Educação em casa

Por Lorena Filgueiras

A Pandemia do novo Coronavírus colocou nossas vidas de cabeça para baixo. A quarentena mudou radicalmente os hábitos cotidianos, fazendo com que rotinas fossem ajustadas. Na medida do que é possível para este momento, como está o processo de aprendizagem? A Troppo + Mulher conversou com pais, professores e alunos para mostrar um pouco mais da adaptação ao período atual. 

A publicitária Silvia Bogéa é mãe de dois meninos, Arthur, de 7 anos, e Lucas, com apenas 1 aninho, que deveria iniciar a vida escolar no segundo semestre – plano momentaneamente adiado. “Acho que vou colocá-lo no só ano que vem mesmo”, diz. Já Arthur, que está no segundo ano do ensino infantil, está estudando em casa, já que a escola suspendeu as aulas no dia 17 de março. “[A escola] enviou todos os livros com algumas atividades. Na semana seguinte, iniciou por aplicativo as aulas gravadas e, uma semana depois, as aulas on-line”, conta Silvia. Não somente as aulas ocorrem por aplicativo/vídeo. A mãe do pequeno Arthur explica que até as comunicações entre a instituição e os pais, além da própria agenda pedagógica ocorrem por meio do aplicativo e plataforma disponibilizados pela escola. 

Os ajustes, entretanto, não se deram apenas no campo das aulas. “A rotina normal do Arthur é acordar às 6 da manhã para ir à escola. Com a suspensão das aulas, ele dorme mais tarde e acorda às 8h. Tomamos café, ele toma banho e se arruma para as aulas on-lineque começam às 9h”, detalha. Ele se arruma com camiseta, bermuda e até perfume.“Ele diz que é para ficar gatinho”, segreda a mãe, entre sonoras gargalhadas.

Silvia Bogéa e o filho Arthur, de 7 anos

“Diariamente temos duas matérias em aula on-line, sendo, em média, 30 minutos para cada disciplina, pela plataforma a professora dá o conteúdo.Ela explica, faz exercícios junto com as crianças e estas se manifestam quando tem alguma dúvida.Quando ele termina as aulas, sento com ele por mais uma hora, para fazemos uma revisão do conteúdo dado, alguns exercícios e depois ele está liberado para brincar”, detalha.

A preocupação de Silvia talvez seja a mesma partilhada por tantas outras mães, pais e/ou responsáveis de alunos que iniciaram a alfabetização: de que não haja retrocesso na escrita e leitura.“Naturalmente, a quarentena traz preguiça. Suspendemos as atividades externas dele, então os seus dias são dentro de casa.Tudo foi alterado e tivemos que adaptar, levando em consideração o seu desenvolvimento. Ele lê um ou dois livros por semana e faz um resumo ou reescreve a estória de acordo com os seus pensamentos. Decidi propor isso para que ele use seu tempo ocioso e pratique a leitura e escrita. Já até encenamos as estorinhas de forma teatral para estimulá-lo e tem dado certo”.

Silvia diz que não teve orientação, neste sentido, da escola e que tampouco procurou. “Assumi a nova rotina seguindo o coração. Não deixo ele ver jornais. Ele sabe que estamos passando por uma epidemia e que a proteção é manter a higiene das mãos e ficar em casa. Pronto. Não precisa saber mais do que isso. Das regras que ele tem em casa, só mantive o horário de alimentação, uso de celular e jogo, que continua restrito somente aos finais de semana. O resto ele faz o que quer: brinca, assiste TV, fazemos bolo e lanches, jogamos jogos de tabuleiro, desenhamos, dançamos, ele joga bola na sala com o irmão e fazemos planos para “quando a quarentena passar”. Tenho conversado com ele, pergunto se ele está bem, se está feliz e ele vem respondendo positivamente. Então acho que está tudo certo. Digo sempre que estamos juntos e, com saúde, então, já deu certo”.

