Círio na moda: a fé está no coração e também nos adereços

Flávia Ribeiro

As cores, o cheiro, as pessoas: não há dúvidas de que o clima de Belém muda até o segundo domingo de outubro. O Círio de Nossa Senhora de Nazaré não é explicável mas, para além de uma manifestação religiosa, a cultura da cidade é influenciada pelo momento e a poucos dias de mais uma edição, os empreendedores já estão disponibilizando peças e coleções que celebram a padroeira dos paraenses.
 
Um evento vai marcar o lançamento da coleção do Círio 2019 da Cerâmica Família Sant’ana. A empreendedora Maynara Sant’ana explicou o processo de produção: Heitor Sebastian, seu companheiro, foi o responsável pela ilustração, cujos elementos serão reverberados nos produtos. Já o pai, Guilherme Sant’ana é que produz as peças e a sua mãe, Marly Sant’ana, é quem dá os toques finais. Como evidenciado no nome, a empresa é familiar e todos participam de alguma maneira.

Maynara Sant’ana, Marly Sant’ana e Heitor Sebastian (Naiara Jinknss)



As peças de artesanato em cerâmica da coleção Círio 2019 começaram a ser produzidas em julho, mas o planejamento começou em janeiro, quando eles decidem o calendário de eventos do ano. “A principal inspiração para a coleção foi o cartaz do Círio, de onde vêm as cores principais, que serão trabalhadas em mandalas. O manto é o ponto alto da imagem. O Sebastian trouxe o grafismo para o manto. O grafismo que é nosso, que é regional e que nos conecta com a nossa ancestralidade. Ao lado da imagem,vem uma folha de arruda, para mostrar que ela não está sozinha e que lembra proteção. A coroa é uma inspiração de Basquiat e é o único ponto que vem em amarelo. Na cabeça a gente deixa as tonalidades da argila para dar a tonalidade de pele, de barro. A mandala é uma marca no nosso trabalho, tem a representação de ser a perfeição do divino” comenta Maynara.
 
Aliar modernidade e tradição é a proposta da Familia Cerâmica Sant’ana. A tradição de cerâmica em Icoaraci existe há mais de um século, como explica Maynara, e traz um conceito e grafismo próprios. O envolvimento da família com a cerâmica começou com a avó, que trabalhou na olaria mais antiga de Icoaraci. O pai começou aos 13 anos de idade. Ele estudou no Liceu, onde aprendeu Matemática por meio de mandalas, que são características nas peças.
 
O formato atual da empresa iniciou em 2017, junto com o Art Ato, espaço que une vários artesãos e  ainda empreendedores de tatuagem, piercing e alimentos, quando as peças só ornavam o espaço. Quando mudaram de endereço para um espaço maior, decidiram fazer uma galeria de cerâmica, só com produtos do Paracuri, mas que eram muito voltados para decoração. “Lá foi o pontapé inicial para dinamizar e inovar. O público do local é muito jovem e jovem não curte muito decoração. Tivemos um impasse e começamos a pensar em novas formas de vender esses produtos. Assim surgiram as joias em cerâmicas. É um conceito diferente das biojoias, que são produtos orgânicos, que tem um período de vida, como sementes, folhas, madeiras. A cerâmica não: vai ser cerâmica para sempre, então é uma joia. Começamos com esse trabalho de inovação e nos atentamos principalmente para a qualidade do produto, que é o que faz as pessoas retornarem”, relata. Então, as peças da coleção do Círio trazem, além de objetos de decoração como pratos e vasos, anéis, pingentes e brincos, mesclados com couro sintético, aço e ouro.
 
Tradição e Círio são conceitos bem familiares à família. Guilherme e Marly são católicos e acompanham a procissão todos os anos. “É um grande momento de celebração da fé. Então, vender um produto que esteja ligado a esse momento, vai além de capital e de uma mera venda. É uma das formas de professar a crença e de como a gente respeita essa tradição. Fazendo o nosso trabalho muito bem feito. Pensando em todo o processo e em como vamos alinhar tudo isso. É do barro que a gente vive, é do barro que a gente é feito. Todas as matérias constituintes da argila, a gente tem no nosso corpo e a gente bota muita fé nessa ligação com o Círio, com Nossa Senhora e toda essa energia que vai para muito além da religião. O Círio nos inspira e faz a gente respirar isso para além do mês de outubro”, destaca a empreendedora.
 
