Esporte e ação social no mesmo barco

Prática do remo olímpico abre novos horizontes para crianças e adolescentes de Belém e, além do bem-estar, o esporte ainda proporciona uma imagem sem precedentes: a de ver a cidade de um ângulo privilegiado

Rodrigo Cabral

“Olhando Belém enquanto uma canoa desce um rio...”. Difícil ler essa frase e não ouvir a voz de Nilson Chaves, não é? Com essa inspiração, a gente te convida a conhecer a embarcar na sensação de olhar a cidade, a partir de um barco especial para a prática do remo olímpico e se apaixonar por um esporte completo, que trabalha todos os grandes grupos musculares, ao mesmo tempo em que proporciona uma bela conexão com a natureza. Quando “o sol da manhã rasga o céu da Amazônia”, os atletas da Associação de Remo Guajará já estão nas águas do rio Guamá. Os treinos começam bem cedo, às 5h30.

Fundada em 2007, podemos dizer que a Associação, hoje, é conduzida por três principais remos: o treino recreativo, o foco em competições e um projeto social, que atende crianças e jovens do bairro do Jurunas e região. Segundo Guilherme Hugo da Costa, 40, presidente da Associação de Remo Guajará, essas três frentes de trabalho são forças que se completam. “O nosso recreativo é formado por pessoas de 30 a 50 anos, que são apaixonadas pelo remo. Eles pagam suas mensalidades e o valor arrecadado ajuda a manter o nosso projeto social. De todos (alunos do projeto e do recreativo), aqueles que têm os melhores resultados são direcionados para as competições”, explica.

Guilherme Hugo da Costa (Rodrigo Cabral)

Um dos principais diferenciais – e orgulhos – da Associação está, justamente, no objetivo de formar atletas locais e abrir oportunidade para que os paraenses possam brilhar no esporte, em escala nacional e mundial. “Hoje, nós competimos de igual pra igual com times tradicionais, como o Paysandu, o Remo e a Tuna. Fomos campeões paraenses na categoria Júnior e, também, campeões Norte e Nordeste, com formação de atletas. Outros clubes contratam remadores de fora para reforçarem suas equipes. Aqui, nosso objetivo é desenvolver e revelar talentos”, afirma o presidente.

E, no check list das metas, essa tem sido alcançada e bastante comemorada. “Recentemente, o Botafogo (Rio de Janeiro) levou três atletas nossos, que se destacaram no circuito Norte e Nordeste, dois homens e uma mulher. Isso foi uma enorme satisfação pra gente, é a certeza de que o nosso trabalho está dando frutos”. Atualmente, a Guajará treina cerca de 60 pessoas. Desse total, metade é composta pelas crianças e adolescentes atendidos pelo projeto social, uma nova safra que está sendo produzida com muita dedicação e disciplina. São garotos de 12 a 17 anos, que, além de aprender a prática do esporte, recebem importantes noções de responsabilidade e respeito às pessoas e à natureza.

“No projeto, nós também acompanhamos o desempenho dos alunos na escola. Obrigatoriamente, eles têm que nos apresentar os seus boletins. Caso haja resultado abaixo da média em alguma disciplina, temos uma parceria com acadêmicos da UFPA, que se disponibilizam a dar aulas de reforço para as nossas crianças e jovens. Eles sabem que poderão ser desligados do projeto, caso o desempenho na escola não melhore. E, como os garotos não querem parar de treinar conosco, acabam se esforçando mais e recuperando as notas”, relata Guilherme Hugo, que, além de presidente da Associação, treinador e remador, também trabalha como contador em um escritório. Por essas e outras ações, no ano de 2015, a Associação de Remo Guajará foi reconhecida pelo governo do Pará como utilidade pública para o Estado.
 
Uma família de remadores
Pedro Lucas do Nascimento Oliveira, 18, é aluno do projeto há 3 anos. Com muito foco e talento, logo chamou a atenção dos treinadores e passou a participar de competições. Outros olhos atentos – e emocionados – também acompanham de perto o desempenho do rapaz. A mãe dele, Débora Nascimento, 43, passou a ser voluntária da Associação e, logo começou a treinar também. “Eles estavam precisando de um apoio aqui e eu me ofereci para ajudar na cozinha. Cuido da alimentação dos meninos pela manhã e, à tarde, volto para treinar. Mas o meu treino, ainda, é somente em terra, no remo ergômetro (um aparelho que simula os movimentos da pratica do remo)”, conta.