Sobre um provável ajuste aos valores da mensalidade, ela conta que, até o momento, a escola não se manifestou. “Continua o mesmo valor”.A experiência dos pais de Arthur reforçou o respeito e entendimento ao ofício de ser professor. “Sempre admiramos a profissão. Mas hoje vejo que manter a atenção e controle de 20, 30 crianças, totalmente diferentes entre si, em sala de aula, não é fácil. Criar aulas para manter a atenção e gerar aprendizado, controlando a sua própria paciência e emoções é para os super fortes”, finaliza.

Da sala de aula para aulas na sala

A professora Vanessa Freitas Diniz também é mãe de dois meninos em idade escolar: Arthur, de 6 anos, e Murilo, de 3. O mais velho está no primeiro ano do ensino fundamental e Murilo, no Jardim 1. A escola mandou um aviso on-line sobre a suspensão das aulas, que ocorreu no dia 18 de março e que, inicialmente, estender-se-ia até o dia 30 de março. Posteriormente, houve um novo comunicado, no dia 30 de março, avisando que as aulas estariam suspensas indeterminadamente. “Aí, então, começaram os envios de material para impressão e aulas gravadas no YouTube, pois a escola estava em fase de aquisição da plataforma on-linepara as aulas ao vivo. Desde o dia 6 de abril, as aulas são ao vivo, todos os dias, no horário de 8h às 10h15, para o Arthur e, de 8h às 9h30, para o Murilo”, detalha Vanessa, que não abriu mão de manter a rotina – sem ajuste – às crianças.

“Acordo os dois às 6h30. Faço o café. Todos tomam banho, vestem uniforme... não foi colocado obrigatório pela escola, mas eu fiz questão. E vamos para a frente do computador. Fico no quarto com o Arthur e o pai, Fábio, fica na sala com o Murilo. Nos primeiros dias a aula era ‘direto’ e ficava muito cansativo. Já na segunda semana, as professoras dão intervalo entre as aulas para lanchar, ir ao banheiro, beber água,etc”.

Vanessa também não buscou nenhum tipo de auxílio adicional, como psicóloga ou orientadora. “Tento equilibrar minha prática da sala de aula a esta rotina de homeschooling”. Sobre as mensalidades escolares, Vanessa diz que recebeu um comunicado que focava na aquisição da plataforma, investimentos em TI, “fazendo um paralelo com uma ‘suposta’ economia de água, luz no cotidiano normal da escola. Isso se deu pelo fato de que muitos pais questionaram que a mensalidade deveria ser reajustada por inúmeros fatores. Eu, particularmente, como mãe e como professora, sei que a escola precisa manter seus compromissos de folha de funcionários, manutenção predial... e ainda teve que investir com essas novas tecnologias. Então, entendo, que precisamos pagar...mesmo que a aula não esteja acontecendo como queríamos e utilizando todos os espaços disponibilizados da escola e que fazem parte do ‘contrato’ de uso entre escola e alunos”, diz.

Como docente, Vanessa conhece na pele o cansaço por ter seu papel subestimado “pela sociedade, de uma maneira geral”. “Muito se ouviu sobre uma educação ‘caseira’, em que os pais seriam responsáveis pelo letramento de seus filhos, de acordo com seus próprios princípios. Mas que não colocaram na prática e ficou muito no achismo e no ‘eu consigo fazer melhor que a professora’. Entretanto veio o vírus e todos nós, tivemos que virar professores na marra...sem esquecer dos compromissos domésticos, sociais e profissionais. Os pais, agora, tem a missão surreal de dar conta de tudo ao mesmo tempo e todo mundo junto na mesma casa!”, desabafa. “O papel de cada profissional é singular. Cada mestre na sua obra! E o papel do professor é, sim, orientar, ministrar, conduzir ensinamentos na escola. Achar que o espaço escolar não é tão importante, que a ‘tia’ da escola deve ganhar menos porque é fácil o que ela ensina é muitas vezes desumano!”, finaliza.

