Nunca houve uma mulher como Elza

Lorena Filgueiras

Dizer que a vida da cantora Elza Soares é digna de um enredo de filme, é redundante, até porque, de fato, tornou-se um longa-metragem (“My name is now – Elza Soares”), um livro (a biografia foi escrita pelo jornalista Zeca Camargo) e um musical. Daquele 1953, quando decidiu arriscar e mostrar seu talento no programa de calouros de Ary Barroso (além de ter dado uma resposta que calou o apresentador, conhecido por sua crueldade com os candidatos a estrelas), em busca de dinheiro para comprar remédios para o filho recém-nascido, nunca mais calou. Elza viveu muitas perdas, violências e desafios, mas seguiu em frente. Às vésperas de completar 90 anos, a deusa negra, está em um momento de muita plenitude: acaba de ser homenageada pela Mocidade Independente de Padre Miguel (bairro onde nasceu, inclusive), tem um novo afilhado musical e está namorando... com ela mesma! Elza, com muito orgulho, é capa desta edição especial alusiva ao dia mulher, celebrado neste domingo. Nada mais representativo do que entrevistar uma das mulheres mais fortes e inspiradoras de que já ouvimos falar. A entrevista ocorreu sob o olhar atento do novo afilhado musical dela, o rapper Flávio Renegado, no dia em que ela retornou à Marquês de Sapucaí, para o desfile das campeãs. Para as fotos, vaidosíssima, Elza escolheu um look Versace. 

Elza Soares (Denise Ricardo)

Troppo + Mulher: Gostaria de começar do mais recente para agora: você acaba de ser homenageada pela Mocidade, sob uma conjuntura em que nunca havia tido tantos temas políticos na Sapucaí e matrizes africanas. O que passou por sua cabeça no momento em que você foi comunicada da homenagem? 
Elza Soares: Gente, é uma alegria muito grade! A gente não sabe nem explicar o que passa, mas sabe que passa uma energia muito grande, uma vontade de chorar, uma vontade sorrir! Você sua vida contada na avenida, é uma coisa muito grandiosa. Não sei nem te explicar o que passa, só sei que é uma coisa muito boa!

T+M: E quando entrou na avenida, o que você sentiu?
ES: Cara, o que eu posso dizer?!? Sentimento de prazer, sentimento de vitória, de alegria, de amor, de tudo de bom!  

T+M: Aliás, que vestido [o vestido branco usado por ela no desfile da Mocidade consumiu 670 mil cristais e levou quase três meses para ficar pronto] foi aquele, Elza? Você transcendeu! A ideia do figurino foi sua?
ES: A gente sempre tem uma ideia maluca, uma ideia louca, né? Quem fez o meu vestido foi o Leo [Belicha, estilista] e a Érica [Rosa, estilista] – os dois fizeram essa loucura! Ele é lindíssimo e gostei muito! 

T+M: Já na segunda-feira, após o desfile, houve aquela enxurrada de críticas negativas a muitos dos temas levados à Sapucaí, acirrando um pouco mais a polarização vigente no país. Consegues ver uma luz no fim do túnel?
ES: O dia que não tiver essa luz no fim do túnel, acabou! Não tem mais nada pela qual lutar, acabou tudo! 

T+M: O Brasil é um dos países que domina as estatísticas de feminicídio e violência contra a mulher, além do racismo estrutural que é muito forte. Recebes muitas mensagens ou e-mails; mulheres te procuram em busca de conselhos?
ES: Não precisa ninguém me procurar, meu amor! Eu falo, eu luto... eu grito! Esse é o meu papel! 

T+M: Feminismo, sororidade, empoderamento são conceitos que talvez não te fossem familiares alguns muitos anos atrás. Pegando aquela famosa frase da Simone de Beauvoir, em que ela afirma que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, em que momento você se tornou mulher? E que momento você descobriu o Feminismo e... ele bagunçou muito a sua mente, no sentido mesmo de contrariar todo o status quo?
ES: Eu me tornei mulher quando nasceram meus filhos. Aí, eu me tornei mulher de verdade, gente! Em relação ao feminismo, muito pelo contrário: abriu a minha mente.

T+M: Você é uma sobrevivente: pobre, mulher, negra, que viveu de perto as dores de uma relação abusiva, perda de filhos e fome. Na avenida, foram mostradas diversas dessas suas fases. O enredo em tua homenagem, de certa forma também homenageou tantas outras mulheres. O que é ser mulher, para você? A data é para celebração? O que dirias para uma mulher, nos tempos atuais, que vive uma relação abusiva?
ES: É acordar todos os dias e carregar o mundo nas costas, sabendo de sua responsabilidade – eu acho que isso é ser mulher. Todo oito de março, temos de recordar e jamais esquecer a nossa luta! As nossas lutas não devem ser esquecidas nunca! Oito de março é para comemorar também: já conquistamos muitas coisas, como o direito ao voto. Tem muita coisa para a gente conquistar, mas esta data tá aí, presente, e na cara da gente! Às mulheres que estão vivendo uma relação abusiva, eu peço que tenha, pelo amor de Deus, amor próprio, mulher! 

