Força é palavra de mãe

Lorena Filgueiras

Mais que matriarcas, grandes professoras e conselheiras para os filhos, que encontraram nelas motivos para vencer na vida. Neste dia dedicado às mães, pedimos que seus “pequenos” compartilhassem conosco as lições mais importantes aprendidas neste relacionamento tão especial.

A aposentada Yara Assis, 70, emocionou o Brasil inteiro há alguns dias, quando sua filha, a médica anestesiologista Thelma Assis, foi anunciada como a grande vencedora da vigésima edição do Big Brother Brasil. Tamanha emoção foi muito justificada, afinal a mãe viu sua única filha, negra, de origem humilde, conquistar muito mais que o primeiro prêmio do maior reality show brasileiro: dona Yara viu a filha resistir e alcançar mais uma vitória. 

Thelma e a mãe Yara (Acervo Pessoal)

Adotada, aos 3 dias de vida, pela funcionária pública Yara e o gráfico Carlos Alberto Assis, Thelma chegou muito frágil e pequenina ao novo lar. O casal, que havia perdido um bebê, se apaixonou perdidamente pela menina. 

A adoção foi revelada quando Thelma tinha 7 anos. Muito inteligente e observadora, a menina questionou a mãe – afinal, não havia qualquer registro fotográfico de sua gravidez. Dona Yara conta que respirou fundo e explicou à Thelma que ela havia nascido dentro do “lugar” mais importante: seu coração. Anos mais tarde, em meio a um dramático tratamento para o diabetes da mãe, Thelma recebeu um telefonema anônimo “revelando” o que ela já sabia. “Naquele momento ela disse que eu era sua mãe verdadeira, que me amava e que não tinha interesse em conhecer a família de origem”, diz Yara.

A vontade de fazer Medicina nasceu mais ou menos neste mesmo período. A mãe a presenteou com uma inesquecível maletinha de médico. Thelma contou, em entrevista concedida ao Fantástico, que a mãe a incentivava a estudar muito e que só o conseguiu, em função das bolsas de ensino que recebeu: do ballet, do inglês, do cursinho (onde estudou com meia bolsa e, por conta disso, trabalhava e estudava para ajudar os pais a pagar tais mensalidades) e até do curso superior – que ela tentou por quatro anos consecutivos, até conseguir financiamento integral.

Houve um mês em que as coisas ficaram muito apertadas: ou pagavam o cursinho ou quitavam a conta de luz. Óbvio que dona Yara não pensou duas vezes: a luz foi cortada para que Thelma não parasse de estudar. Posteriormente, já na faculdade, a mesma situação ocorreu novamente, mas desta feita era para comprar um livro, relembra o marido, o fotógrafo Dênis Cord. 

O primeiro estetoscópio de Thelma foi presente de uma de suas melhores amigas, então colega também de curso. “Ela não tinha cartão de crédito e é um equipamento caro. Dei para ela, como presente de quase formatura e a alegria nos olhos dela valeu qualquer sacrifício”.
Há dois anos, Thelma realizou um sonho da mãe, quando a levou para Paris. Foram só as duas. “Foi um presente colossal. Fiquei encantada", declarou em entrevista. 

Mais recentemente, logo após a saída do confinamento na casa do BBB, Thelma reencontrou a mãe, após quase três meses de separação e reafirmou que a matriarca é sua prioridade. “Quero dar à ela ainda mais tranquilidade”, finalizou.

Duas mães e um amor enorme

Do outro lado do telefone, a voz do designer gráfico e microeemprendedor Marivaldo Silva, 36 anos, embarga. Tímido, ele diz que está nervoso e pede ajuda à esposa para falar sobre a mãe, a aposentada Maria Ignez da Cruz, 65 anos. 

Filha de uma empregada doméstica, dona Maria Ignez veio morar com uma família, em Belém, sob a premissa de estudar um período e trabalhar no outro. “Ela trabalhou como doméstica nessa casa e, posteriormente, virou vendedora na loja da família”, contam Marivaldo e a esposa, Flávia. Neste período de isolamento social (e agora, lockdown), Marivaldo já acorda pegando o celular para ligar para a mãe. “Mantenho uma rotina de videochamadas e mensagens de texto ao longo de todo o dia, para não deixar que se sinta sozinha”, afirma. 

