Natal com novos significados

Todos os anos, é comum ouvirmos que o Natal é um momento de renovação, reflexão. Em 2020, para inúmeras famílias, entretanto, não foi preciso chegar ao último mês do ano para que essas palavras se tornassem ações e se fizessem presentes no dia a dia

Thamyris Assunção

Em meio a uma pandemia e à diversidade de sentimentos e impactos causados por ela, para muitos essa foi a oportunidade para rever posturas, pensamentos, atitudes. Foi necessário amadurecer, expandir horizontes, recobrar as forças, quebrar preconceitos, “construir pontes” e ressignificar a trajetória pessoal e profissional. Neste ano, para algumas pessoas, chegar ao décimo segundo mês de um período delicado e vivenciar toda a atmosfera que envolve o 25 de dezembro terá um sentido mais amplo, um sabor diferente, um toque ainda mais humano e mais próximo, apesar das limitações e das distâncias impostas por uma das maiores crises sanitárias já enfrentadas no mundo.

Reescrever a própria trajetória deu esperança e renovou o olhar e os sonhos da artesã Anna Lima, de 38 anos, que descobriu na criatividade uma saída para driblar as dificuldades financeiras e emocionais. Dona de uma microempresa que confecciona itens personalizados para festas há 7 anos, Anna, que é mãe de dois meninos e portadora de deficiência auditiva, sofreu com a desvalorização profissional ao longo do tempo e, mais recentemente, com a crise socioeconômica provocada pela pandemia. Os transtornos, as respostas negativas que recebia e as frustrações quase tiraram da microempresária a vontade de trabalhar e de prosseguir com o próprio negócio. Desde junho, a artesã viu a renda familiar diminuir, a frequência de encomendas dos produtos cair bastante e seus clientes se tornarem cada vez mais escassos.

Anna Lima (Acervo Pessoal)

Após viver experiências difíceis fora da capital paraense por tentar uma vida melhor em cidades como Marabá e Brasília (DF), Anna decidiu voltar à Belém. Com o apoio da família e de clientes fiéis, a artesã enxergou na confecção e venda de bolas e enfeites natalinos a oportunidade para romper barreiras, garantir o sustento da família neste final de ano e seguir com o desejo de ver o seu empreendimento prosperar. “Um dia, meu filho me viu chorando e disse: ‘mamãe, não se preocupe. A senhora é muito boa no que faz. A senhora não pode chorar’. Ele me ensinou que a gente não pode se deixar abater. No outro dia, já no final do mês de outubro, decidi pesquisar e encontrei como opção essas bolas de natal personalizadas. Investi nelas e deu super certo. A gente tem que acreditar e ter, antes de tudo, força de vontade”, conta. 

O investimento deu tão certo que trouxe clientes como Jodivana Leite, 37, administradora, que montou uma árvore de natal rústica, criativa e sustentável utilizando apenas galhos, luzes coloridas e as bolas de natal decoradas com fotos da família e do marido, que faleceu em 2019. “Em setembro do ano passado, infelizmente perdi meu marido e, logo depois, fui presenteada com essas bolas decorativas por uma amiga que considero como irmã. Fiquei encantada pela ideia. Estava ainda naquele processo de luto, dor e de ressignificar as coisas e então decidi encomendar, em dezembro, várias bolas com fotos da nossa família e de pessoas queridas para presentear familiares do meu marido e amigos íntimos. Nosso primeiro Natal sem ele se tornou, assim, um momento mais leve e, dessa maneira, fomos nos ressignificando com pequenos gestos. Gosto muito desses trabalhos manuais. Eu acho muito válido a gente dar oportunidade para esses microempreendedores”, afirmou.

