Generosidade de bamba

Lorena Filgueiras

Aos 35 anos, meu amigo Arthur Espíndola aparenta ser muito mais jovem. Ele chega para o café, acompanhado da esposa, Mariana e comento que ele rejuvenesceu. Ele ri e atribui à vida de sambista. “O Samba está muito ligado à alegria e eu vivo assim”. Verdade verdadeira. Ao longo de uma hora, Espíndola riu até das perguntas mais difíceis. “A gente fica em festa e o samba é um pouco de conselheiro de vida. O samba completa muito a minha vida”, declarou. Neste bate-papo, nosso entrevistado compartilhou, além das inúmeras gargalhadas, um pouco de sua história: o início precoce, a carreira, o amadurecimento, os sonhos realizados e a certeza de que seu lugar aqui é aqui, em solo amazônico.

Troppo+Mulher: Será que o Samba rejuvenesce a gente?
Arthur Espíndola: Olha, eu acho que sim, porque o Samba está muito ligado à alegria, sabe? A alegria que o Samba traz faz com que a gente viva em festa! E te digo: o Samba é meio que um conselheiro de vida, porque qualquer questão ou dúvida que tiveres em tua vida, há um samba que vai te falar algo sobre aquilo. Se estiveres triste, tem um Samba perfeito para tua tristeza. Se estiveres feliz, tem Samba também para comemorar. O Samba completa muito a minha vida...

Arthur Espíndola (Dudu Maroja)

T+M: Quando foi nasceu essa relação de melhor amigo?
AE: Desde cedo. Todo domingo, a minha família se reunia em casa e meus tios tocavam, especialmente o tio Elói e o tio Geraldo e, em vez de brincar com meus primos na piscina ou jogar futebol, eu me metia na roda de música dos adultos.

T+M: Desde moleque, Arthur?
AE: Desde os cinco ou seis anos de idade, acreditas? Daí cresci ouvindo Mário Lago, Cartola, Noel Rosa... [e cantarola Orlando Silva: “embaixo daquela jaqueira...”]. Eu adorava aquilo! Aos 10 anos fui para o [Conservatório] Carlos Gomes estudar percussão erudita. Minha mãe [Marília Vasconcelos] é coralista de vários corais, inclusive do Madrigal de Belém e, desde criança, ela me levava para vários ensaios. Inclusive, aos 10, fiz figuração em Macbeth, no festival de ópera. Mas voltando ao conservatório, em vez de eu pegar a marimba e o xilofone, eu me agarrava aos pandeiros! [ele ri] Não queria saber dos instrumentos eruditos! Quando saí do Carlos Gomes, comecei a pegar no cavaquinho e aprendi a tocar com aquelas revistinhas que tinham as cifras. Me empolguei e chamei o professor Jurandir Monteiro para me dar algumas aulas... Aos 12 anos, pisei num palco pela primeira vez e foi no Bole-Bole. Desde lá, nunca mais parei e, por isso, eu digo a todos que tenho 24 anos de carreira. Eu toquei com todos os grupos que puderes imaginar, até que houve um momento em que decidi sair do Samba... e deu tudo errado! Voltei pro Samba e as coisas começaram a dar certo de novo! [ele gargalha]

T+M: Em algum momento, dada à tua quebra com o erudito, em que foste cobrado dentro de casa?
AE: De jeito algum! Sempre tive muita força de todo mundo! Tive tanto apoio, que eu andava com uma autorização do juiz, para frequentar as casas noturnas. E quem foi atrás de todos os detalhes para obter isso, foi a minha mãe. Eu andava na Pororoca, no African Bar, no Olê-Olá...

T+M: Mas e aí, Arthur, não rolava um estranhamento, por parte do público ou outros músicos, de chegar numa casa noturna e dar de cara contigo, aos 12 anos, no palco?
AE: Olha... pra teres uma ideia, o Marcão, que toca comigo, tocava também. Ele deve ser uns dois anos mais velho que eu. Lógico que eu ainda era o mais novo, mas era uma banda de gente muito jovem e isso era comentado... mas jamais como “olha que prodígio!”. Era eu, o Pepeta, que é músico do Duas Gerações, aos 12 anos também e o Harrison, que é cantor da AR15. Éramos três garotos tocando...
T+M: Te incomoda ser ou ter sido considerado um prodígio?
AE: Olha... não me incomoda, mas nunca tive esse registro. Quer dizer, pelo menos as pessoas não comentavam isso na minha frente.

