“Estamos acumulados de ideias, palavras, discursos, sentimentos, de Arte!”

Lorena Filgueiras

Françoise Forton é uma dama. No sentido mais completo, abrangente da palavra. Marcamos nossa entrevista para o dia do aniversário dela. Assim que soube, mandei-lhe uma mensagem de voz, meio angustiada: jamais gostaria de ocupar um tempo tão precioso numa data tão importante. Carinhosa desde o primeiro contato, ela agradece os desejos e felicitações, e diz que não haveria problema nenhum em falarmos. “Será um prazer falar com você, mas se preferir, falamos na segunda-feira”. Era uma quarta-feira e assim o fizemos. Ao longo de mais de uma hora de bate-papo, concluí (mais uma vez) que é maravilhoso encontrar uma artista tão generosa, quanto pé no chão. Queria ouvir-lhe falar de Arte e Teatro, paixões em torno das quais giram sua vida, e ela compartilhou um pouco mais – que vocês conferem a partir de agora. 

Françoise Forton (Ramirez Medeiros)

Tropo + Mulher: Françoise, gostaria de iniciar essa nossa conversa perguntando qual o papel da arte em tempos de crise? Resistir, criticar ou entreter?
Françoise Forton: Eu diria que é se existir. A arte tem muitos papeis e poderíamos falar por muito tempo disso. Acho que [é] o resistir, porque já tem um tempo que somos o foco de tudo [das polêmicas] – se é por causa da Lei Rouanet, a classe é quem paga. Como nós fazemos um trabalho que tem visibilidade, que é visto, somos pessoas públicas, querendo ou não, através de nós, é feita a crítica e a resistência, também. Somos os porta-vozes do mundo, do país. Nós registramos e compomos a carta histórica, por assim dizer, o cartão postal do país e do momento. Isso ocorre desde que o mundo é mundo. Óbvio que isso de ser visto, tem seu preço, não é? Apesar de fazer parte do nosso trabalho. Infelizmente, o ser humano, e eu me incluo ali, tem estado mais apto a criticar uma coisa que foi feita ou falar de alguém que não conhece e passar adiante!

“Posso te dizer que a pessoa, se tiver uma família que a acolha, sairá do Teatro muito melhor!” 


T+M: E como lidas com esse fluxo incontrolável da crítica? 
FF: Um dos cuidados, dos grandes aprendizados, se é que conseguiremos, nesta pandemia é uma coisa que peço sempre aqui na minha casa, às pessoas que trabalham comigo, “todo alguém tem nome. Se não tem nome, não me interessa. Não passe isso em frente. Alguém [ela frisa bem], com certeza, não é uma pessoa idônea ou autorizada a falar algo. Quantos de nós [artistas] já não foram tidos como mortos, doentes? Quantos de nós estiveram em algum local sem jamais ter pisado lá? Mas voltando à sua pergunta anterior, a arte educa, a arte salva! A arte cura! Eu dou aulas de Teatro, junto com meu amigo Delson Antunes, há mais de 20 anos, em Niterói e já recebi as mais variadas pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos, com as mais variadas demandas e posso te dizer que a pessoa, se tiver uma família que a acolha, sairá do Teatro muito melhor! 

T+M: Já que você falou da pandemia, tenho frequentemente recorrido ao tema sobre como a arte tem salvado pessoas e suas saúdes mentais – e talvez não se apercebam disso!
FF: E não percebem que temos uma vida também! Tenho minha casa, minha família e me preparo para fazer o meu trabalho! O meu trabalho é estudar, decorar... e isso não é visto! E não falo de mim, falo de cantores, dançarinos. Aí, em condições normais de temperatura [ela faz referência ao período antes da pandemia], a pessoa que trabalhou o dia inteiro, vai descansar e vai nos ver, graças a Deus! Aí é que vocês nos veem trabalhar. Quando se grava novelas, é o dia todo. Se há [cenas] noturnas, gravamos por toda a noite. A gente começa de dia e vai até de noite. Se houver noturnas, começamos um pouco mais tarde e entramos na madrugada. Somos trabalhadores. Não temos tempo de ficar no glamour! Ele existe? Sim, mas é um instante, um momento! Os meios de comunicação precisam dessa estratégia para vender também. Precisamos disso? Também! Mas este momento é propício para refletir a respeito de tudo isso.

T+M: Muitos trabalhadores, comumente invisibilizados, conquistaram algum reconhecimento neste momento...
FF: Exato! Mas eles sempre existiram! Muitas vezes, foram menosprezados. Agora, concluindo sobre a Arte, ela faz tudo isso e muito mais! 

"As políticas públicas têm falhado muito... mas você tem toda razão: somos alvos bem de antes da pandemia e nem eu entendo o motivo".

