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Nada silencioso

O diagnóstico de Fátima Bernardes, de um câncer no endométrio, chama atenção das mulheres a um tipo raro da doença, cujos sintomas não são tão silenciosos e que devem ser imediatamente investigados, aumentando as chances de cura

Lorena Filgueiras

Há alguns dias, quando a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes anunciou que estava com câncer no útero e que se ausentaria do matutino “Encontro”, programa que comanda na TV Globo, para se submeter a uma cirurgia. Muito se especulou e cogitou-se, inclusive, que fosse um problema no colo do útero, até que a própria Fátima deu mais detalhes: tratava-se de um câncer – em estágio inicial – no endométrio, tecido que envolve o útero. 

Apesar de ser um tipo raro da doença, ele atinge, em média, 6.500 brasileiras por ano. Diferentemente do rastreio ao câncer de mama – cujos protocolos pedem mamografia e consulta anuais com médicos especialistas, a partir dos 40 anos –, o câncer de endométrio não possui um protocolo específico de rastreamento, mas é importante não perder de vista alguns aspectos: 80% das pacientes que apresentam a alteração já estão na menopausa. Menos de 5% têm menos de 40 anos de idade (a grande maioria tem mais de 60 anos). Fátima Bernardes tem 58 anos. Sabe-se que a obesidade é um fator de risco, mas como não há especificidades indicativas, é preciso prestar atenção aos sinais.

A obesidade é um dos fatores de risco para o câncer de endométrio (Divulgação)

Bem diferente do outro tipo de câncer no útero, que é o do colo uterino, que atinge mais de 16.700 brasileiras por ano (e que não costuma apresentar sintomas nas fases iniciais), o de endométrio apresenta: se a mulher tiver um sangramento entre ciclos menstruais ou se já estiver na menopausa e sangrar, deve procurar logo atendimento médico. Esse é um sinal muito importante e não deve ser negligenciado, até porque esse sintoma aparece normalmente na fase inicial da doença: mesmo que seja câncer de endométrio, as possibilidades de estar na fase inicial são enormes.

A vendedora Edna Souza de Araújo, 51 anos, sentiu que o fluxo menstrual estava muito forte e descontrolado. Era começo de 2019 e ela foi ao médico fazer alguns exames. “Deu apenas um pequeno mioma no útero, mas, mesmo assim, os médicos mandavam eu aguardar a menopausa chegar, pois, segundo eles, quando ela chegasse o sangramento iria parar e o desenvolvimento do mioma também, mas nunca parou. Fiquei até abril de 2020 sangrando direto sem parar, minha hemoglobina estava em 6.0 e a anemia, muito forte. Minha irmã então me recomendou o médico dela. Me consultei e logo na primeira consulta, ele disse que eu teria que operar urgentemente, por causa do sangramento. Fiz a cirurgia para a retirada do útero, ovários e trompas. Deu tudo certo no procedimento e na recuperação, mas quando o meu útero foi para a biópsia, constatou-se que o mioma era de origem maligna, ou seja, cancerígeno”, relata. Mas a luta ainda continuaria, já que pouco tempo depois, Edna recebeu a notícia de que teria de ser operada novamente – desta feita, o procedimento não seria ginecológico, mas oncológico, indicado para o caso dela. “Depois de um mês da primeira cirurgia, realizei a segunda, retirei alguns linfonodos, glândulas, que poderiam ter sido acometidas pela doença. Mas depois da biópsia, constatou que estavam todas limpas”, revela.

Edna Souza de Araújo (Acervo Pessoal)

Com o resultado da biópsia, e já se recuperando da cirurgia, Edna iniciou a quimioterapia. Não foi um caminho fácil. Aliás, não tem sido, já que, no momento, ela está na segunda sessão. “Os cabelos já estão indo embora, sinto alguns sintomas por conta do tratamento. É algo que realmente acontece, mas está tudo bem. E acredito que tudo vai ficar melhor ainda”, diz confiante.

Sempre que é possível trazemos matérias e relatos de quem está lutando contra essa doença. Embora mudem os personagens e alguns aspectos, dois pontos são comuns e fundamentais ao sucesso dessa batalha tão árdua: o apoio da família, amigos e o tratamento (quanto mais precoce, melhor). A notícia sempre assusta, mas a confiança precisa ser trabalhada e estimulada. “Todos ficaram bem tristes, mas não deixaram, em momento algum, que o desespero e a tristeza tomassem conta do ambiente aqui em casa. Todos me ajudam da forma que dá e, por isso, tudo vai passando de uma forma mais fácil. Fiquei sem chão. Dá logo um desespero, se passam um milhão de coisas na cabeça. Pensei na família, no trabalho, em tudo que eu não poderia ajudar e fazer por um tempo, mas aos poucos, ainda estou me acostumando com todas estas informações e sei que logo tudo vai estar tudo normal novamente”, afirma. 

Reforço necessário

A médica oncologista Paula Sampaio reforça o alerta: a obesidade é o principal fator de risco, além da idade. “Geralmente acomete mulheres mais maduras, após a menopausa. Estar envelhecendo aumenta o risco. Existe ainda um fator de menor importância, mas que deve ser observado, que é o histórico de câncer ginecológico na família”, inicia. 

Paula Sampaio (Acervo Pessoal)

No caso de Fátima Bernardes, muito se falou da possibilidade de ser um câncer de colo uterino – uma alteração que, em mais de 90% dos casos, ocorre por conta do vírus HPV. “Já no câncer de endométrio, os fatores riscos são diferentes, bem como a apresentação. O câncer de colo de útero costuma ter uma fase inicial bem assintomática, enquanto que o de endométrio, mesmo na fase inicial, dá alertas! O principal sintoma é sangramento vaginal. Como acomete mulheres, em sua maioria, já na menopausa, sangrar não estando mais em período menstrual, chama a atenção. Mesmo mulheres que não pararam de menstruar, e essas correspondem a 20% dos casos, diante de ciclos regulares, se sangram fora do período, é importante que também busquem um diagnóstico”, afirma a médica oncologista. Em resumo, procure um médico se ocorrer sangramento pós-menopausa ou fora do período menstrual. 

Há outros sintomas que também podem ser observados, como enfatiza Paula Sampaio: dor pélvica e, em fase mais avançada, perda de peso, fadiga, anemia. 

“Quanto mais cedo, mais chances de cura!”

“Se detectado em estágio inicial, as chances de cura são maiores que 90%”, diz a oncologista Paula Sampaio. “A melhor chance é identificar quando a doença está restrita ao endométrio, que é um tecido superficial do útero”. 
Paula elogia ainda a postura de Fátima Bernardes, em função de sua enorme visibilidade. “Uma mulher jovem, que descobriu o câncer em fase inicial e com grandes chances de cura, foi a grande responsável por tocar no assunto, voltando nossas atenções à essa doença, sobre a qual quase não se fala, mas que acomete cerca de 6.500 mulheres todos os anos e que ceifa a vida de 1.700 no mesmo período. A partir da coragem dela, muitas mulheres foram alertadas. Como oncologista clínica fico feliz que ela tenha descoberto precocemente e que, se Deus quiser, ela vai se curar”.

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