Mães à luta

Elas estão na batalha contra o coronavírus e, em relatos emocionados, revelam seus cotidianos de lutas, angústias e afetos.

Lorena Filgueiras

A médica obstetra Danielle Leal afirma não ser uma pessoa emotiva normalmente. Entretanto, no dia em que a procurei, perguntando se aceitaria conversar comigo para uma matéria sobre mães/profissionais que estão na luta contra o Coronavírus, ela comentou que o irmão, também médico cardiologista e na linha de frente, havia lhe mandado uma mensagem mais cedo, “do nada”, como ela definiu. “Dani, se eu morrer, não deixa minha esposa e as crianças desamparadas”, ele dizia. “Isso me acertou em cheio”, conta ela. “Mas vamos lá. Temos de seguir em frente”.

Danielle é uma entre centenas de mulheres profissionais da Saúde, que são mães e que, neste domingo (e em todos os outros dias) estão fora de suas casas, longe dos filhos e unidas sob o mesmo propósito: cuidar de quem precisa. Ouvimos de algumas delas relatos emocionados sobre a doença e a incerteza do futuro. Iniciamos suas entrevistas com uma única pergunta: “Quando você percebeu a gravidade da situação?” e deixamos que, a partir dessa reflexão muito pessoal a respeito do cenário todo, elas se abrissem e compartilhassem um pouco de suas vidas.

Ouvir uma mulher dizer pra outra que cuide dela e dos filhos, foi muito impactante.

“Parecia algo muito distante. Eu só me dei conta do que realmente estava acontecendo, quando vi que haviam comprado um frigorífico para guardar os corpos em Manaus. Naquele momento, pensei: ‘meu Deus, é uma questão de tempo até chegar aqui, em Belém’. No hospital onde eu trabalho, começaram a fechar alas e mais alas, com muitos pacientes infectados pelo coronavírus. Vi que era o nosso pior cenário, embora eu acredite que o pior ainda esteja por vir. Enquanto falo com você, estou no hospital, onde tenho passado a maior parte do meu tempo. No domingo das mães, estarei de plantão também, porque há muitos colegas que estão adoecendo e as escalas, desfalcadas. Fora os colegas afastados por serem parte de algum grupo de risco. Tenho uma filha de 3 anos, a Magali. Sinto muito medo, muito mesmo [ela começa a chorar e deixo que ela tome o tempo que quisesse, até conseguir retomar o relato]. Dia desses, minha filha pediu ao Papai do céu pra eu não morrer. [ela interrompe novamente o relato]. Neste dia, foi tão difícil! Todas as noites, a gente ora, né? E naquela noite, ela implorou para o Papai do céu não me levar, por conta da doença.

Aquilo foi muito chocante para mim! Acho que fui uma das primeiras a vir trabalhar toda paramentada e chegaram a me olhar torto no começo – agora não mais. Meu esposo reclama muito de minha ausência, mas entende também, por ele ser da área da saúde. Dos dias mais difíceis que tive no hospital, destaco uma paciente, grávida de mais ou menos 8 meses, implorando que eu não a deixasse morrer. Olhei no fundo dos olhos dela e recomendei uma cesárea de urgência. A criança passa bem e a cesárea a beneficiou muito, tanto que ela não precisou ser entubada e estava na UTI só para que pudéssemos observar, de perto, sua evolução. Ela é uma mulher jovem, com outros três filhos. Ouvir uma mulher dizer pra outra que cuide dela e dos filhos, foi muito impactante! Peço a todos que estão lendo: fiquem em casa! Não há respiradores pra todo mundo! O povo não faz ideia do caos que estamos vivendo. Fiquem em casa pelas famílias de vocês. Estou longe da minha neste domingo! 

Inclusive, Magali, filha, estou longe de você neste dia das mães [ela pausa novamente], mas é por uma causa nobre. Tem gente que está precisando muito de mim. E isso é amar ao próximo, viu? Vamos ter muitos outros dias das mães para comemorarmos juntas. Te amo!”

- Geiza Magalhães, 37 anos, médica ginecologista e obstetra.