T+M: Você teve sua infância muito bruscamente interrompida por um casamento, sendo você uma menina de 13 anos e teve de manter relações sexuais contra sua vontade com um homem mais velho...
ES: Teve isso? Teve mesmo? Não sei! Não... [ela responde com um pouquinho de insegurança], mas não quero lembrar disso não, gente. Vamos esquecer isso, vamos? 

T+M: Ouviu algum conselho de seu pai ou de sua mãe a respeito de sexo, homens, casamento... da vida?
ES: Era uma época em que não se falava nisso! Mãe tinha esse segredo. A gente não sabia nada disso, não. Hoje a coisa está mais aberta: se fala de menstruação, enfim, se fala de muita coisa para os filhos, mas na minha época, não.

T+M: Você declarou inúmeras vezes que viveu um amor arrebatador com Garrincha. Depois da morte dele, você teve outros relacionamentos, mas quero saber: você está namorando agora?
ES: Estou! [ela faz um breve silêncio de suspense] Estou namorando com o espelho! Estou me descobrindo, me achando linda. Estou apaixonada por mim! Me descobri, sem precisar de ninguém para me mostrar, viu?

T+M: Você pavimentou o caminho para muitos artistas e, neste momento, decidiu adotar o rapper Flávio Renegado. O que te chamou atenção nele, Elza?
ES: O Renegado é muuuuuito bom, cara! Tem carisma e tem um repertório imenso de coisa boa! Isso que me chamou atenção! É muito bom estar junto de gente boa... e de gente boa como ele!

Elza Soares (Fernando Grilli/ Rio Tur)

T+M: Qual o primeiro conselho sobre carreira que você deu a ele?
ES: Eu nunca dei conselhos a ninguém, sabe? Mas acho que ele deve continuar a ser quem ele é, porque ele é muito bom! Mas não dou conselhos, porque se conselho fosse bom, a gente não dava: sairia vendendo por aí! Ele é ótimo e sabe como deve ser e é o caminho dele! 

T+M: Há uma passagem muito interessante em sua vida, na qual você relata uma visão com São Jorge – quando isso ocorreu? 
ES: Cara, eu não lembro exatamente de quando, mas foi uma visão tão linda! Sou devota de São Jorge mesmo! 

T+M: Mas você já era devota dele? Como é tua relação com religião e/ou espiritualidade?
ES: Na época, eu nem sabia o que era devoção, mas sabia da existência dele. Sou apaixonada por ele! Acredito muito em Deus, faço as minhas orações e pronto, mas não esqueço de São Jorge!

T+M: Você completará mais um ano de vida, no auge total! Quando olha, em retrospecto, para sua vida, qual o saldo final? Mais coisas positivas ou negativas? 
ES: Quando olha para a minha vida, me vejo aqui: linda, negra e maravilhosa! Estou aqui! Só vejo coisas positivas, tudo positivo! 

T+M: Algum arrependimento? 
ES: Nenhum! Não tenho nada para me arrepender, muito pelo contrário: eu me arrependo daquilo que não fiz!

T+M: Como artista, hoje fala-se muito de assédio. Na época em que você começou, esses conceitos não eram muito definidos – você viveu isso?
ES: Tanto não eram definidos, que não sei se vivi! Não me lembro disso, não.

T+M: O que lhe motiva a seguir em frente? 
ES: A vida! Vou fazendo, vou vivendo! Vou batalhando e buscando! Vou em frente sempre, minha gente! 

T+M: Depois de ter sido homenageada na passarela do samba, quais são os planos futuros?
ES: Não sei... deixa vir! Eu não faço planos, eles acontecem sem eu planejar nada!

Para conhecer mais:
@elzasoaresoficial

A estreia

Elza sempre quis ser cantora. Com filhos pequenos e ainda pesarosa pela perda de dois, que morreram de desnutrição, ela se viu viúva, trabalhando como faxineira. Até que uma das crianças contraiu pneumonia. Sem muita perspectiva de conseguir o dinheiro e temendo a morte de mais um bebê, ela decidiu apostar no sonho: se inscreveu no concurso musical do programa radiofônico Calouros em Desfile, em meados de 1953, que era apresentado pelo compositor Ary Barroso. Como não tinha muitas roupas, pediu emprestado um vestido da mãe e o ajustou com vários alfinetes de fralda. Quando Elza subiu ao palco, foi recebida pelo auditório e por Ary Barroso, com gargalhadas. Ary era conhecido pela crueldade com os calouros e perguntou: “de que planeta você veio, minha filha?”, ao que ela não se intimidou e respondeu: “do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary, do planeta fome”. Nem é preciso dizer que com essa resposta, ela desconcertou Barroso. Não só cantou, como ainda ganhou a nota máxima e teve o prazer de ouvir do próprio apresentador que “naquele momento nascia uma estrela”. Com o dinheiro do prêmio, comprou os remédios para o filho, que se recuperou.

Troppo
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