'Não somos apenas empregadas domésticas. Somos empregadas, médicas e juízas!'

Lorena Filgueiras

A mineira Erika Januza conta que está vivendo o isolamento na companhia dos cachorros, em sua casa no Rio de Janeiro. Até que fosse decretado o estado de pandemia, que suspendeu muitas gravações e exibições, nossa entrevistada especial desta edição estava no ar em “Amor de mãe”, na pele de Marina. O momento tem imposto, além do isolamento (como medida mais eficaz para conter a disseminação do vírus), muitas reflexões e Erika conversou conosco sobre ele, além de racismo, violência, política e, como não podia deixar de ser, sobre sua carreira e da origem humilde – um papo muito conectado aos tempos atuais e igualmente necessário. 

Erika Januza (@lecanovo)

Troppo + Mulher: A gente realiza essa entrevista no dia [a entrevista ocorreu na última terça-feira, 19 de maio] em que, se vivo, Malcom X completaria 95 anos e, tristemente, quando o jovem João Pedro Mattos, de 14 anos, foi encontrado sem vida. Em um dia tão emblemático, mais uma vida negra se perde. Gostaria de iniciar nossa conversa falando sobre racismo, Érika: como enxergas o cenário do racismo no Brasil. Em face de tudo que estamos vivendo, como sairemos deste momento?
Erika Januza: Sim, um dia triste. Mais um dia triste. Mais uma vida que se vai e que entra como um número numa estatística. Meu desejo, hoje, é que a gente possa se lembrar do nome do João Pedro, assim como lembramos do Malcom X. Ele tinha uma família, tinha um nome, sobrenome... E meu coração chega a doer de pensar que ele pode ser mais um número. O racismo é cruel e ele existe e persiste em nosso país. Quem fala que não existe, é porque não é negro e não vive a nossa realidade. Vejo nossa luta ganhando força, ganhando mais vozes, mais rostos e isso me emociona, porque é a minha gente e estamos em todos os lugares. Vivemos uma pandemia e vejo um senso de coletividade, de pessoas se unindo para ajudar outras. Isso me dá esperança de um futuro melhor, mais solidário. Justo, eu já não sei se será, porque a desigualdade, da maneira como caminhamos, só tende a aumentar. Inclusive no cenário atual e provavelmente “pós-pandemia”. Mais reflexivos, eu espero que sim. Mas espero que toda essa reflexão se converta em ação. Espero que possamos olhar nosso próximo com empatia, sem se importar com a cor, orientação sexual ou saldo da conta bancária.

T+M: Como tem sido o momento para você? O que tens feito, lido, debatido? Não sei se é possível falar em “rotina” nestes tempos - mas se houvesse algo próximo, como seria a sua? Qual sua visão deste momento? O que tens visto que te aborreceu ou que emocionou?
EJ: Eu estou em isolamento, na minha casa no Rio. Sou mineira e minha família está toda em Minas Gerais. Tenho como companhia as meus cachorros, meus livros e meus pensamentos. Tenho lido bastante, porque farei a segunda temporada de Arcanjo Renegado [série da Globoplay]. Estou me alimentando para esse trabalho, quando chegar a hora. Além da volta da novela Amor de Mãe. A expectativa é enorme. Tenho visto séries e filmes. Uso as minhas redes sociais também, para debater assuntos e conversar com as pessoas. Mas não tanto quanto antes ou talvez como gostaria. Às vezes, o dia se divide entre animação e desanimação. Como uma escala. Acho que é normal em um cenário tão novo para todos. Não existe uma rotina, não criei um planejamento. Tenho dormido às 03:00 e acordado às 12:00. Bem estranho. Às vezes, criamos essa pressão de que precisamos fazer algo, criar, produzir... Estou respeitando o meu tempo, os meus sentimentos... é um dia de cada vez nesse momento. Já li muita notícia que me aborreceu, já chorei com muitas notícias de gente que perdeu entes queridos... É uma montanha-russa de emoções.  

