Nem uma dose a mais

Fabiana Cabral

Se o tempo está frio a gente toma uma taça de vinho, se faz calor a pedida é uma cervejinha. Se o momento é de celebrar por que não um espumante? Motivos para beber não faltam, nem opções para satisfazer essa vontade, mas quando a quantidade de doses fica cada vez maior, sem hora, sem dia, sem lugar e, principalmente, sem limite, é preciso prestar atenção aos alertas que podem estar vindo dos parentes, dos amigos e até de desconhecidos: você já pode ter atravessado a fronteira entre o bebedor social e o alcoólatra. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que quase 3% da população brasileira acima de 15 anos de idade é considerada alcoólatra. Não se iluda com o percentual pequeno, esses 3% significam mais de 4 milhões de pessoas. Ainda de acordo com a OMS, 5% das doenças mundiais são causadas pelo álcool e mais de 3 milhões de homens e mulheres morrem todos os anos pela ingestão abusiva de bebidas alcoólicas. 

Francisco*, hoje estudante de Serviço Social, viveu intensamente essa relação abusiva com o álcool, até se dar conta que tinha perdido a adolescência inteira. O incentivo para os primeiros goles veio de dentro da família. Pai e tios, todos severamente adoecidos pelo álcool, deram ao menino de 12 anos os primeiros goles nas idas ao estádio, nos pequenos serviços de pedreiro, nas festas. As festas são as lembranças mais fortes do Francisco e a música é um elemento bastante presente na memória do menino que bebia para se enturmar com os grupos, principalmente aqueles ligados ao rock, ao metal. 

Aos 17 anos, bebia todos os dias da semana, faltava às aulas ou ia à escola de ressaca, mas já conseguia perceber que estava no caminho errado. "Eu bebia de segunda a segunda, eu não tinha paradeiro, não sabia como parar de beber e, de repente, uma vozinha interna me disse 'olha, tá bom, acho que tá bom de parar de beber'. Foi nessa época que escutei uma propaganda do AA e fui visitar o grupo. Cheguei lá, fui bem recebido, isso é muito importante ressaltar, fui bem recebido, fui bem acolhido".

Francisco lembra que no momento que alguém perguntou quem queria abandonar a bebida, ele demorou uma fração de segundos pra responder porque na cabeça passou um filme. "Enquanto ele repetia a pergunta eu estava pensando em Mosqueiro, na Praça (da República), em Cotijuba, eu já tava com saudade do que eu não ia mais fazer, mas eu levantei. Todo mundo aplaudiu, eu me senti muito importante. Comecei a ocupar minha mente, me sentir útil perante a sociedade por auxiliar, ajudar outro que está precisando. Então me emponderei de várias formas de conhecimento e fui construindo esse mundo."

Sóbrio há 21 anos Francisco chegou a montar uma comunidade, que manteve por dois anos, e tirou mais de 70 pessoas do vício. Mas ainda há muitos, milhares, precisando de ajuda. O consumo médio diário entre bebedores no Brasil é de 3 doses, 27% maior do que na região das Américas e no restante do mundo, que apresenta média de 2,3 doses por dia. Enquanto houve uma redução global no chamado Beber Pesado Episódico (significa que em um período de duas horas, homens consomem cinco ou mais doses de álcool, enquanto que mulheres, quatro ou mais doses) no Brasil aumentou de 12,7%, em 2010, para 19,4%, em 2016. Os dados são do estudo “ÁLCOOL E A SAÚDE DOS BRASILEIROS”, divulgado ano passado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA.

Um detalhe que chama a atenção nas informações divulgadas é o aumento do consumo de álcool entre as mulheres, inclusive aquelas na faixa etária de 13 a 15 anos. De acordo com o CISA os homens ainda são os principais consumidores de bebidas alcóolicas, mas, recentemente, o uso entre o sexo feminino tem aumentado significativamente, tanto em quantidade quanto em frequência. 
Para o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, “essa equiparação do consumo de álcool levanta uma série de preocupações, pois pode representar desigualdade nos resultados para a saúde, uma vez que as mulheres são biologicamente mais vulneráveis aos efeitos do álcool do que os homens. Com isso, elas têm maior probabilidade de ter problemas relacionados ao álcool com níveis de consumo mais baixos e/ou em idade mais precoce do que os homens”.