Jodivana Leite e a filha, Eva (Acervo Pessoal)

A mudança de estratégia foi necessária e a artesã se diz grata com as lições aprendidas em 2020. A microempresária garante, agora, valorizar mais as pessoas e encontrar forças no apoio e nas palavras do marido e dos filhos. “Essa pandemia nos fez tirar um proveito bom. A gente aprendeu a valorizar mais a família, os amigos, as pessoas mais próximas. Eu aprendi a valorizar mais a minha família independentemente de trabalho, de dinheiro... de qualquer coisa. Estar com a família se tornou primordial. Esse Natal vai ser mais para estar junto com eles, porque a gente não sabe o que pode acontecer amanhã. Hoje, estamos bem. Amanhã, essas pessoas podem não estar mais conosco”, comenta. 

Recomeçar, reinventar uma história, escrever um novo capítulo é um agir comum que faz parte da jornada de muitos brasileiros, principalmente nesse final de ano. Talvez nunca o significado do Natal que, para a  religião católica simboliza renascimento, tenha adquirido um sentido tão preciso e tão intenso quanto neste momento. Recessão, desemprego, necessidades básicas que precisavam ser atendidas imediatamente e o medo do futuro obrigaram muitos a “renascer” com inovação e criatividade em novas profissões, novas metas, novos sonhos, mesmo em condições adversas. De acordo com uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), durante a pandemia, no segundo trimestre de 2020, o brasileiro teve sua renda mensal reduzida em cerca de 20%, se comparada com o mesmo período do ano passado. A trajetória da artesã Anna Lima faz parte desse cenário e das estatísticas que comprovam o agravamento das desigualdades socioeconômicas no país. É apenas uma dentre tantos que tiveram suas realidades drasticamente modificadas. 

Símbolos ganham novas interpretações

Em 2020, pode-se dizer também que os símbolos natalinos conquistaram novos significados. Muita gente já os vê de outra forma. Os presentes, por exemplo, serão diferentes. Irão além de roupas, sapatos, brinquedos, jóias, livros e embalagens caprichadas. E o ato de trocá-los ganhará uma nova interpretação. Para muitos, a força da união, a presença – ainda que virtual -, a solidariedade, a valorização da família e o fortalecimento dos laços de afeto na convivência diária serão as verdadeiras lembranças que importarão. Foi esse pensamento que motivou a escolha que a empresária Vivianne Hühn fez para si e para a família neste Natal. Para ela, estar com saúde e poder   contar com seus familiares serão os melhores presentes em uma comemoração natalina pautada pela simplicidade. Após uma conversa franca, a empresária e seus familiares decidiram abrir mão da tradicional troca de presentes para reverter os valores em doações de alimentos para entidades carentes.

Vivianne Hühn (Acervo Pessoal)

Vivianne e sua loja de roupas também foram afetadas pela pandemia. Estar preparada, atenta aos movimentos, às tendências criativas do mercado da moda e ter cuidado com a saúde das pessoas, ainda que em uma conjuntura desfavorável, fez toda a diferença na hora de passar pela crise. “Eu não senti medo porque sempre acreditei no meu potencial e no potencial de quem trabalha comigo. Trabalho só com mulheres e eu sempre soube que, se nós não ficássemos doentes, conseguiríamos ‘arregaçar as mangas’ e dar uma virada no momento mais crítico. E foi isso que aconteceu. Nós reavaliamos o que era importante, como iríamos nos relacionar com os nossos clientes e como os nossos produtos iriam se relacionar com eles. Eu pesquisei, li artigos científicos, testei. Daí surgiu a iniciativa da confecção das máscaras e de pijamas. Eu digo: o varejo mudou e as marcas que irão sobreviver, independentemente do tamanho, são aquelas que se preocupam com o desenvolvimento social da região, com o meio ambiente, que têm consciência social e ambiental. E essa sempre foi uma marca do meu trabalho”, afirma. 

Junto ao marido e os dois filhos, para a empresária, a consciência coletiva, os sentimentos e as atitudes que prezem pelo bem estar social terão um valor ainda maior daqui em diante. “A gente precisa ressignificar as nossas relações, depurar os nossos sentimentos enquanto seres humanos. Eu acho que não conseguiria passar 2020 e chegar ao final dele sem ter repensado minhas atitudes, a forma de me relacionar com quem está à minha volta.”, diz. 

