Na batida potente e autêntica da Viviane!

Lorena Filgueiras

Viviane Batidão tem um orgulho danado da própria história e nem poderia ser diferente. Criada pela avó Natália, junto com o irmão caçula, aos 15 anos se viu descoberta musicalmente. Com apoio irrestrito dentro de casa, ela começou a cantar na noite. Define-se, desde então, como careta. O primeiro cachê foi convertido em uma garrafa térmica para a avó e aquele dinheirinho foi providencial, afinal toda a ajuda era bem-vinda. Mas a menina de voz potente tinha algo de diferente: carregava consigo orgulhos enormes de cantar brega e de suas próprias raízes – que após mais de vinte anos de carreira continuam inalterados, como ela nos conta a partir de agora.

Troppo+Mulher: Nasceste numa família muito musical, né?
Viviane Batidão: Tenho uma prima que é cantora também, a Vanda, da Banda Ravelly, que fez muito sucesso. Atualmente, ela é cantora gospel e não canta mais na banda. Mas a minha maior referência foi o tio Osmano, que também tocava na igreja. Ele é autodidata e aprendeu com aquelas revistinhas de cifras. Quando ouvia, corria para a casa dele só para vê-lo e ouvi-lo tocar Roberto Carlos, Raul Seixas...

T+M: Vindo de uma família cuja musicalidade fluía facilmente, quando foi que decidiste que este seria o teu caminho?
VB: Como eu te disse, tudo começou com esse meu tio. Como ele fazia parte de grupos da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Santa Izabel, eu o acompanhava, tamanha era a minha admiração.Ia junto e comecei a participar do coral e de grupos da congregação. Nasci em Santa Izabel e, além da escola e de poucas brincadeiras com os vizinhos, eu ia para a igreja. Então iniciei muito menina. 

T+M: Uma coisa é cantar no coral. Outra é alguém observar e dizer: “essa menina tem jeito para a coisa”. Teve essa pessoa?
VB: Teve sim. Costumo, inclusive, dizer que foi a primeira pessoa que acreditou em mim, como artista, mesmo. Foi o Marcos Simões. Ele era dono de uma banda, aqui em Santa Izabel, chamada “Banda Fênix”. Eu tinha 15 anos. Como a música já estava muito dentro de mim, eu tinha um grupo de amigos que tocavam uns instrumentos. A gente ensaiava num local, no centro da cidade, que era tipo um depósito e que ficava perto do bar onde a Banda Fênix se apresentava. O Marcos, além de proprietário da banda, também era dono do bar e sempre que ele passava na frente do depósito, ele me ouvia cantando. Um dia, ele me chamou e perguntou se eu não gostaria de fazer um teste na banda dele. Fui, mas meio sem acreditar, sabe? Porque era algo que eu amava fazer, mas não acreditava em mim. E eu não botava fé, porque a cantora da banda, na época, cantava muito! Passei no teste e cantei na banda por três anos! Fazíamos muitas apresentações em Santa Izabel mesmo, nos balneários, festas particulares. 

"A humanidade, em geral, precisou se reinventar, ser mais humana, ser mais solidária" (Estúdio Tereza & Aryanne)

T+M:Quem te acompanhava nessas empreitadas? Afinal, eras menor de idade...
VB: Pois é, mas eu ia praticamente só. Eu fui criada com a minha avó paterna, Natália. Eu e meu irmão mais novo, na verdade. E éramos só nós três o tempo todo. Meu pai trabalhava em uma outra cidade e ela pegou a gente para criar. Quando comecei a cantar profissionalmente, foi uma ajuda familiar, né? Era pouco, na época, mas entrou para ajudar em casa. Aos 15 anos, eu tinha a chave de casa, para tu teres uma noção. 

T+M: Olha! Eu também tinha a chave de casa nessa idade. Que bacana ouvir isso de ti, Viviane!
VB: Pois é, então vais entender o que vou dizer. Quem ouvia que eu tinha a chave de casa, ainda tão nova, podia pensar que eu iria abusar... mas quando! Sempre fui muito caretona. Voltava direto para casa quando o show terminava – isso entre duas e três da manhã. 

T+M: Mas vó Natália fez recomendações?
VB: Fez! Ora se não! Ela não era tão rigorosa... e não está mais entre nós. Já está morando com Papai do Céu, mas nunca foi carrasca. Ela era muito de boa. Ela confiava muito na educação que tinha nos dado. Mesmo assim, eu tinha que dizer tudo: onde seria o show, com quem eu iria, com quem eu voltaria. Vovó conhecia todos os meus amigos – que iam também à nossa casa e dormiam por lá. Eles eram loucos por ela, porque vovó tirava de si para dar pros outros. Deus o livre, era desse jeito! [ela cai na gargalhada] O Marcos [Simões, de quem ela falou já] ia lá dar satisfação para ela. Os tempos eram outros, mas ela era muito tranquila. 

