Milagres, milhares de histórias de fé

Neste domingo, os relatos de superação se concentram nas ruas da capital e mostram a força do Círio de Nazaré.

Rodrigo Cabral

Belém amanhecerá em festa neste domingo (13). As casas, as ruas, os rios, os corações, tudo parece seguir o mesmo curso da procissão do Círio, conduzido por um sentimento especial dissipado pelo ar, tão único como é o cheio da maniçoba, que aguça o paladar e a memória afetiva dos paraenses. Estamos vivendo uma intensa mistura de belas sensações, incontroláveis e surpreendentes. É assim a relação dos romeiros com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. O momento em que a berlinda passa pelos devotos é sentido quase que como uma aparição de Maria, os olhos se fixam na direção Dela, emocionados. A pele arrepia, as lágrimas caem. Uns estendem as mãos em um pedido silencioso de bênçãos, outros batem palmas para saudar a Virgem. São segundos em uma conexão que, como escreveu o Padre Fábio de Melo: “nenhuma explicação sabe explicar”.

A tradição relata que, em 1700, o caboclo Plácido José de Souza encontrou uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, às margens do igarapé Murucutu. Ele, então, a levou para sua casa. E, na manhã seguinte, milagrosamente, a estatueta havia retornado para o mesmo local do achado. Sempre que a “Santa” era levada para outro espaço, ela retornava para a margem do Murucutu, onde Plácido veio a construir uma capela e, posteriormente, foi erguida a Basílica Santuário de Nazaré. Há 227 anos, a procissão do Círio – cujo trajeto parte da Igreja da Sé à Basílica, reconta essa história. Ao longo de mais de dois séculos, milhões de novas histórias surgiram em torno dessa manifestação religiosa e, passo a passo, promessa a promessa, tornaram a devoção mariana em território paraense algo de expressivo reconhecimento no mundo inteiro. Se você mora aqui, com certeza, conhece alguém que relate alguma experiência milagrosa atribuída à intercessão da Virgem Maria. 

João Paulo Brito é um deles. Com 29 anos, é professor de Filosofia e devoto de Nossa Senhora de Nazaré. Porém, até a adolescência, ele não acreditava em Deus e, muito menos, em Maria. Até que a sua avó, uma das figuras mais importantes na vida dele, ficou gravemente doente, no ano de 2003, quando João tinha apenas 13 anos. “Ela fazia exames atrás de exames e nada de melhorar. Tomava vários remédios e nada. Minha casa se transformou em uma igreja, as pessoas rezavam terços de hora em hora. Até que, numa sexta-feira de maio, já internada na UTI, minha avó teve uma série de convulsões. A cada convulsão que ela tinha, uma parte do seu corpo ficava paralisada. Minha avó sempre me incentivou a pedir o auxilio de Nossa Senhora de Nazaré, quando achasse que não havia saída”, conta. 

João Paulo Brito (Naiara Jinknss)

O estado de saúde da senhora seguiu agravando até que equipe médica já não tinha esperanças. “Um dia, por volta das 11h30, o meu tio, que é militar e bastante sério, me ligou do hospital, chorando feito uma criança, dizendo que os médicos só estavam esperando ‘a hora dela’. Eu desmaiei, quando acordei, todos estavam em prantos, na casa. Passadas algumas horas, eu me lembrei do que minha avó havia me dito. Então, fui até o altar e peguei uma imagem de 30 cm de Nossa Senhora, que tínhamos. Levei-a para o quintal, na época arborizado, a coloquei na mesa, ajoelhei e disse assim: ‘não sei quem a Senhora é. Não sei o que faz. Mas, se a Senhora é o que dizem e tem poder para fazer milagres, te peço, por favor, tira minha avó dessa situação, sem nenhum defeito (sequelas). Se curá-la, eu me entrego a ti e ao teu filho, e minha vida passa ser de vocês. Mas, se não me ajudarem, me esqueçam’", reproduz emocionado.

Para a surpresa de João Brito, no dia seguinte, chegou ao hospital um grupo de patologistas para avaliar a paciente e descobriram que a doença era leptospirose. A partir de então, a senhora tomou três diferentes tipos de antibióticos e, depois de dois meses, voltou para casa. “Os médicos disseram que minha avó sobreviveu por milagre. Que as orações foram cruciais. E eles ficaram muito espantados por ela não ter ficado com nenhuma sequela. Passado um mês do momento em que a minha avó recebeu alta, tive o melhor sonho de minha vida. Eu me via no estacionamento do Ver-o-Peso e, de lá, enxergava Nossa Senhora sobre a baía do Guajará com um semblante bem tranquilo. No braço esquerdo, ela segurava um buquê de lírios brancos. No direito, carregava o menino Jesus, que sorria muito. Então, ela me disse: ‘meu filho amado, quanta saudades de ti. Não seja um rebelde e nem ande longe dos caminhos de Jesus. Nós te amamos muito. O que houve com a tua família foi para que todos vocês voltassem para o colo do nosso Deus. Tu serás capacitado e muito usado para falar do meu amor e do meu filho. Deus te abençoe em nome do Pai, filho e Espírito Santo’". 