Jéssica* teve problemas graves por causa da bebida. Só parou depois de uma tentativa de suicídio. Foram quase duas décadas mergulhada em todo tipo de bebida e logo ela que, até os 11 anos, jurava nunca repetir o comportamento dos pais, ambos alcoólatras. "Quando eu via meu pai e minha mãe bebendo, eu dizia que nunca ia beber. Eles davam vexame, passavam dos limites e não era legal ver essas cenas. Infelizmente vendo os copos pela casa comecei a provar".  A professora conta que foi um final de infância e uma adolescência inteira marcada pelo que chama de "inferno". "Quedas físicas, morais, foi degradante mesmo. Acabou que eu também comecei a levar a bebida pra dentro de casa e meus filhos passaram a vivenciar as mesmas cenas que eu não quis no passado comigo. Sentia muita vergonha, prometia que nunca mais ia beber e dois, três dias depois já estava bebendo de novo”, relembra.

Natural da região das ilhas, Jéssica* faz parte de uma estatística que não tem números fechados: ninguém sabe precisar quantas mulheres estão adoecidas pelo álcool, mas o aumento é perceptível. 

A psicóloga Regina Batista trabalha como profissional colaboradora do AA há mais de 20 anos. Chegou ainda no último ano de faculdade, se aprofundou no assunto para poder ajudar as pessoas que vinham em busca de ajuda e acompanhou uma série de mudanças de perfil e de comportamento. 

"Passei a ver muitas mulheres em grupos, mas ainda tem aquela coisa de que as mulheres bebem e não veem isso como um problema, porque geralmente estão limpando a casa, estão arrumando. Num dia de folga, começam a beber e não percebem que isso acaba se transformando num problema. Ela [a mulher] acredita que aquele é um momento dela, seja nas tarefas de casa ou num momento de lazer, de esquecer os problemas. Não percebe que chega um momento em que ela utiliza a bebida alcóolica pra fazer isso como se fosse uma fuga e demora muito mais tempo para procurar ajuda", explica.

"Várias pessoas já tinham me falado, mas eu não admitia. Quatro dias depois da tentativa de suicídio recebi no celular uma mensagem perguntando se queria conhecer os Alcóolicos Anônimos e daquela vez aceitei. Pra mulher é mais vexatório que para o homem, ela fica mais vulnerável, ás vezes é estuprada, vende o próprio corpo pra continuar bebendo e leva até para outras drogas”, alerta Jéssica*, que não bebe há cinco anos.

Porto seguro para Jéssica* e Francisco*, o AA está presente em 62 municípios paraenses e são aproximadamente 230 grupos espalhados pelo Estado, recebendo pessoas extremamente fragilizadas que ganham atenção, cuidado e orientações que abrangem 36 princípios, 12 passos importantíssimos para a recuperação da saúde, da autoestima, da dignidade, do amor próprio. "A vida da pessoa fica totalmente bagunçada, as áreas espiritual, mental, emocional, a vida familiar, social, tudo isso fica bagunçado. O programa de AA dá condições de trabalhar todas essas áreas, é como se fosse recuperando a cada passo uma área, quando ele chega ao décimo segundo ele já trabalhou a área social, o físico, as relações familiares e sociais, então quando ele chega ao último passo, ele já se leva como um exemplo. Isso é o mais legal do programa, a possibilidade de resgatar, reestruturar essas áreas", explica a psicóloga Regina Batista.

QUEDA

O Relatório Global sobre Álcool e Saúde 2018, da Organização Mundial de Saúde, mostra que Brasil apresentou resultados positivos em direção à diminuição do consumo de álcool. A OMS aponta que a ingestão de bebida alcoólica passou de 8,8 litros, em 2010, para 7,8 litros, em 2016: 11% a menos, o que significa que cada brasileiro deixou de beber, por semana, uma lata de cerveja de 350 ml, ou uma taça de vinho de 150 ml ou uma dose de bebida destilada de 45 ml. Se as pessoas bebem menos, também adoecem menos e, no mesmo período, caiu de 5,6% para 4,2% a taxa de transtornos por uso de álcool. 