Empreender com artesanato é algo novo para Michelle Oliveira. Psicóloga por formação, ela tentou empreender na sua área, mas os custos estavam sendo mais altos do que o lucro, em vários aspectos, inclusive mental, como ela afirma. “Por uma questão financeira, para complementação de renda, resolvi usar habilidades de criatividade e de trabalhos manuais”. O desafio era unir isso tudo com um ar bem paraense. Ela foi testando trabalhos manuais e caiu de amores pelo crochê.

Michelle Oliveira (Naiara Jinknss)



Assim que começou a produzir teve a ideia de presentear pessoas que fossem inspiradoras com as primeiras peças. “Escolhi mulheres que me ensinaram alguma coisa ou que mudaram algo em mim. Uma forma de pensar, agir, ver o mundo. Aí surgiu a ideia das botas. Queria algo genuinamente paraense” reflete Michelle. A escolha por botas e não sereias vieram dos preparados do Ver-o-Peso.“A intenção das vendedoras é que os produtos delas servem para conquistar. Por isso, lembrei de mulheres que com seu próprio poder e potencial são incríveis e que se reinventaram e estão criando a sua realidade a partir do próprio potencial. Eu também sou uma mulher reinventando a minha vida, a partir do meu potencial” relata a Psicóloga, revelando que as botas vem sendo um sucesso e que todos os dias recebe perguntas e algumas encomendas. 
 
Foi também com a intenção de presentear uma amiga que ela criou a primeira imagem de Nossa Senhora de Nazaré em crochê, o que chamou atenção. Depois disso, ela teve a ideia de fazer uma imagem com a berlinda e presenteou uma influenciadora digital. Isso fez com que várias pessoas a seguissem e fizessem encomendas. “Embora não seja católica, o Círio é um momento muito especial. Acompanho as trasladações quase todos os anos. Só não compareço se houver algum tipo de impedimento. É um momento em que as pessoas procuram exercitar o respeito ao próximo. Para mim, é muito especial fazer Nossa Senhora de Nazaré com as características do meu trabalho e os traços do meu trabalho. Mais ainda é saber que as minhas peças que vão para os lares das pessoas neste momento especial, que o Natal dos paraenses. Estou muito feliz e honrada” afirma Michelle, que além das imagens, com e sem berlinda, ainda vai produzir versões em crochê de produtos tradicionais do miriti que permeiam a cultura paraense nesta época do ano: a cobra e do casal de namorados.
 
Lorena Cirino tem clientela fixa para o mês de outubro. A publicitária de formação, que decidiu empreender na moda há alguns anos, possui uma marca de sandálias feitas à mão e sempre fez coleções inspiradas para o Círio. Lorena tem uma vida entrelaçada com este momento. Ela é devota de Nossa Senhora de Nazaré, tem uma tatuagem no ombro com a imagem e ainda faz aniversário em outubro. Embora tenha tido formação católica, Lorena foi se abrindo para outros conceitos e hoje se considera “mais de religiosidade do que de religião”. A inspiração para as peças também vem da parte profana da festa. “Todos os elementos usados me remetem ao Círio, não só imagens e berlindas, mas pérolas, por exemplo, me lembram o terço. Fica bonito, fashion e as pessoas gostam. Nesta época atendo mais as pessoas que não são minhas clientes habituais”, diz a empreendedora, explicando que costuma baixar um pouco os preços para atender novos clientes.

Lorena Cirino (Naiara Jinknss)


 
Falar de Círio é falar em imagens de Nossa Senhora de Nazaré: essa é a linha de frente de atuação de Conceição Mainieri. O que começou como um hobby, ocupando o tempo livre, acabou se transformando em renda extra. “Minha arte, a cada dia, ficou focada em arte sacra. Eu me capacitei em oficinas com grandes profissionais de Belém e aproveitei viagens nacionais, buscando aprimoramento em São Paulo, Belo Horizonte, dentre outros estados” informa. “A cada dia que passa, procuro sempre melhorar para satisfazer meus clientes e corresponder às graças de levar Nossa Senhora de Nazaré a diversas casas pelo Brasil afora e alguns lares pelo mundo”.
 
Ela é de família católica e se emociona ao falar de como é inspirada a compor suas peças, que vão além de imagens, mas também decoração, presentes e escapulários em resina, madeira e MDF. “Com minhas artes, passamos a observar com maior carinho e amor à Virgem Mãe Amorosa. É aí que minha arte se ilumina e transborda em amor nos lares de quem as adquire. Não vendo imagens, mas luzes a fim de mudar para melhor a vida de meus irmãos amados, assim como a minha vida de minha família” afirma a artesã 

Para saber mais:
@patchoulinha
@osada_handmade
@mainieriartes
@fsceramic

Troppo
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