T+M: Um pouco antes deste período atual, o cenário artístico vivia um momento de muita dificuldade, em função de um movimento de quase criminalização da profissão de artista. E agora temos questões como falta de apoio a muitos profissionais que perderam sua fonte de renda. Qual a função da Arte, Erika? Qual o papel do artista - e, principalmente, do artista negro?
EJ: O que é um país sem a sua cultura? Sem a sua história? A arte faz parte de quem somos, diz muito sobre uma nação. Para mim, arte é o meu sonho. Ela me dá esperança, assim como vejo trazer esperança para tantas outras pessoas. Vivemos um momento muito delicado na nossa cultura, de muitas incertezas... E nessa pandemia, temos muitos colegas que perderam sua fonte de renda. As pessoas têm a ilusão de que todo artista é rico. Não, não é! Temos que trabalhar, assim como qualquer outro trabalhador. A arte se faz em conjunto. Temos maquiadores, contrarregras e tantos outros profissionais do Teatro e Cinema, que estão sem o seu sustento. Ao mesmo tempo, é na arte que as pessoas têm buscado conforto no isolamento. E muitos que criticam, às vezes, não se dão conta disso. É na série, na novela, no filme, no livro, na música... Vale essa reflexão sobre o nosso valor. Como artista negra, meu papel é dar visibilidade e abrir o máximo de portas para outras, para que, como eu, tenham o mesmo destaque. E lutar por personagens com várias possibilidades representativas. Quero que tenham muitas “Erikas” na TV, no cinema, fazendo campanha, tendo o seu espaço. Estou aqui, hoje, porque lá atrás teve uma Ruth de Souza. Temos uma Elza Soares... E tantas outras mulheres negras que lutaram para que esse espaço fosse nosso. Como artista, sigo nesse legado de abrir portas e criar pontes. Temos que derrubar os muros que colocam os negros separados das grandes oportunidades.

Interpretei uma juíza, um papel que me deu muito orgulho, porque nós, negras, não somos apenas empregadas domésticas. É um trabalho tão honroso quanto qualquer outro. Mas estamos em todos os lugares. Somos médicas, juízas, professoras...

T+M: Quais outros artistas foram suas maiores inspirações? Qual o papel dos seus sonhos?
EJ: Além de Ruth e Elza, tenho minha mãe como uma grande inspiração. Qual é o papel dos meus sonhos? Eu sou muito grata e feliz por minha trajetória na TV, pelas personagens que fiz. Interpretei uma juíza, um papel que me deu muito orgulho, porque nós, negras, não somos apenas empregadas domésticas. É um trabalho tão honroso quanto qualquer outro. Mas estamos em todos os lugares. Somos médicas, juízas, professoras... E não estamos apenas no lugar de servir ao outro. Como atriz, sonho com uma protagonista de novela das 21h. Quero ver mais protagonistas negras nas histórias.

Erika Januza (@lecanovo)

T+M: Se me permitires, gostaria de aproveitar a oportunidade para voltar um pouco. Você nasceu em uma família humilde. Como foi decidir pela Arte? Em que momento você teve a certeza de que era o que queria fazer? Como foi recebida a sua decisão?
EJ: Eu sempre quis ser modelo. Esse era o meu sonho. E fazia muitos e muitos testes para isso, participava de desfiles de beleza também... Meu pai era um grande incentivador. Lembro da primeira notinha que saiu com meu nome, o quanto que ele ficou orgulhoso. Ele não estava mais aqui quando fiz minha estreia na TV. Mas eu fui fazer o teste para Suburbia acreditando ser uma audição para modelo. Foi minha primeira experiência como atriz. Trabalhava nessa época como secretária numa escola. Minha família sempre esteve do meu lado, sempre me incentivou.

“Tinha o sonho de ter uma maleta de maquiagem e, assim que pude, comprei uma. Com produtos para minha cor de pele”, sobre o primeiro sonho de consumo que realizou.

T+M: Quais foram os maiores desafios até aqui? Sendo artista, negra, mulher e de origem humilde?
EJ: Muitos desafios! Já escutei tanta coisa... Ser mulher, de origem humilde e negra, você triplica todos os obstáculos. Já escutei que não teria espaço para mim, por causa da cor da minha pele. Já ouvi de gente da área dizer: “ negra não vende”. Mas jamais me conformei com este pensamento. Já enfrentei muitos preconceitos. E, ainda hoje, eles aparecem. Agora, de forma mais velada, porque tenho uma visibilidade. Mas ele ainda existe. É como se sempre precisasse provar o meu valor, essa é a sensação. Tenho que provar porque mereço estar onde estou. Sempre. Mas eu sigo em frente. Tenho muita fé mesmo. Rezo todos os dias. Agradeço por cada conquista. E peço para que, assim como eu, outras mulheres possam ter seus desejos realizados.

T+M: Você debutou na TV em Suburbia, num papel conquistado em uma disputa com tantas outras milhares de mulheres. Consegues reviver os detalhes do começo de carreira e a emoção? Como foi receber essa notícia?
EJ: Eu trabalhava como secretária numa escola. Pedi para sair mais cedo, porque tinha esse teste para modelo. E eu fui. Não sabia que era para TV. Lembro que eles pediram para cortar meu cabelo, algo que eu era muito apegada e deixei. Foi um sofrimento passar por essa mudança. Deixá-lo natural, na marra! Sem nem saber. Só fui saber do resultado um mês depois. Me apaixonei pela profissão ali! Sonhos, eu posso dizer, eles se realizam. Não perca a sua esperança. Trabalhe. Corra atrás. Eu sempre fui determinada. Foi um misto de emoção com aquela incredulidade. “Eles me querem mesmo?”, pensava. A ficha só caiu mesmo quando assinei contrato e comecei a gravar.

