Exercício de autoconhecimento

Lorena Filgueiras

A fotógrafa Paula Sampaio é uma das figuras mais queridas do meio jornalístico. Seu vocativo “caríssima” (ou caríssimo) é uma de suas marcas registradas, para além do olhar sempre sensível e muito atento ao seu entorno. Mineira de nascimento, veio ainda menina, juntamente com sua família, para a Amazônia e, posteriormente, escolheu Belém como sua casa. Começou a fotografar profissionalmente em 1987. Frequentou as oficinas da Fotoativa e foi membro da Comissão dos Repórteres Fotográficos, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Pará. Optou pelo Fotojornalismo, atuando como repórter fotográfica e editora assistente de fotografia, no jornal O Liberal, entre 1988 e 2015. Além de ser graduada em Comunicação Social, pela UFPA e especialista em Comunicação e Semiótica pela PUC–MG, Paula iniciou sua graduação em História, também pela UFPA. Desde a década de 90, Paula dedica-se a  documentar processos de migração e de ocupação na Amazônia (principalmente na Transamazônica), com especial interesse nas memórias orais e o patrimônio imaterial das comunidades. Ufa! São tantas vivências e experiências, que convidamos a caríssima (e tímida) Paula Sampaio a partilhar um pouco mais de tanta sensibilidade.

Troppo + Mulher: Enquanto negociávamos essa entrevista (risos), comentavas que teus projetos estão fervilhando. Projetos no plural! Hoje estás envolvida com quais?
Paula Sampaio: É mais intensidade do que quantidade. Atualmente, estou empenhada em rever o projeto “O lago do esquecimento”. Tenho duas propostas para exposições este semestre. Uma, em Belém (ainda sendo articulada). Outra, em Portugal (Amazônia Viva, coletiva com a participação de fotógrafos paraenses como, Miguel Chikaoka, Luiz Braga, Paulo Santos e Elza Lima). É uma convocatória realizada pelo movimento “Fotógrafos pela democracia”. E tem a excelente repercussão do filme "O reflexo do lago", de Fernando Segtowick, selecionado para a Mostra Panorama, da 70ª Edição do Festival de Cinema de Berlim (Berlinale), na Alemanha, ocorrida este ano, e que teve como uma das referências a tese da pesquisadora Edilene Portilho e o livro “O lago do esquecimento”, que consegui editar com subsídios do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia/2013 (um dos resultados do trabalho de documentação que venho realizando na área alagada, a partir da construção da hidrelétrica de Tucuruí no rio Tocantins, desde 1994, e que, em uma das etapas, recebeu apoio da Fundação Romulo Maiorana, em 2012). Enfim, são movimentos que tratam de questões graves, urgentes, na Amazônia. Há, também, os projetos do Núcleo de Fotografia do Sesc Ver-O-Peso, onde trabalho desde 2009, como o acervo de câmeras fotográficas artesanais “Máquinas para filosofar”, apaixonantes... que tem conexão com o trabalho pessoal que desenvolvo, porque o que vem me mobilizando fortemente é a urgência de salvaguardar o meu arquivo.

Paula Sampaio (Miguel Chikaoka)

