Miguel Chikaoka compartilha olhares sobre a sua trajetória em torno da luz

Por Yvana Crizanto

“A imagem é uma experiência com a luz”. A fala é recente, do arte educador e fotógrafo Miguel Chikaoka, que tem em seu percurso uma poética em torno do fenômeno luminoso e seus desdobramentos na identidade e nas conexões de cada pessoa com o mundo. Em uma trajetória que começa no final dos anos 70, residindo na França, por conta de seus estudos em Engenharia, o paulista da pequena cidade de Registro, em São Paulo, descobre a fotografia e mergulha intensamente em práticas, por vezes, exaustivas, para experimentar abordagens e dispositivos diversos para captura de imagens.

Práticas coletivas sempre estiveram presentes no seu trabalho, com oficinas em grandes grupos para compartilhar experiências sobre o fazer fotográfico e suas possibilidades, desde início da década de 80, já no contexto amazônico da capital Belém, sua outra paixão. Em um movimento de atividade constante, seja de produção fotográfica como profissional e fotojornalista, ou mobilizando pessoas e pensamentos em torno da fotografia, Chikaoka se descobre como parte mais profunda nesse processo de formação, e passeia por novos olhares sobre o processo educativo, a partir da luz e suas conexões com a natureza.

"Tenho muito interesse em compartilhar experiências de abordagens diferenciadas com pessoas que trabalham diretamente no campo da educação" (Alberto Bitar)

Troppo + Mulher: Experiências coletivas em torno da fotografia estiveram presentes já no início da tua trajetória. Sentiste uma transição do Miguel fotógrafo para o educador, existiu isso? Em que momento?

Miguel Chikaoka: Fui convidado a ministrar uma oficina na Escola de Arte Ajir, em 1981, e nessa oportunidade descobri que havia algo de muito forte e importante nesse processo de aprendizado contínuo, de aprender mais do que ensinar. Tanto que dessa primeira oficina é que surge o grupo Fotoficina, que se desdobra depois na Fotoativa, em 1984. Esse deslocamento para a educação foi mais adiante, lá pelos anos 90, onde essas atividades de oficinas, de palestras, de debates, começam a tomar corpo maior do que a atividade do fotógrafo que, naturalmente foi se tornando menos freqüente.

Nessas muitas situações fui encarando e aceitando trabalhar nos diversos contextos, ministrando cursos ou oficinas, tanto em programas regulares quanto pontualmente, em festivais, semanas de arte, de cultura, de meio ambiente, do patrimônio, e aí que eu percebo que abordagens sobre o processo fotográfico tinham potencial muito grande para se inserir no contexto educativo formal, com amplas possibilidades de contribuir na construção de projetos pedagógicos, sobretudo porque até hoje isso ainda é pouquíssimo trabalhado.

T+M: Fala um pouco sobre tua vivência como educador nos bairros de Belém, e outras experiências que te marcaram.

MC: Essas atividades nos contextos sociais urbanos e remotos aconteceram, até pelo desejo de integrar projetos, em que o objetivo era garantir direitos mínimos do cidadão, tanto dentro de contextos escolares, como de projetos sociais de comunidades de bairros e interiores. Alguns projetos como o Olhos D’Água,Click das Ilhas e Fototaxia, realizados em parceria com instituições como a UFPA, a Secretaria Municipal de Educação, foram marcantes por todo um percurso, que envolveu a formação dos educadores e que, a partir disso, elaboraram projetos pedagógicos implementados nas unidades de ensino e pelas discussões que se sucederam. Foi muito significativo isso para o deslocamento do meu olhar para a educação.

T+M: A partir dessas práticas de descobertas da luz, como tem sido teu olhar hoje sobre a prática fotográfica?

MC: Esse momento em que a luz toma corpo maior do que a concretude da imagem visível, começou na verdade em um deslocamento da noção de imagem, quando eu, lá pelo final dos anos 80, começo a perceber que era importante pensarmos nela como algo que se manifesta, enquanto exercício dos sentidos (e do sensível), nas formas de perceber o mundo. Eu já tinha bem presente a ideia de que a imagem que nós guardamos, que trazemos em nós, não resulta apenas pela experiência do sistema óptico-nervoso. Então comecei a trabalhar com jogos, com exercícios sensoriais, em que a captura de uma imagem pudesse ser trabalhada a partir de pensar a imagem com o corpo, e não somente com a visão pura e simples.