Dá um nó imenso na garganta, atormenta qualquer alma ver as pessoas que você ama à beira da morte – é um sentimento indescritível! 

“Quando a doença começou a se instalar em São Paulo, tinha um compromisso agendado lá, um curso que seria dado por instrutores internacionais no hospital Albert Einstein e foi tudo cancelado. As crianças e meu esposo iam junto pra curtir São Paulo durante o evento. Todos nos frustramos, mas cancelamos e ficamos à espreita, esperando a hora de tudo começar... A partir desses dias, estabeleceu-se uma intensa preparação dos serviços, provisão de epi [equipamento de proteção individual], ajustes de fluxos internos, além de uma verdadeira maratona de preparação mental para lidar com isso. As notícias, mundo afora, eram as piores. Tenho dois filhos: a Giuliana, de 21 e o Gustavo, de 11 anos. Ao final de um dia de trabalho, voltar pra casa e abraçá-los renova a todos! Nada como o aconchego dos colos deles após jornadas longas. Meu marido, que também é enfermeiro, apresentou a forma grave da doença: não conseguia respirar, não conseguimos compensá-lo em casa. Ele teve grande parte do pulmão devastado pela doença, além de febre constante e mal-estar geral. Tivemos que interná-lo às pressas. Dá um nó imenso na garganta, atormenta qualquer alma ver as pessoas que você ama à beira da morte – é um sentimento indescritível! Só a fé nos ampara! 

Ele precisou de UTI. Por ser um ambiente familiar para nós, cheio de amigos com quem temos trabalhado a vida toda, ele fica confortável recebendo cuidado e carinho, quando eu não posso estar junto. Vê-lo reagir depois de 24 horas de internação, foi o melhor dia de todos! Me deu esperança, me fortaleceu e me fez acreditar que vai dar tudo certo, que um Deus olha por nós e que Ele sabe o que é melhor pra cada um! Provavelmente, estarei de plantão no domingo das mães e quando tudo isso passar, todas as festas serão uma só: a vitória da vida. Mas essa nação, a Federativa do Brasil, está em débito com os profissionais de saúde, que abdicam de suas famílias, que são mal remunerados, que têm uma carga horária desumana a cumprir. Espero firmemente que essa pandemia traga a urgente necessidade de reconhecer o valor de todos.

Sinto medo todos os dias, mas o coração não gosta desse sentimento e se agarra na esperança. Quero deixar uma mensagem para o Gustavo: meu filho querido, amor da minha vida, você cresce num mundo difícil, cheio de riscos e perigos. Embora eu não consiga acompanhar, como gostaria, sua formação, saiba que tudo que faço é pra trazer mais segurança e felicidade pra você! Tudo que quero é o melhor pra sua vida. Toda vez que chego cansada, esgotada do trabalho é o seu carinho que me renova! Você que me fortalece e me ajuda a seguir em frente. Espero que o nosso exemplo de perseverança e trabalho duro, obstinado possam contagiar cada vez mais você. Que você também seja inundado por esse imenso prazer que é cuidar das pessoas. Seja bom, seja dedicado, amável. Trate todas as pessoas como você gostaria de ser tratado. E jamais deixe de amar, porque o amor é tudo de nós, é tudo o que somos”.

- Gizelle de Azevedo, 41 anos, enfermeira e coordenadora assistencial de enfermagem da UTI adulto.

[Na noite anterior ao dia do fechamento da Troppo deste domingo, que ocorreu na última quinta-feira (7), o esposo de Gizelle recebeu alta e já está em casa]

Penso toda hora em gravar um vídeo pra deixar para minha filha. Eu gravo, apago. Há dias que são muito difíceis.