A esposa, a jornalista Flávia Ribeiro, diz que o amor de Marivaldo pela mãe é algo muito tocante. “Ela é uma mulher incrível e quando nos conhecemos, minha filha a chamou primeiro de avó, para só depois chamar o Marivaldo de pai”, conta entre gargalhadas.
 
Marivaldo e os irmãos nasceram em um bairro da periferia de Belém e a mãe tinha muito cuidado para que eles não se tornassem parte das estatísticas relacionadas à criminalidade. “Algumas pessoas [vizinhos] da rua até esperavam isso: que virássemos marginais, porque somos negros, pobres”, relata. Inclusive a irmã mais velha, Klícia, fazia o papel da mãe, já que Maria Ignez passava o dia trabalhando para garantir o sustento da família. “Ela que ia atrás da gente, mandava entrar porque já estava tarde”, relembra Marivaldo.

Tamanho zelo na família de Marivaldo fez com que ele e os irmãos se tornassem pessoas muito amorosas. “Eu via minha mãe cuidar de minha avó, de meu avô. Aquele cuidado todo me inspirou muito”. 

No último Natal, todos se reuniram e dona Maria Ignez segredou à Flávia que estava muito feliz pelo filho, pela família que ele havia construído e que sentia muito orgulho dele. “Ela ficou muito emocionada por sermos tão unidos e de ver os filhos, encaminhados. Ele é muito trabalhador e minha sogra acha um barato a gente lutar juntos, vencer juntos”, finaliza. 

Melhor amiga

A publicitária Thalya Treptow diz que está morrendo de saudades da mãe, a médica Lucia Treptow, 66 anos. “Falo com a mamãe todos os dias. Tem sido assim desde que saí de casa, quando casei. Sempre fomos muito próximas, conversamos bastante sobre tudo. Tenho um sentimento de proteção com ela daquele tipo “mexa comigo, mas não a maltrate!”, conta entre risos. 

A Pandemia, como para muitas famílias, tem sido difícil para ambas, mas Thalya não mede esforços. “Neste período, nós [o marido e a própria Thalya] que estamos fazendo as compras. Higienizamos em casa e levamos pra eles, que estão isolados e acabamos nos vendo nesses dias. A mamãe tem se ocupado da casa e organizado gavetas esquecidas. Ela tem lido e assistido novelas turcas, enquanto que o papai tem ajudado bastante na limpeza e organização da casa”, ressalta.

“Minha mãe me teve aos 28 anos e ensinou a mim e ao meu irmão a sermos muito justos. Ela é assim: quer ouvir o outro lado, pergunta, questiona, não passava a mão nas nossas cabeças quando errávamos e sempre exigiu que falássemos a verdade. Ama os animais, nos ensinou desde sempre a respeitá-los, ajuda ONGs, é vegetariana e não mede esforços quando tem algum bichinho precisando. Ela nos ensinou que devemos escolher nossos representantes de acordo com suas proposta e ações para melhorar a vida dos mais necessitados, os que lutassem por igualdade. A mamãe continua aprendendo todos os dias, se desconstrói junto com a gente. Ela é uma mulher incrível!”, derrete-se.

“Neste período em que está tudo muito confuso, o sentimento é de que se não aprendermos depois dessa provação, o mundo não tem mais jeito. É um momento de resiliência, conhecimento e descobrimento. Eu e o papai estamos ansiosos, mas a mamãe está com a cabeça boa, ela sempre é mais racional apesar de ser puro coração. O dia das mães vai ser cada um na sua casa, mas com os corações juntos. Quando passar vamos comemorar aos montes”, planeja.  “Ela segurou a minha mão, quando a coisa apertou em todos os momentos, cuidou de todos os detalhes do meu casamento e do nascimento do meu filho. Preciso agradecê-la por ser incansável!”.

Troppo
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