T+M: Comentaste comigo sobre a perda de boa parte do teu acervo pessoal e que estás te dedicando a releituras do que foi perdido. Conta melhor isso, Paula...
PS: Passei alguns anos sem abrir os meus arquivos físicos; e entre 2015 e 2016, percebi um processo avançado de deterioração, principalmente por conta da umidade amazônica e o acondicionamento inadequado. A parte mais comprometida é referente ao projeto "Antônios e Cândidas têm sonhos de sorte", pautado no cotidiano de trabalhadores migrantes que se estabeleceram ao longo das rodovias Transamazônica e Belém-Brasília, construídas estrategicamente pelo governo federal, como parte do programa de colonização e de ocupação da Amazônia. São histórias e imagens que marcaram o meu contato inicial com essa temática e determinaram o percurso que escolhi. Foram o ponto de partida para todos os outros projetos, ensaios e séries que venho realizando na região Amazônica. Alguns, potencializados por relatos de parte das pessoas fotografadas, escritos, reproduções de imagens de álbuns de família, que revelam as táticas de sobrevivência, as relações com o meio ambiente, os sonhos e as sensibilidades de centenas de brasileiros em sua busca pela sobrevivência. Tudo se perdendo... As primeiras ações práticas vieram com o ensaio "Antes do fim | Itinerário de reinvenções", contemplado no edital da Fundação Cultural do Pará/Seiva, de 2018, o que possibilitou a separação e a organização dessa documentação, além da realização de um vídeo que mostra a situação atual do acervo fotográfico. Entreguei, ainda, um livro artesanal que apresenta uma releitura de parte do arquivo deteriorado e suas camadas de memórias. São providências que estou tomando para evitar que essas evidências histórias se percam. Mas esse encontro com a perda, com tudo o que é parte da minha vida, e está desaparecendo, é doloroso. Ver as películas se desfazendo, as cartas mofadas, os escritos se desmanchando. Enfim, essa releitura é uma forma que encontrei de não ficar chorando por conta do que já não existe mais, aceitar as transformações e encontrar novos pontos de partida para pensar a criação, a responsabilidade que temos com a história do nosso tempo e em tudo que surge depois do que parece ser o fim. 

T+M: Pegando carona nessa pergunta, inevitável perguntar como está essa tua relação com a tecnologia... preferes trabalhar com o analógico?
PS: Tenho trabalhado alternando o uso das duas bases (filme preto e branco e digital). Há trabalhos que, para mim, se resolvem bem com a digital, como o projeto “Folhas impressas” (jornais tabloides que edito com histórias e imagens dos moradores e frequentadores dos bairros históricos de Belém). Também ficou mais barato o envio das fotos para as pessoas que fotografo (é um procedimento que adotei desde o início). Antes, eu tinha um custo enorme com as cópias artesanais. Mas, a base do filme ainda é emocionante. Gosto de olhar os negativos em sequência, na mesa de luz... Isso me faz compreender o meu próprio percurso. É como trilhar uma estrada (interior, de processo) entende?

T+M: Deixa eu voltar um pouco no tempo? Uma mineira que veio parar por aqui e que iniciou a carreira no Fotojornalismo: quando começou teu interesse pela fotografia? O que o Fotojornalismo te ensinou e que carregas contigo até hoje?
PS: O meu interesse pela fotografia começou durante o curso de Comunicação na Universidade Federal do Pará, período em que também conheci a Fotoativa e fiz oficina com Miguel Chikaoka. Isso foi em 1986. Um ano depois, eu já estava trabalhando como fotojornalista. O fotojornalismo é a base de toda a minha prática e do interesse que tenho pelas ações cotidianas, temática presente em todos os projetos que realizo, assim como a convivência com o grupo de fotógrafos/artistas/pesquisadores que transitavam e discutiam a vida na Amazônia naquele momento histórico, político e cultural, e que tinha como ponto de encontro a Fotoativa, as articulações que o Miguel fomentava. Tive sorte de estar presente em um momento tão especial.   

T+M: Por quase 30 anos você trabalhou conosco, em O Liberal. Quais as lembranças que mais são evocadas quando rememoras teu tempo de jornal?
PS: Pois é, quase metade da minha vida, isso é uma beleza! Muitas histórias. Mas o que realmente importa e permanece (mais do que uma lembrança) é o tempo de aprendizado e de oportunidades que O Liberal me possibilitou. Essas experiências diárias foram fundamentais para que eu pudesse estabelecer relações com o espaço amazônico e seguir um caminho próprio, que a empresa soube respeitar e incentivar. 