T+M: Françoise, me permite voltar porque você se antecipou um pouco. O processo de criminalização da classe artística começou bem antes da pandemia. Neste cenário, em que o segmento das artes será o último a voltar “à normalidade”, como tem sido para você, esse desafio de se reinventar profissionalmente? E qual seu sentimento diante da falta de políticas públicas consistentes para a Arte? 
FF: As políticas públicas têm falhado muito... mas você tem toda razão: somos alvos bem de antes da pandemia e nem eu entendo o motivo. Nós temos muitos colegas, muitas pessoas que trabalham conosco, que só conseguem ganhar dinheiro e existir, se estiverem no palco, na TV ou no circo. Gostaria de dizer que nenhum de nós faz algo sozinho. Ninguém! Muito menos o artista. Depois de uma luta insana, temos a lei Aldir Blanc [aprovada no final de maio, a lei prevê auxílio emergencial para o setor cultural durante a pandemia], que ajudará algumas pessoas, mas posso te dizer que 90 e poucos por cento das pessoas [da classe artística] só têm isso! Os produtores, por exemplo, não têm como ganhar dinheiro! Aqui em casa, em função da função do meu marido, Eduardo Barata [que é produtor e teatrólogo], frequentemente recebemos ligações de amigos e profissionais, absolutamente vexados, por assim dizer, porque não têm o que comer! A gente se quotiza. A generosidade é uma coisa, ao que me parece e se Deus quiser, que surgiu com força. Acho que uma parte da população começou a ver que se um não ajudar ao outro, vamos sucumbir todos! E olhe que estou falando de pessoas que nos são próximas, mas outras, por quem tenho enorme carinho, e que são camareiras, cabeleireiros, visagistas, stylists, maquiadores, que se a gente não se quotizar para ajuda-los, eles não comem! É uma situação bem delicada, difícil! Está tendo muita união, humanidade, e estamos tentando ajudar, mas há muita gente que não tem de onde tirar. E no meio disso tudo, porque precisamos, temos avidamente feito lives porque é nosso trabalho. A nossa alma precisa! Estamos acumulados de ideias, palavras, discursos, sentimentos, de Arte!  

 

 

T+M: A Arte e o próprio fazer artístico sairão diferentes desse momento, não?
FF: Ah, vão, com toda certeza! Tendo eu feito várias lives e vendo outras tantas, a gente se pergunta o que vão dizer depois disso tudo? Certamente, algo que é resultado desse sentimento e da vivência que estamos tendo. Sairemos modificados. Pense comigo, um Teatro só poderá receber 30, 40% de sua capacidade, não se paga! Não paga produção, não paga nada!

"Há pessoas muito talentosas que aparecem e somem! É falta de oportunidade? Pode ser, mas será que ela conseguiu se rever? A vida não é só sucesso. O fracasso também é importante. É doloroso, mas aprende-se muito com ele!"

Françoise Forton (Ramirez Medeiros)

T+M: Ainda se corre o risco de, em função das limitações, ver o acesso à arte encarecer...
FF: Exatamente, você tocou num ponto muito bom. Se você aumenta, não vai adiantar, porque o público não vem e não tem! O povo não tem! Se já não tem agora para comer, que dirá daqui a um tempo para a Arte. Eu vejo notícias de lojas, restaurantes fechando e penso nesses milhares de desempregados. A Arte sempre se reinventou, vai se reinventar. Ela vai acontecer. Quando comecei em Brasília, em 59, fazíamos Teatro amador. O Donato Donati [primeiro diretor da atriz] escrevia os autos de Natal e íamos apresentar nas cidades-satélites, porque não tinha palco, não havia auditório, nada. Íamos em uma Kombi apertada e, atrás de nós, ia um caminhão baú, vazio, que serviria de palco. Fazíamos Teatro ali! 

T+M: Você pertence a uma geração de artistas que fez muito experimento, mas que, sobretudo, se debruçou sobre estudos, teorias e práticas do palco. Longe de ser uma crítica aos que não seguiram o mesmo trajeto, por que é tão importante se aprofundar nesse estudo? Em tempo, só o talento basta?
FF: Então, pois é... Eu sou cria de uma atriz chamada Glauce Rocha, que até hoje é meu maior exemplo, como mulher e como atriz. Aprendi que preciso que meus instrumentos, e entenda isso como corpo, voz, estejam aptos ao que preciso fazer. Acredito que se você “só” tem talento e fica acomodado, sem aptidão ou curiosidade, talvez este não seja um caminho duradouro. Vivi e aprendi assim. Meus primeiros mestres já eram pessoas experientes: Nathalia Timberg, Glauce Rocha, Paulo Autran... Minha mãe trabalhava no Departamento de Turismo de Brasília e conhecia muitos. Todos eles estudaram. Penso que se você tem talento, mas não se recicla, não estuda, não se aprofunda, haverá um momento em que não terá mais o que dar. Isso em qualquer profissão! Um médico passa o resto da vida estudando. Se ele parar de estudar, ele sucumbe! Ainda mais hoje, em que o mundo vive nessa velocidade incrível! Se você não se “nutre”, não terá muito mais o que oferecer. Há pessoas muito talentosas que aparecem e somem! É falta de oportunidade? Pode ser, mas será que ela conseguiu se rever? A vida não é só sucesso. O fracasso também é importante. É doloroso, mas aprende-se muito com ele! Sem isso, você não consegue se tornar um profissional mais apurado. Se você não tiver oportunidade, na área, de frequentar uma boa faculdade, leia bons livros, frequente bons teatros. 

