Reflexo da pandemia: mais saúde à mesa

Por Lorena Filgueiras

A pandemia e o isolamento social mexeram com os hábitos alimentares. Muitas pessoas decidiram usar o momento a favor do equilíbrio, incluindo comida saudável ao dia a dia. Como numa corrente do bem contínua, produtores rurais afirmam, inclusive, que a procura por orgânicos aumentou, gerando mais demanda e renda.

Diz-se que um dos segredos de uma saúde de ferro é “descascar mais e desembrulhar menos”. Faz todo o sentido numa cultura alimentar tomada por “alimentos” (assim, entre aspas mesmo, considerando os pozinhos e ingredientes impronunciáveis produzidos em laboratório)ultraprocessados. Vá em frente e leia com atenção o rótulo daquele suco de caixa que se gaba de ter só fruta. Perceba a quantidade de siglas, espessantes, corantes, açúcares sintéticos. Lá em baixo, em letras ainda mais diminutas, veja que apenas 5% do conteúdo da caixa são de suco da fruta – e o restante?

Aproveitando o momento em que foi necessário, por força das circunstâncias, ficar protegidos em casa, muitos aproveitaram para fazer uma revisão obrigatória de vida – de comportamentos aos hábitos alimentares. 

O consumo de alimentos orgânicos aumentou consideravelmente, como parte dessa mudança de perspectiva. É o que afirma a pequena produtora rural Maria Jeanira Pereira, 36, que há 13 anos trabalha com orgânicos. “As vendas aumentaram em 20%”, conta. “Antes da pandemia, só vendia na feira. Hoje, além da feira de orgânicos, entrego 20 cestas toda semana”, detalha. A história de Maria Jeanira com a produção de hortaliças orgânicas começou há mais de uma década, por meio da iniciativa de uma grande empresa nacional, do ramo dos cosméticos. Além de produzir e vender, nossa entrevistada também destina itens de sua produção para dentro da própria casa e só enxerga benefícios em colocar produtos livres de agrotóxicos à mesa. “Sou consumidora. [Há] muitas vantagens em ter uma vida saudável e tenho a minha própria renda, além de quetambém estou contribuindo para um mundo melhor”, finaliza.

A percepção de Maria Jeanira, sobre o aumento do consumo, é corroborada por uma grande pesquisa, conduzida pelo Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Saudável, divulgada no final de 2019. Dentre alguns dos dados tornados públicos, a constatação de que o brasileiro tem, sim, consumido mais alimentos orgânicos – esse aumento foi sentido entre 2018 e 2019, levando à conclusão de que, entre as 1.027 pessoas ouvidas (em 12 grandes cidades brasileiras), 33% consumiam orgânicos pelo menos uma vez por semana, enquanto que 36% consumiam 5 vezes por semana.

Além de produzir e vender, Maria Jeanira Pereira também destina itens de sua produção para dentro da própria casa e só enxerga benefícios em colocar produtos livres de agrotóxicos à mesa (Acervo pessoal)

Quando falamos de orgânicos, o mercado não se restringe apenas aos alimentos: há cosméticos, itens de higiene pessoal, produtos de limpeza para casa – só para citar algumas das possibilidades que são facilmente encontradas. O segmento da alimentação orgânica, entretanto, ainda é, disparado, o mais conhecido.

Outro fator que contribuiu enormemente à popularização deste tipo de insumo é o sistema de assinatura de cestas, como foi mencionado por Maria Jeanira – afinal, até há pouco tempo (num horizonte de dois anos), esses produtos eram encontrados com mais facilidade (e mais caros) nos supermercados. 