Apesar dos dados positivos ainda não dá pra comemorar. O Relatório da OMS mostra, também, que o Brasil continua acima da média mundial de consumo per capita, que é de 6,4 L/ano, e de consumo diário de doses, de 2,3 doses/dia. Outro dado que precisa ser reduzido, segundo a OMS, é o Beber Pesado Episódico (BPE), extremamente popular entre os mais jovens, que tem como consequências mais comuns riscos de acidentes e casos de violência. Dados de relatórios da OMS indicam um aumento do BPE no Brasil, de 12,7% para 19,4%, de 2010 para 2016, em contraste à diminuição no mundo (de 20,5% para 18,2%, no mesmo período).

DOENÇA

O alcoolismo é uma doença incurável que afeta não apenas quem bebe, prejudica todo o círculo familiar, social e profissional do alcoólatra, pessoas que se preocupam, mas que, no geral, não sabem como lidar com o problema. "Ninguém começa bebendo todas, sempre começa aos poucos e vai aumentando essa quantidade e enquanto ele está nesse movimento ele não percebe que está deixando de fazer algumas coisas ou agindo de forma como não agia antes, não se dá conta de que tá acontecendo isso e quando alguém chama a atenção ele nega, porque a negação é uma característica do alcoólico, porque ele acha que a qualquer momento pode parar", esclarece Regina Batista. 

Leandra* lembra quando o pai resistia em ouvir os conselhos da família. A preocupação era constante, porque o alcoolismo colocava a vida dele em risco já que eram constantes as quedas na rua. Um dia chegou a notícia que o pai tinha sido atropelado, precisou passar por uma cirurgia. Eram situações que deixavam a família constantemente sobressaltada. “Além desses cuidados que a gente precisava ter com ele, lembro de momentos importantes em que ele nunca estava, como na formatura e no casamento da minha irmã. Era muito difícil pra nós, filhos, conviver com essa situação, minha mãe [estava] sempre em oração para que ele parasse de beber. Ele só parou depois que ela morreu”, conta a funcionária pública que junto com os dez irmãos se privada de muitas coisas porque o pai deixava todo o dinheiro no bar.

"A falta do conhecimento faz que na tentativa de ajuda a família faça tudo errado, porque começa a brigar, começam os problemas. Muitas vezes o alcoólatra já vem preparado com argumentos que justifiquem a bebida e, dependendo do tipo de personalidade, pode ficar agressivo. Nesse primeiro momento a família pode participar das reuniões sem a pessoa que precisa de ajuda, ela leva os informativos, chama alguém do AA para uma conversa com o alcoólatra pra que se identifique com alguém que já passou pelo mesmo problema. Isso é fundamental pra que a família não adoeça junto", complementa a psicóloga.  

O consumo de qualquer tipo de bebida alcoólica pode trazer danos imediatos à saúde. Em alguns casos as consequências podem aparecer a médio e longo prazo. Para a Organização Mundial da Saúde não existe volume seguro de álcool a ser consumido, devido a alta toxicidade para o organismo humano, que pode provocar doenças mentais, cânceres, problemas hepáticos, como a cirrose, risco de infarto e acidente vascular cerebral, além da diminuição de imunidade. O álcool também é causador de episódios de violência física contra o próprio bebedor ou contra outras pessoas. 

Quando o álcool passa a influenciar de forma negativa a saúde física, a rotina e relações pessoais, é preciso buscar ajuda profissional, já que falamos de doença reconhecidamente crônica e que precisa ser tratada, mas nem sempre quem depende do álcool percebe a necessidade dessa ajuda e nessa hora o apoio que vem dos grupos de AA é fundamental. 