T+M: Você falou da Glauce – em quais momentos ela lhe faz mais falta? E após a despedida física dela, quando se deu conta de toda a diferença que ela fez para você?
FF: Olha, é curioso você perguntar isso. Não faz muitos dias em que me peguei pensando “que saudades da tia Glauce!”, da mesma forma que sinto muita saudade da minha mãe. Me ocorre imaginar o que ela diria hoje. Como ela estaria hoje? Glauce sempre foi uma mulher forte, politizada, firme e muito generosa! Ela estaria enlouquecida! [risos] Participaria das discussões, dos debates, de maneira ativa. Desconsideremos aí a idade que ela teria hoje, mas eu sempre penso no quanto seria bom se ela estivesse aqui. Ela sempre foi muito preocupada com a minha formação. Dizia: “quer ser atriz, bem. Mas faz outra faculdade!”. Isso eu devo a ela. Fiz outras faculdades, mas todas ligadas à Arte. Fiz Cinema também. 

"A vida é um movimento e que bom que ela pulsa! Esse olhar para o outro tem que começar num olhar para nós mesmos".


T+M: Que mais a angustia nesse momento?
FF: Além de O [ela frisa que o artigo é maiúsculo] Vírus, fico pensando nas mulheres e crianças que têm convivido, em função do isolamento, com seus abusadores e agressores. Penso muito nelas. É desesperador! É absurdo que em 2020 estejamos ainda falando nisso. E que bom que há a Lei Maria da Penha. Peço que se você ouvir barulhos estranhos em seu prédio, ligue, denuncie da mesma maneira. Você pode salvar uma pessoa! Por omissão, você não vai pecar. 

T+M: Sairemos melhores deste período?
FF: Preciso acreditar nisso, Lorena! Ainda não tenho certeza, porque essa generosidade deveria continuar por muito tempo. O cerne dessa solidariedade, mais até que o da generosidade, é ideal que continue. Mas não sei – o ser humano é uma caixinha de surpresas! É meu maior desejo que tenhamos saúde e que a solidariedade não cesse. A vida é um movimento e que bom que ela pulsa! Esse olhar para o outro tem que começar num olhar para nós mesmos.

T+M: Falando nesse olhar, sei o quanto você é exigente e até dura consigo mesma. Você consegue se olhar, depois dessa loucura, com mais condescendência?
FF: Estou tentando. “Françoise, você tem que acordar tal hora amanhã para fazer aquilo que assumiu, vá dormir logo” ou “Françoise, não foi desse jeito, paciência. Amanhã você melhora!”. Pode parecer meio louco, mas é desse jeito que faço as mínimas coisas. A gente está experimentando, Lorena, esperar...

T+M: ...e esperar não é exatamente um modus operandi deste mundo.
FF: Não é nosso! Esperar sem poder sair, sem poder fazer muita coisa. Estou muito atenta a mim neste momento. Algumas coisas que faço comigo me surpreenderam! Daqui para frente, há muitas coisas que pretendo mudar! Quero viver de outra forma. Meus amigos sempre foram importantes e preciso encontrar um tempo para eles. Sou uma workaholic! Preciso encontrar uma maneira de vê-los. Todo dia, tenho encontrado uma maneira de ligar para um deles – de preferência por vídeo. Quero vê-los e não escrever [teclar] para eles. Será que o WhatsApp não tem nos deixado mais solitários? É importante e é uma mídia no mundo inteiro, mas a vida não pode ser apenas uma mensagem no WhatsApp.

T+M: Ressignificaremos o termo “conexão”, não é?
FF: Espera-se! Não tenho certeza, mas espero! Aos, poucos temos saída disso para uma nova vida e com muitas urgências: ganhar dinheiro, escola. Tá tudo muito acumulado dentro de nós, mas espero que as pessoas se vejam mais. 

Para conhecer mais:
@francoiseforton

Troppo
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