Esses exercícios, combinados com experimentos de abordagem dos princípios que regem a gênese da fotográfica me levaram a perceber a amplitude e potência da luz como fonte de inspiração para a construção de percursos que se expandem para além da prática fotográfica. Veja bem, a ideia de que a imagem seria resultante de um dispositivo como a câmera obscura cai por terra, porque eu “descubro” que a imagem existe pela própria condição de existência da luz e que o dispositivo que a gente constrói permite isolar e tornar visível uma das imagens que fluem intrinsecamente com a luz. Ou seja, a “massa luminosa” que percebemos e recebemos é constituída por imagens. Isso foi um salto para começar a trabalhar a ideia de que era importante pensar o mundo através da luz e não somente através das imagens.

A luz como fenômeno vital para a existência do homem, dos microorganismos, das plantas e tudo o que circula, que constitui o fluxo cósmico. Assim, em todos os processos, procuro seguir uma metodologia que incorpore esse atravessamento, colocando na roda esse olhar para a luz, e não só para a fotografia. Hoje vejo que esse pensamento nasce quando mudo o nome da oficina de iniciação à fotografia para fotografia sensorial e em seguida para photomorphosis. Atualmente chamo de “olhos vendados”, como uma provocação mesmo, para ativar todos os nossos sentidos, colocando-nos como corpo sensível para operar nesse lugar de existir com o mundo, fazendo parte desse fluxo, dessa inteligência cósmica.

"Esse momento de isolamento pode ser vivido como uma oportunidade para repensar e reposicionar nosso lugar de estar no mundo, com o outro" (Alberto Bitar)

“Esse é um colapso para nossa sociedade como ela se apresenta, desconectada do fluxo maior, regida pela mais valia, pelo capital, em que há uma separação constante das coisas, entre espiritualidade, arte, ciência.”

T+M: Nesse momento de colapso na relação entre a natureza e homem, considerando essa ideia de que somos conectados, o que pensas sobre as conexões entre a natureza e a imagem?

MC: Esse é um colapso para nossa sociedade como ela se apresenta, desconectada do fluxo maior, regida pela mais valia, pelo capital, em que há uma separação constante das coisas, entre espiritualidade, arte, ciência. Isso faz com que o homem acabe se posicionando em defesa de alguma coisa parcial. Todos fazemos parte de um todo maior, e não adianta fugir para um lado ou para outro. Estamos todos imersos nesse mundo cósmico, literalmente, com a luz que viaja por espaços, distâncias infinitas, nos atravessa e nos faz existir para além do nosso corpo-matéria. Então eu diria que não há uma separação entre imagem e natureza, mas uma relação daquilo que constitui a experiência da imagem na sua concretude física, conectado com essa natureza. Essas experiências que vou implementando no meu processo de trabalho, me colocam cada vez mais conectado a tudo, de forma cíclica. Essa percepção anima constantemente as minhas pesquisas, práticas e reflexões, porque não há um lugar de parada: tudo está fluindo, de forma rizomática, não há um ponto de entrada ou saída, não tem uma hierarquia. Na educação, por exemplo, não importa por onde você começa, pois se você começa a falar de luz, você vai encontrar o fogo que vai encontrar a terra, a água e o ar e todo o repertório de disciplinas pode constituem o conhecimento. O grande desafio é cumprir um programa em que as disciplinas cheguem a um certo nível de conhecimento do educando, na mesma ordem que está atualmente, mas por novos caminhos. A matemática ou geografia vai se convivendo no percurso da vivência com esses elementos, de tal forma que nós cidadãos do mundo, do planeta, do cosmos, sejamos conectados sempre com esse universo amplo, para que não esqueçamos dessa conexão, e tenhamos de tratar mais na frente de recuperação do planeta, de preservação ambiental ou conscientização disso ou daquilo, porque muitas vezes nem somos conscientizados disso na nossa formação. A formação, hoje, ainda é para um mercado produtivo que, em longa data, não contempla esse viés, mas, sim, as necessidades do mercado, trazendo as desigualdades que ela gera até hoje apesar dos avanços tecnológicos.