“Trabalho tanto na parte estratégica, quanto na assistência, em dois hospitais diferentes. Embora as pessoas não deem muito valor à parte estratégica, é muito cansativo, porque não é possível parar, já que há demanda crescente e é preciso rever planejamentos. Minha ‘ficha não caiu’ de imediato. Assisto muito pouco TV, então realmente não tinha noção – até entrar no site da Organização Mundial da Saúde [OMS], em busca de informações a respeito de protocolos de maternidade e ver que havia sido decretado uma pandemia. A última vez que o mundo assistiu uma pandemia foi há cem anos! Realmente jurei que não seria uma nova gripe espanhola e segui em frente. Quando vi os números crescendo na Europa, aquilo me assustou, até surgir o primeiro caso no Brasil, logo depois do carnaval. Nas reuniões técnicas, começamos a estabelecer alguns protocolos, sob a perspectiva de o pior a ocorrer por aqui – mas tudo que estamos vivendo agora supera, em muito, o nosso pensamento inicial. Estou muito assustada, porque parece que as pessoas ainda não perceberam a gravidade de toda a situação. Hoje, quando saí do hospital [a entrevista ocorreu no sábado, 2 de maio], as feiras estavam lotadas. Eu entendo que seja o ganha-pão das pessoas, mas todos estão se contaminando. Vejo gente minimizando os impactos letais dessa doença, estimulando que as pessoas se exponham, que saiam de casa. Fico muito assustada quando vejo os noticiários e os corpos se acumulando. Isso é surreal! Há famílias recebendo notícias das mortes de seus parentes depois de horas ou só no dia seguinte, porque não há gente suficiente para dar essa informação. O dia mais difícil que vivi, foi quando uma família me pediu para checar o motivo de o nome do pai ter saído do sistema de espera por leitos. Fui checar e ele havia falecido. Como se dá uma notícia dessa? Isso me machuca tanto! Eu me coloco no lugar dessas pessoas, porque é uma doença solitária demais. Depois que o paciente é internado, ele fica só.

Tenho uma filha, a Gabriela, de 8 anos. Se minha irmã não estivesse morando aqui, conosco, eu nem sei o que seria de mim, porque não me acovardo: é minha profissão e estarei onde quer que precisem de mim. Quero ser útil! Isso quer dizer não sinto medo? Tenho muito! Tive conversas com meu irmão, que é médico intensivista e que me orientou sobre como cuidar da esposa dele e dos filhos. Da mesma forma que expliquei pra ele quem eu gostaria que estivesse no meu enterro, já que há protocolos sanitários e de segurança que limitam o número de pessoas presentes a cinco, para evitar aglomerações e pelo alto nível de contaminação. Fiquei pensativa demais. Há pais que planejam e projetam as vidas de seus filhos, eu nunca fiz isso. [Danielle para um pouco e começa a chorar] Eu só gostaria que ela pudesse usufruir de tudo que eu puder/pude proporcionar pra ela e que eu mesma não tive. [ela se emociona novamente] Ela tem um pai que é louco por ela, tem meus irmãos, os avós... quando eu saio para o plantão, ela chora muito! Penso toda hora em gravar um vídeo pra deixar pra ela. [ela silencia e espero que ela novamente consiga falar] Eu gravo, apago. Há dias que são mais difíceis e faço o possível para não ficar triste na frente dela. No começo da pandemia, víamos muita TV e ela chorava muito, então decidi que não veríamos mais canais aberta. Quando chego do trabalho, depois da higiene, ainda vou cozinhar para nós e sempre faço comida a mais, para que ela possa comer ‘comida da mãe’ no almoço do dia seguinte, porque ela ama minha comida. Eu tenho tanta sorte, sabe? Meu trabalho me dá oportunidades de proporcionar coisas muito boas à minha filha: quintal, espaço. Quando penso que tenho de falar em isolamento para famílias que dividem um cômodo, isso acaba comigo! Não ter álcool em gel é problema de classe média, entende? Há pessoas que não têm água em casa! Tenho visto uma onda enorme de solidariedade: eu mesma, quando peço ajuda aos meus amigos e colegas, para atender pessoas e fazer diagnósticos, vejo surgir um monte! 

Gabriela, minha filha, mamãe te ama e quer muito que você sinta orgulho! Tenha coragem!”     

- Danielle Leal, 39 anos, médica obstetra e assessora estratégica.