T+M: A crítica especializada te considera um dos melhores, mais promissores e mais criativos da tua geração, inclusive porque cunhaste a expressão “samba amazônico”. O que é ele? No que ele se diferencia do samba tradicional lá do Mário Lago, Cartola...?
AE: Eu sinto esse respeito das pessoas e isso me deixa bem feliz porque mostra que o trabalho que estou fazendo está agradando – e isso é um bom termômetro. Eu faço isso com muito amor. Ou melhor, fazemos, Mariana e eu. Só a gente sabe a trabalheira que dá. A gente vive exclusivamente pra isso. [ele toma um longo gole do café] Já a palavra “promissor” me dá um pouco de medo.

T+M: Por que?
AE: Porque ela me traz uma carga muito pesada. Eu prefiro tocar... prefiro fazer o que eu faço porque eu gosto. Como o público vai receber meu trabalho e a consequência dele não estão na minha mão. Não tenho ingerência sobre esse impacto, então prefiro fazer... e vou fazendo! Eu quero ser artista que sou. Eu já me vejo como um artista de sucesso. Já cheguei a um lugar muito bom. Posso chegar mais longe? Posso. Mas estou num bom lugar. Não falei sobre o Samba Amazônico, né?

T+M: Exato! [risos]
AE: Eu quis fazer uma mistura de música. Parei pra pensar que o Samba tradicional brasileiro é primo-irmão das músicas amazônicas, até por causa da miscigenação, da nossa ancestralidade. A batida do Carimbó se assemelha à batida do Partido Alto. A batida do Lundu marajoara se assemelha à do Samba-Canção. Se você ainda pegar o Lundu, é praticamente uma Capoeira d’Angola. É tudo muito ritmado e parecido. O Marabaixo parece o Baião. Decidi misturar os ritmos e instrumentos. Tirei o banjo do Almir Guineto e coloquei o banjo do Carimbó. Mas isso tem que ter um nome. Já que estou fazendo um estilo diferenciado, tenho que dar um nome pra isso. Aí, o Júlio Maria, do [jornal] Estadão, escreveu uma reportagem sobre mim e a manchete era: “Arthur Espíndola cria o Samba Amazônico”. Pensei, “pronto, é isso!”. Roubei a ideia dele [ele cai na gargalhada] e ficou. Mais recentemente, no último trabalho, que senti que esse título estava me atrapalhando.

Arthur Espíndola (Dudu Maroja)

T+M: Mesmo? Por que?
AE: O meu Samba é um Samba comum a todos os Sambas, musicalmente falando. O que eu fazia? Implementava instrumentos e a batida rítmica. Quando a pessoa pega algo, com o rótulo de Samba Amazônico, ela espera algo mirabolante e não é! E, ao ouvir, ela pode pensar: “mas isso é um samba comum”. Comecei a perceber que, aos poucos, vou abandonar o título. Ele funcionou muito para aquele momento e agora não está mais... A Elcione é do Maranhão é faz Samba. A Roberta Sá é de Natal e faz Samba...

T+M: Cada um vai imprimindo um “sotaque” muito particular...
AE: Exatamente, perfeito! É isso. Agora estou fazendo um trabalho, esse que tive a participação do Péricles e do Dudu [Nobre, sambista], que já é diferente... Ou seja, tirei uma mochila e fiquei até mais leve, sabe? [risos] Não queria limitar a minha música a rótulos.

T+M: Como foi gravar com nomes de peso que talvez tenham sido tuas inspirações e referências? Como chegaste até eles?
AE: Trabalho consistente e cara de pau. Se tens o trabalho consistente, tua cara de pau funciona. Tem que ter boa música, repertório bom, produção boa, agregar valor, conceito... com tudo isso, quando surgir oportunidade junto a alguém que pode te ajudar, peça! No dia em que conheci o Dudu Nobre, na casa do Jango, cheguei com o meu CD e meu DVD. Colocaram o DVD pra tocar e eu dei um set pra ele de presente. Ele ficou impressionado com a organização e a qualidade e disse que se um dia eu precisasse... Eu pulei: “tô precisando!” [ele ri]. Ele me disse: “passando o Carnaval, me liga. Bora conversar”. Na quinta-feira, depois de Cinzas, liguei pra ele. E marcou comigo pra encontrar com ele no Rio. Talvez ele tenha achado que eu não fosse. Mas peguei um avião e, ó [faz o gesto de decolagem com as mãos], fui! Ele entendeu que eu estava empenhado. Dudu virou meu padrinho. Me levou na Fátima Bernardes, no Multishow e tem me levado a um monte de lugares. Até em turnê, no Piauí, fizemos. A mesma coisa ocorreu com o Periclés. Encontrei o cara no camarim do Multishow e, ao abrir a porta, ele abriu os braços e disse: “Arthur, eu tava doido pra te conhecer!”. E eu fiquei meio chocado. “Como assim?”. Ele me disse que assistia meu programa na Cultura e que passa nacionalmente. Convidei de cara pra fazer um projeto e ele topou na hora. 
  