“Eu entendo que é importante a classe ter união sempre e se posicionar. Temos voz. E ela ecoa! Isso aumenta a nossa responsabilidade. Mas você não sabe a dor e o que cada um está passando dentro de sua casa”

T+M: Qual o primeiro sonho (de consumo) que você realizou?
EJ: Eu sempre trabalhei para me sustentar, para ajudar a minha família. Você não começa em nenhuma carreira, acredito eu, ganhando uma fortuna. Eu, ao menos, não (risos). O que ganhei foi para me bancar, ajudar a minha mãe... Mas a primeira coisa foi tão simples... tinha o sonho de ter uma maleta de maquiagem e, assim que pude, comprei uma. Com produtos para minha cor de pele. Mas ainda hoje eu ainda sonho, por exemplo, em ter a minha casa própria. Estou trabalhando para conquistar e realizar.

T+M: Quais planos (de carreira) você vai ter de aguardar para realizar? Até lá, como tem cuidado de seu emocional, da saúde mental e do corpo?
EJ: Estava gravando Amor de Mãe, que foi paralisada. Voltaremos quando for prudente e seguro para os profissionais. A emissora foi muito sensata e correta. Tenho a segunda temporada do Arcanjo Renegado para fazer também. E vamos ver como será o futuro... É um dia de cada vez, não temos data para nada, por enquanto. Saúde mental e física são coisas que precisamos estar sempre atentos, ainda mais nesse momento tão delicado. É ficar atento aos pensamentos, buscar o apoio de quem você pode contar, seja pelo telefone ou uma vídeochamada. Vamos encontrando nossas formas de viver nesse novo cenário. Tem dias que eu coloco um pagode, um reggaeton e deixo tocar para espantar o baixo astral.

“Tudo o que conquistei foi com muito trabalho, muito esforço. Mesmo! Nada veio fácil. Se tivesse que refazer tudo o que fiz, faria exatamente igual”  

T+M: Há um debate recorrente sobre artistas de posicionarem politicamente. O que pensas a respeito?
EJ: Esse debate é necessário, mas é também delicado. Bem delicado, porque não sabemos o que cada um está passando nesse momento. Estamos no meio de uma pandemia, em isolamento, com tantas questões íntimas sendo reviradas. Manter-nos sãos, pensar no próximo, tentar resolver um dia de cada vez... Eu entendo que é importante a classe ter união sempre e se posicionar. Temos voz. E ela ecoa! Isso aumenta a nossa responsabilidade. Mas você não sabe a dor e o que cada um está passando dentro de sua casa. Hoje, você falar sobre política significa que você vai desagradar algum lado. E você será atacado, fato! Nem todos estão prontos emocionalmente para lidarem com isso. Eu defendo uma causa, tenho a minha luta contra o racismo e isso já diz muito sobre meu posicionamento político no momento, com o que não compactuo. Mas tenho respeito por aqueles que pensam diferentes e que, nem sempre, está pronto para entrar num debate, numa discussão.

T+M: Você é considerada uma das artistas mais bonitas do Brasil. Quando você olha para trás, em retrospectiva, qual seu saldo até o momento? O que faria de novo? O que não gostaria de ter feito?
EJ: Não tem nada que eu me arrependa. Mesmo! Eu durmo com a minha consciência muito tranquila. Tudo o que conquistei foi com muito trabalho, muito esforço. Mesmo! Nada veio fácil. Se tivesse que refazer tudo o que fiz, faria exatamente igual.  

T+M: Li que você deseja muito ser mãe - nem que seja independente. Em qual momento, a ideia começou a tomar mais corpo? Que mãe você espera ser?
EJ: Tenho 34 anos. Ainda tenho um tempo para realizar esse desejo. Mas é isso. Não sei se vou encontrar alguém há tempo ou com o mesmo sonho que o meu. E nosso sonho, só a gente pode ir atrás dele. Não vou deixar de viver algo que eu quero porque talvez não encontre o cara certo (risos). Se encontrar, será perfeito. Estou aberta para isso. Mas se eu for metade do que a minha mãe é, nossa, já serei uma grande mãe. Ela é o meu exemplo.

Para conhecer mais:
@erikajanuza

Box:
Styling: Vitor Carpe
@vitorcarpe  

Beleza: Bruno Cândido
@bccandido

Troppo
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