Débora Oliveira Nascimento e o filho Pedro Lucas do Nascimento Oliveira (Rodrigo Cabral)

Com os exercícios que trazem benefícios diretos para os sistemas cardiorrespiratório e cardiovascular, Débora passou a sentir significativa melhora até na qualidade do sono. “Hoje, me sinto muito melhor fisicamente e, espiritualmente, melhorou muito o meu estilo de vida. Tinha momentos de insônia, mas passei a dormir bem. Acordo às cinco da manhã e estou aqui de terça a sábado. Além disso, aqui, a gente tem a oportunidade de conhecer outras pessoas, ouvir as histórias delas. Eu já era muito contente com tudo que a Associação representa para o meu filho. Agora, estou ainda mais”.

Pedro deu suas primeiras remadas aos 14 anos. Desde então, entendeu que para alcançar os seus objetivos, precisaria botar à prova a sua capacidade de organização do tempo, além, claro, de muita força de vontade. “Foi uma experiência muito boa conseguir dividir a minha atenção para o estudo, o esporte e o trabalho”, conta o rapaz, que atuava como Jovem Aprendiz em um banco. Ele já concluiu o Ensino Médio, mas até recentemente, mantinha um dia a dia bem cronometrado. “Nossos treinos são de terça a domingo, com início às 5h30. Nos dias de semana, eu já trazia as minhas coisas para me arrumar aqui, pois precisava estar às 8h no trabalho. Saía ao meio-dia e, às 13h30, tinha que estar na escola, onde eu ficava até 19h. Era uma rotina pesada, mas isso me ajudou a criar responsabilidade comigo mesmo”, avalia.

Débora e Pedro têm a Associação como uma segunda família. “A minha mãe eu até falamos isso em casa, nós passamos mais tempo aqui, na Guajará, do que lá. O remo é um esporte encantador. Ver essa beleza do nascer do sol, que Deus proporciona pra gente todos os dias, é um espetáculo. O remo, pra mim, é vida. Uma nova vida. E eu fico muito feliz de poder estar passando um pouco disso pra minha mãe”, destaca o jovem remador, que integrou a equipe vencedora do campeonato paraense, na categoria sub 23.

E por falar em família, o fundador da Associação de Remo Guajará, Raimundo Nonato Araújo, 58, é pai do Guilherme Hugo, atual presidente da instituição. Ele começou a praticar o remo no ano de 1977, pela Tuna Luso Brasileira. Em 2003, iniciou a carreira de treinador no Paysandu e, em seguida, no Clube do Remo. “Dos meus sete filhos, todos praticam ou já praticaram esse esporte. Realmente, temos um envolvimento grande com o remo, queremos que a modalidade seja cada dia mais valorizada no Pará e nossos atletas se destaquem mundo a fora”, afirma Raimundo.

Raimundo Nonato Araújo (Rodrigo Cabral)



De remo, de Belém para a França

Com braços fortes e treino pesado, ela chegou lá. A psicóloga Lorena Jacob, 42, é atleta master da Associação de Remo Guajará e a primeira mulher paraense a ser convocada para um campeonato mundial de canoagem. Em setembro deste ano, ela embarca para a França, para participar da disputa, que será realizada em Saint-Pierre-Quiberon. “Comecei a treinar há mais de 10 anos, como um passatempo, para ter contato com a natureza e fugir da academia. Me apaixonei pelo esporte e por tudo que ele pode proporcionar. Em 2014, comecei a competir nacionalmente, participando de todos os circuitos da canoagem Brasil e, desde aquele ano, entrei para o ranking nacional, tanto no individual, como no duplo misto.

Lorena Jacob (Rodrigo Cabral)

O ranking anual é definido com base no campeonato brasileiro. Este ano, a primeira etapa nacional também foi tomada como diretriz para a convocação ao mundial da França. Para as competições em dupla, Lorena tem a parceria do santareno Patrick Amaral. “Nós fazemos, individualmente, o mesmo treino, tanto os de força e resistência na água, quanto o tempo de remada. Quando chega próximo às competições, damos um jeitinho de nos encontrarmos, ou o Patrick vem para Belém ou eu vou para Santarém, para podermos alinhar a sincronia”, explica.

A representante paraense no mundial de 2019, além de treinar na Associação de Remo Guajará, também emprega a sua profissão para ajudar o projeto social, prestando atendimento psicológico aos alunos. “O esporte é educação. Cada vez mais, acredito que através da prática esportiva é possível promover mudanças. Para mim, tanto ser atleta como poder estimular essa juventude, é fantástico! A ideia é deixar um legado de exemplo, de motivação, para que eles acreditem que é possível avançar sempre. É preciso, claro, ter regras, empenho, disciplina e muito respeito”, conclui. 

Troppo
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