Joias são mais que meros adornos: elas contam histórias de pessoas e culturas

Joias made in Pará tem levado designers e suas criações para além dos limites geográficos do Estado

Dominik Giusti / Troppo

Desde a antiguidade, as joias são mais que meros adornos: elas contam histórias de pessoas e culturas. No caso das joias made in Pará, a inspiração vem da Amazônia e tem levado designers e suas criações para além dos limites geográficos do Estado. 

Quando criança, a designer de joias Beta Freitas ganhou da avó uma medalhinha chamada Agnus Dei. Ao saber o significado do amuleto, ela despertou uma curiosidade inesquecível: “ficava imaginando como um óleo dentro de uma medalha poderia me proteger!?”, recorda, confessando que esse valor místico que o presente carregava acabou sendo o gérmen para o desenvolvimento de sua carreira autoral. Em suas peças, é forte o sentido da fé e da religiosidade como busca de proteção - tal qual a memória do desejo da sua avó, que ela própria ficasse protegida dos males.

“Anos depois descobri que, na antiguidade, as joias eram mais do que meros adornos corporais; elas eram usadas como ferramentas de cura, proteção e guia. Registros mostram que o homem buscava a transcendentalidade em tudo que fazia e essa conexão com as forças da natureza, seus elementos e fenômenos refletiam-se nos objetos que criava.  Os egípcios enterravam seus mortos com ‘joias-guia’ para que o espírito não perdesse o caminho para o céu. Os celtas sincronizavam a posição das estrelas, os equinócios e solstícios para a confecção de amuletos mágicos”, explica Beta.

Em sua produção, é possível notar diversas referências da formação das religiões brasileiras, com símbolos que contemplam desde o catolicismo, como a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, até o candomblé, que herdamos da África, passando também por ícones da cultura grega, do Budismo e do Santo Daime. A pesquisa sobre as técnicas de confecção das peças faz com que esses elementos se desdobrem em colares, escapulários, brincos, anéis e até mesmo objetos em metal. Tudo começou em 2007 e desde então essa é a temática da sua produção.

Meu trabalho é pautado na espiritualidade da matéria (Naiara Jinknss / Troppo)

 

“Recentemente construí uma pequena coleção de joias de poder inspiradas nas máscaras ritualísticas e olhos de proteção”, diz Beta Freitas, que acredita no potencial da energia protetiva do objeto. “Acredito totalmente e meus clientes também. Quando eu faço uma joia não é somente o metal e a gema que são construídos: é a minha energia também. Meus clientes percebem isso e encomendam joias para serem trabalhadas energeticamente”, explica.

É o caso da Fernanda Guima. Apesar de não ter religião, ela acredita nas energias dos símbolos sagrados.

“Tenho dois valores que guiam minha vida, que são a paz e o amor" (Naiara Jinknss / Troppo)

 

"Busquei por bastante tempo uma joia que representasse isso paz e amor. Vi o escapulário de prata da Beta, um metal muito poderoso, eu adotei como amuleto. A partir de então, uso diariamente para estar comigo em tudo que eu faço. É muito importante para mim, quando estou com ele acho que tenho mais sorte”, diz.

Beta observa que o próprio mercado é bem aberto a essas referências, bem como àquelas que versam sobre a cultura amazônica: os muiraquitãs, os traços marajoaras, a pajelança cabocla, nossas ervas, nossos cristais, pérolas de rio e madeiras - que ela também usa para compor as suas peças. É o que ela chama de ‘joias de poder’. “Essa identidade é uma narrativa do poder essencial amazônico aplicado na joalheria artesanal e o mercado está muito receptivo a este modelo. A coleção mística desenvolvida em 2018 me abriu portas no mercado de joias em São Paulo”, comemora, adiantando que este ano levará até a capital paulista uma nova coleção.

Também com o olhar voltado para as referências amazônicas, a designer Bárbara Müller está prestes a partir para o Rio de Janeiro, São Paulo e Nova York para mostrar sua coleção de joias assinadas, com imagens da fauna e da flora da nossa região e que também reverenciam as lendas da nossa cultura popular. Em 2018, em parceria com o artista visual Rodrigo Cantalício e o biólogo Thiago Begot, ela colocou no mercado o projeto “Poraquê”, com pingentes de espécies de peixes como tamuatá, pirarucu, tucunaré, peixe-zebra, peixe-borboleta e o próprio poraquê.

A ousadia de Bárbara, ao apostar em elementos da terra, é o que tem revelado seu nome ao mundo, já tendo passado por França, Itália, Londres e Portugal. Essa escolha vem da sua própria relação com a Amazônia e com a preocupação por questões ambientais: durante o vernissage, ela expôs uma peça que era um peixe com plástico dentro de suas entranhas. “Fui mudando meus hábitos e isso se incorporou naturalmente na minha produção. Percebi que consumia muito plástico num dia só, e fui tentando mudar”, comenta.

E essa tendência também é um critério de consumo: os clientes comentam que apoiam suas iniciativas e sua postura política em relação à proteção da natureza. Também influencia muito, na proximidade com os clientes, as histórias contidas em cada peça, como a lembrança de uma consumidora sobre os tempos em que o pai pescava e levava os peixes para casa. Por isso, quando ela resolve lançar uma coleção, é uma verdadeira exposição de arte. “Faço questão de trazer esses temas para as minhas produções, a nossa cultura a nossas referências”, enfatiza.

Durante a pesquisa para a coleção dos peixes, ela se debruçou sobre os livros do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e descobriu informações surpreendentes. “O pirarucu, por exemplo, tem uma lenda indígena em que se acredita que era um índio guerreiro bravo que foi atingido por um raio e virou pirarucu. Por isso, usei também as próprias escamas do peixe. E descobri que no Ver-o-Peso vendem pirarucu mais barato, que é filhotinho – uma prática nociva que pode levá-lo à extinção”, explica.


Fomento à arte joalheira

Desde 1998, com a criação do Programa São José Liberto, o Pará tem se configurado como um importante sítio de produção de joias autorais contemporâneas. Esse cenário foi sendo construído ao longo das últimas duas décadas e institucionalizado com a criação do Espaço São José Liberto, administrado pelo Instituto de Gemas e Joias da Amazônia - em parceria com o Governo do Estado. Hoje, uma cadeia de designers, artesãos, ourives e empresários colhem os frutos desses anos de fomento.

E os números são de se comemorar: de acordo com Thiago Gama, coordenador comercial do Espaço, atualmente o Programa reúne 54 empresas cadastradas, com 122 ourives, 49 designers profissionais e também 60 designers estudantes - que posteriormente e a partir do aprendizado no local, são estimulados a desenvolver o seu próprio empreendimento. “No Igama temos hoje também 1050 contratos de consignação, com 750 artesãos de 43 municípios”, informa o coordenador.

O perfil do público também mudou; se antes a maior parte dos consumidores era de turistas, hoje em dia 60% das vendas são para moradores de Belém e da região metropolitana. “Em 2007 eram apenas 12% de vendas para cá. Conseguimos reverter”, diz. O faturamento também é considerado bom, com uma média de R$ 60 mil por mês, apenas da Loja Una, a principal do Polo Joalheiro. Nos anos mais gordos, as vendas podem chegar a R$ 3,5 milhões, juntando todas as lojas.

Para saber mais:

@btafreitas

@barbaramuller_

@espacosaojoselibertooficial

Troppo
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