T+M: Desses grandes encontros que tiveste com ídolos do Samba, qual te emocionou mais?
AE: Ainda não aconteceu de conhecer o Gil e o Chico [ele gargalha]. Eu ter cantado com o Jorge Aragão, no palco do Teatro Rival... Eu não o conhecia e ele foi muito generoso. E o Fundo de Quintal [grupo de Samba], quando eu chorei muito. Esses dois momentos foram muito incríveis. Minha avó tinha um motorista, que era quem me levava para a escola e ele é do Samba. No toca-fitas do carro, ele tinha um K7 com músicas do grupo, da época em que o Aragão cantava no Fundo de Quintal... e eu ia e voltava da escola ouvindo essas músicas.

T+M: Ah, entendi o motivo do choro... [risos]
AE: Pois é! Daí quando o Jorge Aragão topou cantar junto comigo, foi maravilhoso! E ainda criei uma relação de amizade com todos. Foi tudo na cara de pau.

T+M: Além da carreira consistente, o que o Samba trouxe pra tua vida, materialmente falando?
AE: Tudo que eu tenho! Mas o Samba me permitiu ter independência na vida. Mas sabe o que ele me deu de melhor? Amigos!

T+M: O Samba nasceu como música de periferia, de protesto... Hoje, qual o papel do Samba na tua visão?
AE: O Samba é sinônimo de resistência, luta, protesto... mas, olha que legal, além de ser tudo isso, o Samba é sinônimo de alegria, de festa. Vivemos um tempo em que ser alegre é uma forma de protesto.

T+M: Falando nisso, como tu enxergas o cenário da cultura e político-social do país?
AE: A Cultura sempre será forte, independentemente de qualquer ataque ou boicote. Cultura é questão vital e faz parte da nossa vida, ainda que a gente não queira. Ela existe e sempre vai se renovar. A gente vive hoje uma coisa muito louca: estão tentando criminalizar a cultura e os artistas. Estamos sendo tratados como criminosos... É até compreensível que, pessoas que não entendem muito disso, leiam uma manchete e acreditem que é possível um artista fique rico com a Lei Rouanet. Venderam de uma forma que as pessoas não entendam mesmo o mecanismo. As verbas da Lei Rouanet não vão pra mão do artista. Elas vão para projetos que alimentam famílias; as empresas que financiam recebem benefícios também e o artista sequer toca em dinheiro vivo. Se sua prestação de contas for reprovada, você não recebe mais nenhuma verba! Esse discurso é perigoso. O Cara que criminaliza o artista, ele consome arte – ele vê filme, escuta música...

T+M: Já foste vítima desse discurso em escalada?
AE: Somos todos, todos os dias! Eu, Arthur, não fui diretamente ofendido, mas a classe é ofendida e quando isso ocorre, todos somos afetados. A forma como somos olhados mudou. Eu sei que isso é passageiro! Porque essas pessoas consomem Arte. Isso vai passar e tenho certeza.

T+M: Arthur, fazes parte de uma geração de artistas paraenses em que muitos decidiram sair de Belém para poder fazer a carreira acontecer. Essa ideia já te passou pela cabeça?
AE: De sair de Belém?

T+M: Sim. Cogitaste isso alguma vez?
AE: O que me tiraria daqui? Vamos lá: em três horas, eu estou em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Em oito horas, Lisboa. Posso almoçar filhote e ir jantar bacalhau [Risos]. A gente sobe música e em 10 minutos o cara lá do Japão já ouviu. “Ah, mas é caro viver em ponte aérea”. É caro viver no Rio ou em São Paulo também! E o barulho que eu faço na minha terra reverbera mais, transborda! Faz muito mais sentido transbordar aqui do que ser mais um lá. Em 2019, morei por quatro meses em São Paulo, porque eu estava trabalhando e produzindo, mas sempre voltarei pra cá. Não faz sentido morar lá!   

Para conhecer mais:
@arthurespindola

Troppo
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