Já se passaram 15 anos do milagre com a avó de João Paulo, que, hoje, está com 85 anos de idade e bastante lúcida. Depois dessa experiência, ele cumpriu com sua palavra e entrou para o grupo de jovens “Filhos de Maria”, que apoia o núcleo e a retaguarda da berlinda durante as procissões, especialmente os homens que integram a Guarda de Nossa Senhora. “No Círio de 2015, eu senti Maria me convidado a fazer parte daqueles filhos dela. Eu chorei, chorei muito, lembrei-me de tudo que eu era, o que ela tinha feito em minha vida. Sempre que estou em oração constante e profunda, sinto cheiro de rosas. E, naquele dia, Nossa Senhora falou fortemente comigo. Mas não sabia como iria chegar até a Guarda. Foi então que Ela tocou no coração do meu padrinho, que me fez o convite. Acredito muito no tempo de Deus. Nada na vida do cristão é por acaso. Acho que Nossa Senhora estava me preparando para entrar na Guarda. Pois é um trabalho árduo e o ano inteiro. O Círio é um momento ímpar para que a igreja e o povo voltem-se para Deus pelas mãos de Maria”, afirma.

O milagre da cura não foi a única demonstração do poder de Nossa Senhora de Nazaré na vida do atual guarda da Santa. Em 2017, ele viveu outro momento, no mínimo, intrigante. “Eu estava de férias em outra cidade e minha casa, aqui, pegou fogo em todos os compartimentos. Quase tudo foi destruído. Do computador, à cama, guarda roupa, santuário, meus livros, etc. Por incrível que pareça, meus santos de devoção - Nossa Senhora de Nazaré e São Miguel Arcanjo – ficaram intactos, assim como as botas de couro que eu havia comprado e ofertado à Nossa Senhora, para trabalhar nos eventos dela. A casa está sendo reconstruída. Mas, eu não posso deixar de dizer que Nossa Senhora e São Miguel Arcanjo sempre estiveram presentes. Eles colocaram pessoas maravilhosas em nosso caminho, que nos ajudaram a reerguer. Minha família e a Guarda foram cruciais para que a fé continuasse sendo o nosso norte. Tudo o que passei, tudo o que suportei, tudo o que vivi, vivo pela fé. E é ela que me faz ser o que sou até hoje. Posso dizer abertamente para o mundo inteiro: eu sou da imaculada!”, ressalta.

Crer para ver
Fé é crer sem ver. No caso de Francisco Alan Araújo Barbosa, 35 anos, foi preciso muita fé para que a mãe dele voltasse a enxergar perfeitamente.

“Ela estava perdendo a visão aos poucos e, por várias vezes, eu a encontrei chorando. Me deixava muito angustiado saber do seu sofrimento e não poder fazer nada. A única opção era uma cirurgia bastante delicada, que poderia deixá-la cega de vez. Eu sempre rezava muito, pedindo que a minha mãe acordasse boa, mas a situação seguia na mesma. Um dia, estava passando em frente a Brasílica, parei e resolvi entrar. Prometi, com muita fé, a Nossa Senhora que, se ela cuidasse daquela enfermidade, eu iria na corda do Círio por 10 anos”, relata.

Francisco Alan Araújo Barbosa (Naiara Jinknss)

Cheio de gratidão, Francisco faz questão de contar que, em menos de uma semana após ter feito a promessa, sua mãe acordou e disse que a mancha na sua visão estava desaparecendo, até que sumiu completamente. “Ninguém conseguiu explicar, nem os médicos. Acabei indo por 17 anos na corda. Não duvidem. Quando a gente se apega à nossa mãezinha, a gente consegue muitas coisas”, aconselha. 

Luciano Braga Bessa, este ano, pagará promessa Círio pela primeira vez. Sua graça foi profissional. Com 30 anos, o técnico de informática estava desempregado e decidiu pedir a intercessão de Nossa Senhora para mudar esse quadro. “Sempre acompanhei o Círio. Há dois anos, eu fui com um amigo e ele me deu um pedaço da corda, no fim da procissão. Naquele momento, fiquei todo arrepiado, senti uma coisa forte e comecei a acreditar mais ainda. O mercado está saturado, trabalho de carteira assinada estava difícil de arrumar. Então, pedi à Virgem Maria que me ajudasse a conseguir um emprego, não importava o cargo, mas que eu tivesse uma oportunidade de ir crescendo na empresa. Fui chamado para trabalhar como serviços gerais e, neste domingo, vou agradecer. Eu acreditei e esperei a minha oportunidade chegar. Estou muito feliz e realizado. Agradeço todos os dias a Ela e a Deus por essa graça”, comemora Luciano

Troppo
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