"No meu processo não senti muita dificuldade em assimilar esse momento, porque encaro os desafios como oportunidades de crescer."

Práticas coletivas sempre estiveram presentes no trabalho de Miguel, com oficinas em grandes grupos para compartilhar experiências sobre o fazer fotográfico (AleRuaro)

T+M: Falando no contexto de pandemia, em que se fala de isolamento social num contraponto com uma intensa mudança nas relações para a web, como tem sido tua experiência como educador?

MC: Esse momento atual de isolamento social, em razão da pandemia, tornou mais evidente o distanciamento que vivemos, porque logo no início, cheguei a comentar que o isolamento forçado funcionava também como um movimento de aproximação porque em determinados contextos era visível o distanciamento entre as pessoas, por exemplo, de pessoas em torno de torno de uma mesa, seja de famílias, de amigos ou de pessoas, lado a lado, frente a frente, todos plugados, conectados em seus smartphones sabe-se lá com quem ou com o que, mas, de qualquer maneira, ausentes do presencial. Então, esse momento pode ser vivido como uma oportunidade para repensar e reposicionar nosso lugar de estar no mundo, com o outro. No meu processo não senti muita dificuldade em assimilar esse momento, porque encaro os desafios como oportunidades de crescer e venho experimentando novas maneiras de dinamizar as relações pelas conexões em rede, exercitando a proximidade pelo sensível. Por outro lado, no campo da educação, vejo questões muito sérias, questões que temos que encarar com seriedade e sensibilidade. A desigualdade que já era gritante tornou-se mais aguda porque milhões de pessoas não tem logística, nem condições de acesso à rede com o mínimo de qualidade. Vencer isso, conquistar a igualdade de condições é o grande desafio de sempre face aos modelos de desenvolvimento excludentes. No fundo eu não acredito em transformação profunda e necessária, sem uma mudança radical de paradigma. Mas, nem por isso, deixo de me posicionar e lutar pelos direitos humanos universais.

“A desigualdade que já era gritante tornou-se mais aguda porque milhões de pessoas não tem logística, nem condições de acesso à rede com o mínimo de qualidade. Vencer isso, conquistar a igualdade de condições é o grande desafio de sempre face aos modelos de desenvolvimento excludentes.”

"Não acredito em transformação profunda e necessária, sem uma mudança radical de paradigma. Mas, nem por isso, deixo de me posicionar e lutar pelos direitos humanos universais" (Alberto Bitar)

T+M: O que tens pensado para projetos futuros? Podemos falar de uma nova metodologia de educação a partir da luz?

MC: Meu pensamento está focado na continuidade do que venho trabalhando, que é praticar uma alternativa para esse modelo de formação, de construção de conhecimento, em que as disciplinas se apresentam de maneira “pura” e imediata, e que não há um diálogo dinâmico e contínuo entre as disciplinas. Ainda é muito comum perceber que o educando não entende muito bem porque ele tem de estudar matemática, física, história, geografia... e por aí vai. Vejo que a educação, como ela se dá pelo sistema vigente, tende a uma monetarização do conhecimento, respondendo às demandas do mercado. Meu pensamento norteador está alinhado a uma perspectiva na qual a formação cidadã se produza com a construção de uma consciência crítica sobre nossa presença no mundo a partir do conhecimento do que representam os quatro elementos vitais: terra, água, fogo e ar.

As disciplinas seriam linhas que atravessam e constroem o entendimento do todo do qual, naturalmente, fazemos parte. Percebo também que, não o gosto, mas os traumas que guardamos de determinadas disciplinas têm origem na maneira como elas nos foram apresentadas e tratadas. Entendo que poderia ser diferente e essa não é uma abordagem nova. Existem processos educativos diferenciados em vários lugares do mundo que seguem práticas alinhadas com esse pensamento, mas representam muito pouco face ao que prevalece institucionalmente quando se trata de educação formal. Tenho muito interesse em compartilhar experiências de abordagens diferenciadas com pessoas que trabalham diretamente no campo da educação.

Para conhecer mais: @miguelchikaoka

Troppo
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