Novas portas para novos caminhos

Elck Oliveira

O ser humano é, por natureza, inquieto. Vive em constante transformação, seja por necessidade de sobrevivência ou por paixão. Não são poucos, ao longo da história, os exemplos de profissionais que se tornaram referência nas áreas em que atuam, mesmo depois de já terem trilhado outros caminhos. A Revista Troppo + Mulher foi em busca de pessoas que também tomaram a decisão - corajosa - de mudar os rumos profissionais e saber as dores e as delícias desse processo. 

O tenor italiano Andrea Bocelli, considerado como um dos mais importantes do mundo exerceu a profissão de advogado até os 34 anos de idade, quando decidiu largar tudo para viver integralmente da música. Mesmo o gênio Walt Disney - fundador do império de mesmo nome - chegou a trabalhar como motorista de ambulância antes de se dedicar à indústria do entretenimento e à criação de personagens que se consolidaram na história dos quadrinhos, como o romântico e atrapalhado Mickey Mouse. Afinal de contas, uma guinada como essas valem a pena? O que fazer para que a ruptura seja menos dolorosa possível? É possível começar do zero e reencontrar a felicidade numa nova carreira?

Valores - A psicóloga Kelly Silveira, de 41 anos, especialista em gestão com pessoas e mestre em Administração, diz que sim. Para ela, é fundamental que a carreira profissional esteja alinhada aos valores de vida de cada um, caso contrário, a pessoa poderá ter que lidar com dificuldades como o adoecimento e a infelicidade. Nessa hora, talvez seja necessário começar a considerar uma mudança mais consistente.  

Kelly Silveira (Arquivo Pessoal)

“Enquanto o sujeito tiver sonhos e desejos, é plenamente possível realizar, basta se planejar adequadamente e manter o foco, pois a transição requer tolerância. E penso também que tudo que se aprende poderá ser valioso para dar outro passo, afinal de contas, as mudanças de carreira não são realizadas por pessoas cujas ‘páginas’ estão em branco. Ao contrário, valiosas experiências já estão registradas e este é o momento de aprimorar habilidades técnicas para que seja ajustado o novo rumo, contudo, outras habilidades poderão certamente ser utilizadas, porque a experiência é subjetiva e não se perde nunca, apenas se soma”, analisa. 

Segundo a especialista, naturalmente, uma decisão como essa envolve riscos, por isso, é preciso ter certeza da escolha que se está fazendo. É necessário refletir se o que está causando o incômodo com a carreira atual não é apenas um cansaço eventual ou realmente algo mais profundo. “Tenha certeza dessa decisão, conheça suas habilidades e dialogue com sua família, pois você precisará de apoio para desviar o percurso”, aconselha.

A partir daí, com a ideia consolidada, é recomendável também se aprofundar na provável transição, conhecer a nova carreira, dialogar com quem já ocupa esse lugar e entender melhor cenários e dinâmicas. “O trabalho é, sem dúvida, um lugar de ganhar dinheiro, mas também, um lugar legítimo de construir e manter relações sociais. Por tais motivos, sempre será muito importante para a reflexão e realização de cada um”, pontua. 

A paraense Melina Pinheiro, de 32 anos, é moradora de Ananindeua e há pouco tempo deu um novo rumo à vida profissional: largou uma carreira bem-sucedida como engenheira química para se dedicar à fotografia. Hoje, atua como fotógrafa de esportes, de família e faz fotos para empresas e profissionais liberais.

Melina conta que, aos 17 anos, quando precisou escolher a faculdade que seguiria, optou por engenharia química pelos projetos e indústrias existentes no Estado e pelo possível ganho financeiro que a carreira prometia. Começou a trabalhar desde o segundo semestre do curso e assim foi durante onze anos. “É curioso dizer que em poucos períodos fui efetivamente engenheira, pois, na maioria dos cargos, trabalhei com gestão de processos e pessoas, auditorias e até com vendas. O processo de mudar foi algo que veio sendo construído há muitos anos. Esteve presente em muitas escolhas, mesmo dentro da profissão: cada vez mais fui alcançando cargos que se pareciam menos com a engenharia e mais com outras profissões e habilidades. Há alguns anos já estava claro para mim que uma mudança teria que ser feita”, lembra. 

Momentos difíceis - O processo, recorda ela, não foi fácil, mas extremamente enriquecedor, no sentido do autoconhecimento. “Existia algo dentro de mim que não se encaixava mais naquele meio e, apesar de gostar de várias coisas na minha profissão, era como se uma parte de mim não estivesse mais ali. Foi um processo doloroso de autodescoberta pra chegar na resposta que eu buscava, então, eu passei por momentos difíceis. Tive que ir buscar elementos dentro da minha biografia que pudessem me dar um norte. A fotografia sempre esteve lá, seja como hobby, seja fotografando ou treinando meu olhar quando via uma paisagem, quando observava as pessoas ou assistia a um filme. Eu só tive que recomeçar. Inclusive acho que o meu processo ainda não está pronto, muitas coisas ainda vão acontecer”, acredita. 
 
Na hora de optar pela fotografia, no entanto, inúmeras inseguranças surgiram: retorno financeiro, estabilidade, mercado, habilidades técnicas. No entanto, Melina diz que não se arrepende. Nem do que fez antes e nem do que veio depois. “Tudo foi importante. Sem a engenharia eu não teria acesso aos conhecimentos que tive, a experiências diversas de trabalho, a tantas pessoas geniais que conheci. Sem ela, eu não teria alcançado meu sonho da independência e nem teria condições para financiar novos negócios. Sem dúvida, foi a decisão mais importante da minha vida. Quando eu me perguntava se havia um lugar para mim, eu mesma respondia que teria que criá-lo. Com isso em mente, hoje, prefiro as dificuldades que tenho em criar o meu lugar, estando consciente de tudo que isso representa, que, para mim, é a liberdade”, avalia.