Mayara Cohen  há dois anos tem um negócio voltado ao delivery de orgânicos. (Acervo pessoal)

Mayara Cohen, 29, há dois anos tem um negócio voltado ao delivery de orgânicos – também em cestas. O negócio nasceu de uma observação atenta e de uma necessidade. “Quando eu voltei a morar em Belém, passei a morar perto de uma das, naquele momento duas, feiras de orgânico aqui da cidade. Percebi como os sabores eram mais intensos nas frutas e como as folhagens eram, no geral, bem mais bonitas, além, claro, dos benefícios de uma alimentação sem agrotóxicos. Ao mesmo tempo, vi como era um canal ainda muito ‘exclusivo’. A feira acontecia só em um dia na semana e só naquele espaço da praça Batista Campos. Então, ficava muito restrito a quem tinha carro ou morava pelo bairro. Imaginei que se mais gente tivesse a possibilidade de acesso, isso beneficiaria o movimento como um todo. Passei um tempo estudando os meios mais viáveis, comparando com o processo em outras cidades, até que cheguei ao modelo que a gente usa hoje, de cestas com tamanhos pré-definidos, em a pessoa que compra escolhe o que quer receber”, relata.

Além de empreendedora, como é possível notar, Mayara também é consumidora. “Alguns sabores eu considero incomparáveis mesmo, como o da banana, por exemplo. Mas, para além disso, é super legal, no consumo orgânico, acompanhar o ciclo dos frutos, a sazonalidade. Ter acesso às frutas típicas da nossa região e lembrar da ‘época’ de cada uma; saber como o clima influencia no que chega à nossa mesa e respeitar isso,adaptando-se à naturezae não o contrário”, explica.

Ela conta ainda que neste período de pandemia, especialmente depois do dia 21 de março, o consumo e, por conseguinte, as encomendas aumentaram significativamente. “Nosso número de entregas semanais um pouco mais que dobrou”. As cestas podem chegar à casa do consumidor apenas com folhagens, mas há opções com outros produtos e elas vão de 3,5kg (que custa aproximadamente R$42) até com 7kg de itens (essas custam, em média, R$60).

Os benefícios para quem passa a consumir orgânicos são inúmeros – da própria mudança no paladar, passando pela pele, organismo e regularidade intestinal. 

Mayara adquire os produtos diretamente de produtores da Associação Pará Orgânico. “São famílias produtoras de municípios próximos a Belém, todos certificados como produtores orgânicos”.

A agricultora Rozilene Mateus, 43, é uma das pequenas produtoras que vendiam suas produções nas praças Batista Campos e Brasil e hoje integra a Associação Pará Orgânico, da qual Mayara, nossa personagem anterior, adquire os produtos das cestas.

A agricultora Rozilene Mateus integra a Associação Pará Orgânico (Acervo pessoal)

Rozilene comemora o impressionante salto de consumidores de seus produtos orgânicos. “Aumentou 80%, se comparado com antes da pandemia”, afirma. Ela diz que adoraria produzir mais variedades orgânicas aqui na região, tais como pimentões e tomates – dois dos itens que o brasileiro mais consome e cujas produções, em boa parte do país, mais recebem agrotóxicos.

O engenheiro de produção José Edilson Oliveira Neto, 26, é consumidor de longa data de orgânicos. Nascido e criado no interior, ele conta que sempre se alimentou de produtos livres de agroquímicos. “Quando me mudei para Belém, vi que a maneira de adquirir esses alimentos era diferente, até conhecer pequenos produtores do entorno. De tanto pesquisar, encontrei as feirinhas e passei a comprar nelas o que levava para casa”. Pergunto se ele sentiu diferença nos valores e preços praticados – tanto em supermercados quanto nas feiras. “Não concordo que os preços sejam superiores. No geral o que eu consumo equivale aos que é vendido no supermercado”, conta. 

Como o hábito de se alimentar de orgânicos o acompanha há algum tempo, José Edilson diz que planejamento faz toda a diferença, “até porque os orgânicos duram menos, se comparados aos produtos que recebem químicos”. Quando questionosobre sua motivação de consumir esses produtos, ele é enfático. “Apoiar o pequeno produtor!”. E complementa. “O sabor é maravilhoso e bem diferente. Gerar renda aos pequenos faz toda a diferença. Comprar do pequeno produtor é o que me impulsiona a consumir”.

Para conhecer mais:

Ícone instagram @belemorganica
Ícone whatsapp (91) 98486-2191

Maria Jeanira
Ícone whatsapp e ícone telefone: (91)99270-5248

Rozilene Mateus
Ícone whatsapp e ícone telefone: (91) 99127-5256

Troppo
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