Solidariedade fortalecida, ressignificada e necessária

O alimento, na tradição natalina, é um dos símbolos mais fortes. A ceia traduz fartura, a partilha, o momento de se reunir e congregar com a família. Para a jornalista Andressa Ferreira, 31 anos, esse é outro elemento natalino especial que ganhou significado maior em 2020. Apesar de todos os desafios enfrentados, a ceia terá sabor diferente e contará com um ingrediente fundamental: o altruísmo. Por meio do projeto “Natal solidário dos Amigos da 41”, a jornalista e cerca de 15 voluntários arrecadam alimentos e montam cestas básicas para distribuir às famílias mais carentes do município de Ananindeua, região metropolitana de Belém. Em sua 11º edição, o projeto, que existe desde 2009 e tinha como prática ir de casa em casa arrecadar alimentos não perecíveis, precisou se reinventar e conta, agora em 2020, com a solidariedade e a mobilização das pessoas por meio das redes sociais. A ação solidária já auxiliou cerca de 300 famílias e 350 crianças em anos anteriores. “No dia da entrega das cestas, sempre realizavámos uma grande festa, com todo mundo junto, onde fazíamos brincadeiras, sorteios, lanches para as famílias. Mas, esse ano deve ser diferente. Vamos ver o que conseguimos arrecadar e agendar a entrega com cada família (separadamente) para não haver aglomeração”, explica. 

Andressa Ferreira e o filho, Benício (Acervo Pessoal)

Para a jornalista, em um ano de tantas perdas e tantos aprendizados, a pandemia relembrou que o alimento, além de nutrir o corpo, tem também a função de levar alento e nutrir a alma de esperança das famílias mais necessitadas na semana que antecede o Natal. “Esse está sendo um ano complicado pra todo mundo. Mais do que nunca precisamos fazer a nossa parte. São famílias que precisam muito e que já contam com o nosso projeto. Vai exigir empenho e dedicação ainda mais, já que não teremos os mutirões solidários de arrecadações nas ruas. Também vamos precisar contar muito com a solidariedade das pessoas. Com a ajuda de todos, conseguiremos cumprir a nossa missão”, finaliza. 

E qual é a importância do ressignificar, afinal?

Ressignificar foi o verbo que remodelou os parâmetros de convivência social neste ano. Um período tão marcado por separações e dores, trouxe a oportunidade para todos de reavaliar situações com um olhar mais corajoso. Ressignificar, em suma, é olhar a vida com mais clareza. Para a psicóloga Juliana Mattos, 32, esse é o momento de transformar as tribulações em aprendizados, em soluções para uma jornada com mais sabedoria. “Não se trata de eliminar o problema e, sim, de transformá-lo e superá-lo de uma maneira saudável, consciente. Nos acostumamos com a rotina e vamos levando a vida sem dar conta da passagem dos dias. Mas, com a pandemia, fomos obrigados a nos voltarmos para o nosso interior, a voltar para nós mesmos. Mudamos nosso cotidiano, precisamos passar mais tempo em casa, o que nos fez refletir sobre nossos desejos, nossas relações, nossos planos. Então, saber se reinventar, se ressignificar é importante para todos os ramos das nossas vidas. A dica que eu deixo é: se você não está feliz com alguma situação, procure avaliá-la, questione de que forma você pode alcançar esse desejo dentro de suas limitações. Reconhecer as limitações é de suma importância para você não se cobrar tanto por algo que não consegue naquele momento. Se respeite mais e não deixe de acreditar em você”.

Juliana Mattos (Acervo Pessoal)

Para conhecer mais: 
@annalima.mimos
@viviloja
@psi_julianamattos
Projeto Solidário dos Amigos da 41

Troppo
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