Tenho medo de levar o vírus para dentro de casa. No hospital, todo dia é uma batalha.

“Quando vi as pessoas ao meu redor adoecendo, fiquei muito preocupada: meus familiares, meu irmão... enfim, rostos conhecidos. E isso foi lá pela metade de março. Tenho um irmão que mora na Suécia e meus pais foram visitá-los em fevereiro. Voltariam em março, mas não conseguiram, porque estão presos lá [em função dos fechamentos das fronteiras e suspensão dos voos]. Isso até me emociona, porque estou preocupada com eles, com minha família. Há momentos em que eu não me sinto segura nem dentro de casa, afinal, eu passo o dia inteiro fora, lidando com casos muito sérios. Tenho medo de levar o vírus para dentro de casa. No hospital, todo dia é uma batalha. Há ocasiões em que eu não consigo fazer tudo que eu gostaria. Há limitações, às vezes não há recursos – e nem falo de recursos materiais. As alas e UTIs têm sido construídas em tempo recorde, mas é complicado. Todos os dias são muito difíceis, mas me impacta demais ver bebês recém-nascidos nos colos das mães que sentem medo de infectar seus filhos. Fico bem angustiada. 

Vejo as pessoas nas ruas e tenho vontade de dizer que voltem para casa! Se não por elas mesmas, por suas famílias, seus filhos. 

Tenho uma filha de 3 anos, a Cecília e é ela quem me dá força para levantar e sair para trabalhar. Hoje consegui almoçar com ela, coisa rápida. Na hora de sair, ela me disse ‘mamãe, vai lá e mata esse coronavírus, que quero ir pro shopping!’. A ingenuidade dela é linda e só ela me faz rir atualmente. Ela sabe que não pode me abraçar. Quando chego do trabalho, ela se cobre com uma toalha e me observa passar para o banheiro. Ela não chora. Na realidade, me apoia. Estarei de plantão no domingo das mães, mas gostaria demais de dizer pra Cecília e para a minha mãe que se sintam felizes e orgulhosas pelo dever cumprido. Eu me sinto bem-educada para fazer as escolhas certas neste momento. Tudo que sou como mãe, como profissional devo à minha mãe. Estou aqui porque amo o que faço e, apesar de tudo, não troco de jeito nenhum”.    

- Giselle Teixeira, 34 anos, médica.

Haverá um momento para vocês se abraçarem. Até lá, cuidem das pessoas que estão com vocês. Quem ama, cuida!

“Quando decretaram [a OMS] a pandemia, pensei: ‘não vai demorar muito até chegar aqui’. Sou auxiliar de enfermagem, mas trabalho como auxiliar de serviços gerais. Não sinto medo. A gente precisa ter coragem para enfrentar esse desafio. Na enfermaria em que eu trabalho, sou só eu [como auxiliar de serviços gerais] e meus plantões têm a duração de 12 horas. Mesmo trabalhando em uma área delicada, nunca senti medo. O medo faz com que a gente aja de maneira contrária. A gente tem que ter segurança no que faz. Da mesma forma que posso adquirir dentro do hospital, posso ser contaminada do lado de fora. Tenho uma filha, Mayra, de 17 anos, que é do grupo de risco por ser asmática.

Na minha casa, além dela, moro com mais quatro pessoas – todas são do grupo de risco. Adotei alguns protocolos de segurança. Para a minha sorte, alguém sempre abre o portão de casa pra mim e passo direto para o banheiro. O dia mais difícil, dentro do hospital, até o momento foi quando me transferiram para outro setor – dos doentes terminais infectados pela Covid. Quando vejo as pessoas nas ruas, tenho vontade de manda-las para casa! Tenho a sensação de que ainda não perceberam o quanto essa doença é perigosa! Eu não estarei de plantão neste domingo, mas gostaria de falar para todos que estão com saudades de suas mães: haverá um momento para vocês se abraçarem. Até lá, cuidem das pessoas que estão com vocês. Quem ama, cuida!”

- Marcela Santos, 36 anos, auxiliar de serviços gerais e técnica em enfermagem   

Troppo
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