T+: Preciso revelar algo aos nossos leitores: você é super tímida e não gosta de aparecer. (risos) Desde os anos 90, você se dedica a registrar migrações na Amazônia; as relações e desenvolvimento à margem das estradas. Qual foi o start desse projeto, Paula? Nesse processo meio desordenado de ocupação e de vida, como te integras a essa realidade? Como funciona esse processo e imersão?
PS: É uma história meio longa... vou tentar resumir. O projeto de documentação nas estradas começou por conta de um acidente. Na verdade, a minha intenção era realizar um ensaio sobre a agricultura familiar rural, uma ideia que me ocorreu durante o período em que documentei a situação do ensino público no Pará para a Seduc, na gestão da professora Therezinha Gueiros (foi com ela que aprendi o que é uma documentação fotográfica). Então, em 1990 ia acontecer um encontro de trabalhadores rurais em Altamira (Transamazônica) e eu consegui uns contatos, estava de férias do jornal (O Liberal) e resolvi ir para tentar conhecer mais a temática, a realidade deles e assim iniciar o ensaio. Só que parte das lideranças que iam conduzir esse encontro estavam num avião da Taba que caiu antes de aterrissar em Altamira. Foi uma tragédia! E quando cheguei lá (fui de ônibus), encontrei a cidade de luto e o encontro cancelado. Mas, existia uma mobilização em torno da criação do Movimento Pela Sobrevivência na Transamazônica e os voluntários iam sair visitando as comunidades na estrada, buscando apoio e eu me juntei a eles. Passei quase um mês andando por lá, com um dos líderes, o Zezinho, visitando as comunidades nas vicinais, conhecendo gente, suas histórias e foi incrível. Daí, não parei mais. O início foi assim. E o procedimento é esse: ir ao encontro.   

T+M: Foi o que te impulsionou a buscar uma nova graduação em História?
PS: Sim. A necessidade de pensar sobre o trabalho que venho fazendo na Amazônia, com uma temática que na prática é uma Historia Social. Mas esse desejo inicial se expandiu. A História é uma disciplina fascinante. Adorei o curso. Delicioso voltar a estudar, andar pelos corredores da UFPa... Estou toda enrolada para dar conta da finalização do curso (está trancado). Mas tudo está valendo a pena.

T+M: As tuas fotografias dialogam muito com as histórias dos fotografados - e essas histórias dialogam muito com a tua vida, Paula? Qual ou quais mais te tocaram?
PS: Desde o início, sempre me interessei pelas histórias de vida das pessoas que fotografo. Estão todas vivas na minha memória e parte delas gravadas ou transcritas em formato de relatos. Elas me emocionam, mas tem uma que acho resume um pouco a essência do que tenho visto se repetir nesses caminhos, por onde ando: “O nome dela é Carolina, minha mãe. Morreu de morte murrida mesmo. Aqui não tem douto, levei ela três vez no hospital lá de Imperatriz, mas não precisaram o que ela tinha. Deram uns remédio, mas ela foi afinando, secando... é assim, as vez, a gente não sabe porque nasce, nem do que morre.” (Domingas Silva de Araújo. São Miguel do Tocantins/TO).
Existem tantas Carolinas nessas estradas...

T+M: Eu imagino que esse momento seja uma epifania para ti - tens um rito pessoal antes ou depois de fotografar? Como é que teu dia de ofício finda?
PS: O ato de fotografar, para mim, sempre foi muito natural. Não tenho ritos, nem expectativas e talvez, por conta disso, seja tão prazeroso esse ofício. É ter a fotografia como mediadora de encontros (bons, ruins, o que for...), viver, somente.

T+M: Existe um limite estabelecido por ti ao fotografar?
Muitos. E começam em mim. Eu tenho minhas fronteiras internas e esse exercício de autoconhecimento, que no meu caso foi potencializado pela prática da fotografia, é norteador.

T+M: Quais são tuas maiores inspirações?
O cotidiano, tudo isso que fica fora dos grandes eventos, todas essas histórias, as vezes invisíveis.  

Para conhecer mais:
www.paulasampaio.com.br

Troppo
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