejos no Rio e em Salvador). No dia 17 de março, as notícias já não eram tão tranquilas e concluíram que não seria possível. Começava aí a correria para cancelar tudo.

“Como você pode imaginar, foi um dia muito difícil para a gente. A Tailândia tem uma diferença de 10 horas em relação ao fuso daqui, então você imagina a loucura, porque as coisas não se resolvem muito rápido. Conseguimos cancelar tudo, com o mínimo de perdas. Começamos a avisar as pessoas sobre o adiamento da viagem e das festas”, continua. 

As mensagens de solidariedade ao casal chegaram aos montes e, num grupo de amigas, onde ela também comunicou a decisão, Ana Carolina comentou que esperava que o dia 07 de abril [a data inicialmente definida para o casamento] fosse melancólico para ambos. “Disse que ia fazer algo pra nós dois e que tentaria, ao fim do dia, uma videochamada para reunir todo mundo, mas achava que as pessoas nem iam curtir. Foi quando uma amiga se manifestou: ‘posso organizar tudo?’e eu, meio surpresa, disse que ela podia”. Era o começo de uma história mágica. 

No dia 06 de abril, pela manhã, o casal recebeu dois bolinhos e um bilhete pedindo que se preparassem para o dia seguinte, às 13 horas. No dia seguinte, exatamente na hora marcada, receberam, via deliveryem casa, um almoço tailandês. “Contaram a nossa história para a chef de cozinha do restaurante thai, que estava fechado. Achef cozinhou da casa dela pra gente!”, conta Ana Carolina, entre gargalhadas. 

Logo depois de o almoço ser entregue, o casal recebeu uma garrafa de vinho, enviada pela agência de viagem responsável pelo pacote de casamento. Às 14 horas, o interfone tocou novamente. Fabrício foi à portaria e subiu com 5 caixas numeradas (e com instruções). As amigas combinaram tudo e cronometraram os passos seguintes, que incluíam Ana Carolina não sair mais do quarto. 

O que tinha nas caixas? Bolos, bem-casados e docinhos típicos de casamento; um espumante; um vestido branco mais casual e um buquê. Às 16:30, um arquivo de música chegou pelo aplicativo de mensagens instantâneas e foi reproduzida por bluetooth: era a marcha nupcial. As amigas pediram para o noivo dar o playe a noiva sair do quarto. Vestida de branco, com o buquê em mãos, uma Ana Carolina extremamente emocionada caminhou pelo corretor aos prantos. Fabrício a esperava com a TV da sala conectada e nela, era possível ver 57 quadradinhos ainda escuros: 57 amigos em standby. Conectado mesmo, só o celebrante do casamento, Dudu Teruzszkin.

“Quando vi a carinha dele [de Teruzszkin] foi que entendi que haveria uma celebração, de fato, de casamento”. Vinte minutos depois, o celebrante liberou a “presença” dos convidados e, aos poucos, começaram a aparecer os rostos conhecidos dos familiares e amigos. Tudo durou apenas uma hora, mas foi o suficiente para encher de amor e ressignificar o dia do casal – cuja história inspirou tantos outros em todo o Brasil.

Juntos na alegria e na tristeza

A administradora Lorena Nascimento Nogueira, 36, administradora e Murilo Nogueira da Silva, 31, profissional de educação física, estão casados há 1 ano e 4 meses. “Mais o tempo de namoro, ao todo, estamos há quase 4 anos juntos”, conta Lorena.Antes da quarentena, ambos tinham rotinas muito diferentes e passavam o dia fora de casa. 

Trabalhando em home office, ambos têm conseguido realizar pequenas ações, que antes não eram possíveis. “Conseguimos conciliar o momento de ficarmos juntos e agora fazer coisas mais simples juntos, como as refeições, por exemplo (café, almoço, jantar), o que nossa rotina do dia a dia não permitia”, diz ela. 

Mesmo diante de tantas adversidades, o momento uniu mais ao casal, que tem se dedicado a conversas “olho no olho”.No começo não foi muito fácil, admite Lorena. “Teve mais atrito. Era uma situação nova, mas depois de quase 40 dias em casa, fomos achando como resolvê-los. Vejo que estamos mais unidos agora”, afirma.

A harmonia tem se refletido em inúmeros aspectos, dentre os quais, na própria rotina doméstica do lar. “Como falei antes, temos nos dado muita força. Como não podemos contar com ajuda da diarista, por conta do isolamento social, temos dividido todas as tarefas. A parceria ajuda a manter o relacionamento equilibrado, ninguém se sente sobrecarregado, fica leve pra todo mundo e isso, sem dúvida, influencia no nosso carinho e cuidado um com o outro”. 

E não parou por aí. Com tanto tempo a dois, Lorena e Murilo têm falado sobre aumentar a família, além de retomarem os planos, momentaneamente adiados em função da Covid-19. “Tivemos uma viagem cancelada agora de férias e que seria pra comemorar o aniversário do Murilo. Então, a curto prazo, queremos retomar essa viagem, quando tudo passar. Mas em relação ao futuro, temos conversado sobre ter filhos. É algo que queremos e já começamos a conversar”, revela.

A grande lição, que nasceu a partir de um momento tão difícil, é o respeito ao espaço de um e do outro. “É primordial em qualquer situação, com isolamento ou sem isolamento. Entender o que sentimos e percebemos, cada um no seu tempo e a seu modo. Estamos mais sensíveis, tirando as vendas dos olhos e tendo mais empatia. Vemos a quantidade de gente que está engajada em ajudar ao próximo, em fazer ações sociais para minimizar as dificuldades causadas por essa pandemia. Temos esperança que de alguma forma, essa situação sirva para nos transformar em pessoas melhores”, finaliza.

Troppo
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