“A gente ajuda essas pessoas de uma maneira que não nos custa nada, de uma forma de doação mesmo, de um profissional cooperador que tem um sentimento de amizade, de carinho por essa irmandade que ajudou tantos alcoólicos a se recuperarem. Então como sabemos que ainda existem pessoas, principalmente mulheres que são mais discriminadas, que nós sabemos que está crescendo o índice de alcoolismo feminino, sem conhecer a irmandade, sem saber da possibilidade do programa de recuperação de AA, a gente continua fazendo o trabalho, levando o conhecimento a pessoas que até hoje não sabem que o alcoolismo é uma doença, especialmente à família”, explica a assistente social Helena Costa. 

Para a gastro-hepatologista e endoscopia digestiva, Deborah Crespo, os grupos de apoio são fundamentais porque o mecanismo de negação é uma constante nos dependentes químicos e quando finalmente buscam ou se rendem à oferta de ajuda pode ser tarde demais. “A primeira ação do álcool é na atividade cerebral, comprometendo atenção, reflexo e dependendo do grau de intoxicação até estados comatosos. O dano hepático pode ocorrer tanto em uso abusivo esporádico como pelo uso crônico e abusivo levando à cirrose hepática. Lembrando que o dano hepático na maioria das vezes ocorre de forma silenciosa, quando realizado os exames específicos, já está em quadro avançado de doença hepática podendo até evoluir para o transplante hepático”, explica a médica.

A especialista alerta que jovens e mulheres estão muito mais suscetíveis aos efeitos do álcool, com tolerância que varia de metade á ¼ do que os homens são capazes de suportar. “ A mulher ou o adolescente, quanto mais jovem ou de menor estatura, precisa de muito menos álcool para se embriagar ou ter uma lesão mais grave, uma intoxicação que pode ser aguda ou se prolongar cronicamente”. O consumo da bebida alcoólica pode levar do leve relaxamento até à confusão mental, dependendo da quantidade e do teor alcoólico presente na bebida – algumas chegam a ter 50% de álcool, uma bomba que pode ser disfarçada com aqueles coquetéis cheios de frutas e açúcar, que são uma armadilha para um grupo que bebe cada vez mais. “ Os adolescentes estão usando o álcool cada vez mais cedo, apesar de termos leis rigorosas quanto à venda, por exemplo, esse consumo é crescente tanto de bebidas fermentadas quanto de bebidas destiladas. O álcool hoje é a droga mais fácil de ser encontrada, é lícita, muitos pais se sentem à vontade de oferecer para os filhos sem se dar conta de que isso vai causar danos á saúde podendo chegar á dependência”.

Às vésperas da maior festa do país, já há quem esteja fazendo planos para a fantasia e para a quantidade de bebida capaz de ingerir nos dias de folia. Gente que vai abusar das “geladas” ou dos “drinks” para perder a timidez, para se soltar, para criar coragem na hora de paquerar e até para fazer sexo. Para todos eles um alerta: o álcool, consumido exageradamente, pode diminuir a libido, levar à impotência e, no caso das mulheres, a dificuldades para engravidar. O álcool pode causar graves lesões no fígado levando à cirrose. “Conheça seu limite, bebida é uma arma, pode ser um instrumento de lazer, de prazer, mas pode ocasionar problemas muito graves. É preciso ter controle sobre sua vida e sobre sua saúde e o álcool é o primeiro a tirar esse controle de você”, conclui a doutora Deborah.

Foi esse controle que Jéssica*, Francisco* e o pai da Leandra* perderam durante a relação conturbada que viveram com o álcool. Todos tiveram marcas profundas, amenizadas pelas mãos estendidas, por pessoas dispostas a compreender a doença que tomou conta deles. São paciente em tratamento, como milhares de outros que vencem uma batalha por dia quando evitam o primeiro gole. 

PRINCIPAIS DOENÇAS E PREJUÍZOS ASSOCIADOS AO ÁLCOOL  

100% dos transtornos por uso do álcool 
18% dos suicídios 
18% das violências domésticas 
27% das lesões no trânsito 
13% das epilepsias 
48% das cirroses hepáticas  
26% do câncer de boca 
26% das pancreatites 
20% das tuberculoses 
11% do câncer colorretal 
5% do câncer de mama 
7% da hipertensão

Troppo
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