T+M: Lembras o que fizeste com teu primeiro cachê?
VB: Comprei uma garrafa térmica para a vovó! [ela gargalha novamente]

T+M: Ela gostou?
VB: O quê?!?!? Muito! Foi uns 20 anos atrás e custou 15 reais. Era bonita, vermelha.

T+M: Quando começaste a cantar, me corrija se eu estiver errada, era final da década de 90 e o Brega não tinha a bagagem e aceitação que tem hoje. Sentiste o preconceito?
VB: Sabe que não? O interior é mais aberto, especialmente ao Brega. Tenho muito orgulho de dizer que muito dessa luta, do start pela aceitação do Brega, eu fiz parte. São vinte anos de estrada! Antes da pandemia, eu toquei em casas grandes de Belém, em festivais.

T+M: Nunca pensaste em cantar outro ritmo?
VB: Não. Até hoje, não. Até recebi propostas de outros ritmos. As pessoas costumavam dizer “precisas investir numa carreira nacional”. E eu digo: “eu invisto! Mas cantando o meu ritmo!”. Quando comecei a cantar na Fênix, que é uma banda-baile, além do Brega, cantava Forró, Cumbia, Merengue... 

T+M: Que são ritmos que tiveram muita aceitação por aqui, em função da proximidade com o Amapá e influências nordestinas por aqui...
VB: Isso mesmo! Era um repertório de 6 horas, cantávamos de tudo, mas sempre conto que sei quase todos os bregas paraenses. Sempre fui musical. Embora não toque instrumentos, sempre ouvi tudo. Perto da nossa casa, havia um terreiro de danças e eu ouvia tudo até 6, 7 horas da manhã. Gosto muito do que é nosso.

T+M: O Brega chegou nas elites. Como enxergas isso?
VB: Isso é uma questão de resistência! A elite não aceitava o ritmo, por entendê-lo como sendo som de periferia. Mas houve um movimento de resistência das “marcantes”, que foram bandas que marcaram época, como Fruto Sensual. Deu uma parada e voltaram com tudo. Hoje, não agora, por causa da pandemia, mas até recentemente, Fruto Sensual, Cheiro Verde e eu temos agendas lotadas para festas e casamentos da alta sociedade. E não podem faltar os clássicos “Galera da Golada”, “Príncipe Negro”, Edilson Moreno. Ouve resistência de ambos os lados, mas falo com segurança, a gente abraça muito o que é nosso. Eu sou muito orgulhosa das minhas origens, do que eu canto. O paraense, em si, tem muito dessa postura, de ter orgulho de suas raízes.

T+M: Estamos frisando muito os shows e comportamentos de pré-pandemia. Em qual momento te deste conta da seriedade da situação que atravessamos?
VB: Eu, depois que comecei a tomar conta da minha carreira, no final de 2017 e começo de 2018, quase não via mais TV ou lia jornais, por pura falta de tempo mesmo. Acompanhava mais pelas redes sociais e quando a pandemia chegou, perto do carnaval, ouvi muita coisa: que o vírus não chegaria aqui; que ele não sobreviveria em um país tropical. Mas, então, parou tudo. Ficamos sem trabalho. Chegamos a pensar “vai durar um mês, um mês e meio, no máximo”. Quando o vírus começou a afetar pessoas conhecidas, foi quando a ficha caiu. Até então, tava meio distante, nas redes sociais. Mas quando afeta teus amigos e teu irmão caçula... Meu irmão [Osmar Neto, de 33 anos] contraiu o vírus no auge da crise do [hospital] Abelardo Santos. Eu via as pessoas caindo na frente do hospital e tive crises de ansiedade, pânico mesmo. Fiquei desesperada porque é meu único irmão! Mandei meu filho [Viviane tem um menino de 3 anos de idade] para a casa do pai. Sabes que a nossa classe está passando muita dificuldade, né? De um dia para outro, inúmeros artistas perderam suas rendas e estão passando fome, necessidade mesmo! Estamos meio sem esperanças, porque não sabemos quando voltaremos, já que esse setor é o último a voltar. Eu, por exemplo, vivo só de música! Estou sem trabalhar desde maio e logo já será julho! Mesmo assim, tenho que dar meu jeito. Aperto aqui, ali e vou dando meu jeito de pagar minhas contas. Realizei uma live solidária no dia 04 de junho e doei tudo para uma instituição que dá apoio às famílias de crianças em tratamento contra o câncer; doei para famílias que precisavam muito em Santa Izabel e doei para artistas, músicos e técnicos... pra essa galera que trabalha na noite.

T+M: E a Arte tem salvado as nossas vidas neste momento de pandemia. Na tua opinião, o que podemos esperar do futuro?