Paixões - O comunicólogo Diego Ventura, de 32 anos, fez o caminho inverso ao de Melina. Saiu da carreira de fotógrafo para se dedicar a uma outra paixão: a gastronomia. Ele conta que escolheu Comunicação com ênfase em Publicidade e Propaganda justamente por conta do interesse em fotografia. Fez vários estágios na área e, depois de formado, trabalhou em revistas e editoras de Belém. Resolveu continuar a formação e se mudou para o Rio de Janeiro, onde cursou uma especialização em imagem. Lá, trabalhou com fotografia de moda e de TV e cinema. Depois, teve a oportunidade de fotografar para uma revista de gastronomia, o que acabou aproximando-o da temática. Tomou gosto pela coisa e começou a fazer vários cursos na área. Voltou a Belém, para ajudar a família em um negócio próprio e, com isso, teve a oportunidade de abrir um restaurante. A partir daí, a gastronomia acabou virando também forma de sustento.

Hoje, Diego não tem mais o restaurante, mas presta consultorias e trabalha no meio acadêmico. É coordenador e professor de um curso de gastronomia de uma universidade privada, além de fazer parte de grupos de pesquisa na área. Mais recentemente, está estudando e buscando certificações no ramo dos vinhos, necessidade que surgiu a partir da atuação como docente. 

“Durante o processo de mudança, tive algumas inseguranças, mas tive sorte de sempre ter por perto quem me apoiava e me ajudava a tomar as decisões. Minha mãe me deu muito suporte durante todas essas transformações e, mais recentemente, minha esposa também. Sem elas, não teria sido capaz de mudar. Não vejo que foi algo como abrir mão de uma profissão para ir pra outra. Fui aproveitando oportunidades que foram aparecendo, sempre movido pela paixão que sentia pela fotografia e pela gastronomia. Foi tipo trocar um amor por outro”, diz ele, que vez ou outra, ainda fotografa como um hobby. 

Para Diego, com apoio, planejamento e boas oportunidades, mudanças deixam a vida mais gostosa. “Sem dúvida, acabei aprendendo mais, amadurecendo e, por conseguinte, vivendo novas experiências”, conclui. 

Tecnologia - A jovem Bruna Farias, de 25 anos, também está encarando esse processo. Formada em um curso técnico no nível médio, ela achou que seria o caminho natural seguir essa carreira. No entanto, não foi bem assim que a vida se apresentou. Moradora do bairro do Tapanã, em Belém, ela explica que ainda bem nova decidiu fazer ensino médio integrado ao curso técnico de telecomunicações, pois tinha grande atração pelas questões da tecnologia. Quando concluiu, fez vestibular e foi aprovada em uma das primeiras turmas de engenharia de telecomunicações da Universidade Federal do Pará. Cursou por três anos e meio e chegou a trabalhar na área.
Quando entrou no mercado de trabalho, começou a sentir um certo incômodo com a profissão. “Infelizmente, me senti muito desconfortável nesses trabalhos, pois não conseguia me interessar totalmente pelos assuntos e me sentia mais realizada dando aulas particulares de inglês aos sábados. É que na mesma época, eu estava concluindo o curso de inglês em uma escola de idiomas e houve a oportunidade de entrar no treinamento de professores da escola. Até então, eu encarava o inglês como um hobby, algo que eu fazia por diversão e não como algo para levar como a minha vida profissional”, relata.

Doloroso - No entanto, depois desse treinamento, muita coisa começou a mudar. “A cada dia que passava, o treinamento ia me encantando mais do que as aulas da faculdade. Quanto mais eu planejava as minhas aulas e aprendia sobre alunos, sala de aula, fonética, ensino e aprendizagem, mais eu me via forçada na engenharia. Tinha mais gosto em ir para o treinamento do que para a faculdade. Foi quando eu notei que tinha algo errado, que eu realmente queria estar em sala de aula e não ser engenheira. Foi extremamente doloroso, pois eu pensava que estava jogando três anos e meio da minha vida fora. Chorei muito antes de decidir mudar de curso, pois também sentia medo de que a minha família não aceitasse ou que não apoiasse, mas, ao contar, tive todo o suporte”, lembra. 

Bruna, então, largou a Engenharia e foi cursar Letras - Língua Inglesa. “Foi uma decisão que mudou minha vida por completo, pois eu me sentia sugada e extremamente infeliz por fazer algo que eu precisava me convencer de que gostava. Eu demorei muito a sair, por teimar que a engenharia era o meu único caminho e não perceber que havia sim outras opções. Hoje em dia, eu trabalho com crianças e pretendo me especializar no ensino bilíngue da educação infantil, área que me encanta. Nunca é tarde para mudar o rumo das coisas”, assegura. 

Autoconhecimento - Para a psicóloga Kelly Silveira, a experiência de Bruna reflete bem o que muitos jovens passam hoje em dia: a escolha profissional nem sempre está atrelada a um processo de autoconhecimento, de domínio das informações do que faz um determinado profissional, sua rotina e desafios. “Atualmente, contamos com uma gama enorme de profissões, então, conhecer, dialogar com profissionais, entender o cotidiano poderá ser bem importante. Penso que cada profissional deva ter suas questões sobre insatisfações, não podemos reduzir tais questões à idade, porque isso pode ser relativo, mas claro que quando se é jovem, é importante entender o que se está escolhendo, pois, assim, a possibilidade de insatisfação pode ser bem minimizada”, ensina.

Troppo
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