VB: Olha, Lorena, eu estou meio confusa. As coisas ainda não estão muito claras para mim e tudo tem sido muito difícil. A falta de perspectiva de futuro me angustia. As lives fazem com que a gente se reinvente, porque a gente vai atrás de um patrocinador e tem as doações, mas são difíceis... especialmente no YouTube, porque tens que ter um número “x” de seguidores, além de uma internet poderosa. Eu tenho vivido momentos muito difíceis. Tive que começar a tomar remédio para dormir, para a ansiedade. Eu tava sentindo vontade de chorar por qualquer coisa. Tenho meu filho comigo e um namorado que me ajuda para caramba! Mas o que eu posso te dizer é que acho que voltaremos mais fortes! A humanidade, em geral, precisou se reinventar, ser mais humanos, ser mais solidários. Eu não gosto de falar do que faço, das doações. Eu mesma não fui entrega-las porque tenho medo de alguém dizer que quero me aproveitar. Mas é muito recompensador receber as fotos, ouvir os depoimentos. Isso enche o meu coração. Mesmo aperreada, eu penso: “Deus, muito obrigada, eu mesmo aperreada, tenho conseguido ajudar outras pessoas que estão passando por coisas mais difíceis que eu”. Depois que tudo isso passar, essa lição vai ficar marcada demais em nossos corações e em nossas mentes. Só acho que a galera tá se empolgando muito e afrouxando o isolamento. Ainda não é hora de fazer isso, pessoal! Mas o sentimento de solidariedade não vai passar, porque vivemos na pele! Assim como eu, outras pessoas viram familiares e amigos ficarem doentes. Aconteceu com muita gente! Eu não perdi ninguém, graças a Deus! Mas se de famílias inteiras que foram perdidas. Espero que a gente tire lições muito importantes disso.

"As pessoas costumam dizer: 'precisas investir numa carreira nacional'. E eu digo: 'eu invisto! Mas cantando o meu ritmo!'” (Estúdio Tereza & Aryanne)

T+M: Nossa, Viviane, passaste por muita coisa.
VB: Passei, mas olho pra tudo como algo necessário. Eu não seria a mulher forte que eu sou, se não tivesse percorrido essa estrada.

T+M: Eu queria pontuar dois momentos, da tua carreira, que me chamaram minha atenção: quando Mike do Mosqueiro [um vídeo feito com um personagem da ilha entrou nos trending do YouTube ele cantava uma música de Viviane, “Vem meu amor”] te levou para o Faustão, alémde tua participação no último Rock in Rio.
VB: Minha primeira projeção grande foi em 2009. O Mike gravou “Vem meu amor” e foi um sucesso estrondoso. O Mike dizia que o sonho dele era me conhecer. O cara foi parar no Faustão e fui lá conhecê-lo. Foi um sonho! As pessoas que curtem nossos ritmos começaram a me olhar de maneira diferente. Depois que passei a administrar minha própria carreira, passei a fazer o que eu queria! Gravei uma versão de Shallownow, da Lady Gaga, que teve uma repercussão enorme e foi o que me levou a uma turnê Sul-Sudeste que foi um estouro e chamei atenção de uma empresa nacional que me levou para o Rock in Rio. Avalia a loucura: eu fui a primeira banda de tecnomelody a tocar no maior festival de música do mundo! Foi surreal, ao ponto de até hoje a ficha não ter caído!!!!! [ela ri]. Quando eu tinha 13 anos, vi um avião pela primeira vez e pensei “será que uma dia vou voar de avião?”. Em 2007, já como Viviane Batidão fui fazer meu primeiro show em Macapá... e fui de avião. Quando entrei, lembrei na hora! Pensei: “olha onde a música tá me levando... de avião e sendo paga!”. Também sonhava em me apresentar no mesmo lugar em que a Beyonce e a Rihanna cantassem... e fui! Sendo paga! Eu olhava para aquilo e só via a imensidão de pessoas! Quando me ligaram convidando, eu quase achei que era trote! [risos] Isso foi o momento ímpar da minha vida. 

T+M: Quem te batizou com o Batidão?
VB: Quando me casei, a música causava uma ciumeira doida. Abandonei meu dom por um tempo e trabalhava com a família do meu ex-marido. Um dia eu estava numa das lojas da família e apareceu um amigo meu chamado Alex Batidão, me chamando para gravar uma música em cima de um playback. Brinquei com ele que eu nem sabia mais cantar, mas gravei e era “Vem meu amor”. O melody era chamado de “batidão” nas festas. A batida do melody é mais grave e nos shows o DJ anuncia: “aí vem o batidão!”. Com o tempo, as pessoas se referiam a mim dizendo, “A Viviane, do Batidão”. Tenho um parceiro de música e produtor musical, o Betinho Izabelense, me sugeriu: “por que tu não usas o Batidão como sobrenome artístico”. Fiquei com receio por causa do batidão do funk e ele me ganhou no argumento: “que nada! Aproveita que isso vai te embalar, vai te fazer dar um monte de entrevistas!”. E não é que ele tinha razão?

Para conhecer mais:
@vivianebatidaoficial

Troppo
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