O professor de Inglês Roberto Maciel tem ministrado as aulas para suas turmas por meio de aplicativo de videoconferência

The book is on the notebook

O professor de inglês Roberto Maciel, 46, tem ministrado as aulas para suas turmas pelo aplicativo de videoconferência. Presencialmente, tudo foi suspenso a partir do dia 16 de março. Ele conta que a recepção foi melhor que o esperado. “Não houve evasão de alunos, na realidade, todos se mostram bem satisfeitos com essa nova estrutura de aulas. Também não tivemos que ajustar mensalidades”.

Com algumas décadas de experiência, o professor revela que teve de lidar com questionamentos naturais. “No início houve dúvidas quanto à eficiência das aulas, pois na escola convencional elas são sendo ministradas de uma maneira na qual não há interação entre alunos e professores. Os alunos recebem vídeos e, depois, exercícios. Com a ferramenta que estamos utilizando, os alunos interagem com o professor e com os colegas, tornando o processo bem dinâmico e envolvente. É como se estivéssemos em uma aula presencial”, conta.

Caseiro, como gosta de definir, Maciel diz que não é difícil ficar em casa, mas admite que tem sentido muita falta do ambiente de sala de aula e de poder ver os amigos. “A esperança de que tudo isso logo vai passar me mantém firme”.

A titular do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Estado do Pará, Beatriz Padovani, diz que a entidade congrega mais de cem escolas em todo o Pará. Sobre as aulas on-line, ela disse que “de um modo geral, todo o segmento de escolas particulares do Estado segue a resolução 102/2020 do Conselho Estadual de Educação e está ofertando atendimento domiciliar, com uso de recursos tecnológicos. Portanto, podemos dizer que essa é uma realidade da rede particular, que, se não está promovendo esse tipo de atividade, paralisou as atividades e determinou férias”.

Sobre uma eventual interrupção de aulas aos pais de alunos que perderam seus proventos/rendas, Padovani afirmou que “já pela legislação anterior, a inadimplência no curso do período letivo não acarreta para a escola o direito de suspensão da prestação do serviço educacional. A inadimplência do aluno, em termos práticos, somente acarreta a não-renovação contratual para o período letivo subsequente, portanto, essa hipótese suscitada [de limitar o acesso de alunos/pais inadimplentes], independentemente da situação de pandemia ou não, afronta a legislação que regulamenta o setor”.

Sobre as avaliações (provas) da Educação Básica, as mesmas ocorrerão no retorno às aulas normais, no âmbito da escola. Já no Ensino Superior, elas poderão ocorrer à distância. “Não há vedação do Ministério da Educação”, finaliza.

Ensino público e as dificuldades enfrentadas pelos alunos

Allyson Cunha, 17 anos, cursa o terceiro ano do ensino médio. O temor pela saúde veio acompanhado do receio de não conseguir concluir os estudos este ano. Na escola de Allyson, as aulas foram suspensas no dia 21 de março. 
Em nota enviada pela assessoria da Secretaria de Educação do Pará, a Seduc esclarece que, em parceria com a Funtelpa“está transmitindo videoaulas pela TV Cultura e redes sociais. Além das aulas televisivas, os alunos estão baixando exercícios no site da secretaria e interagindo com os professores por meio dos aplicativos ou do próprio portal. A Seduc orienta os pais a estimularem os filhos quanto ao acompanhamento das aulas”.

Sobre o novo sistema, Allyson reforça as dificuldades. “Muito complicadas. As aulas não são as mesmas e são mais difíceis, pois não tenho como tirar dúvidas. Tenho déficit de atenção, então tenho mais dificuldades”, desabafa.

A rotina, na medida do possível, tem se mantido. As aulas, pela TV, ocorrem de 17 às 18h ou 18h30 – mas ele estuda, todo dia, de dez ao meio-dia. “Meus pais estão me ajudando e aprendendo junto. Assim, fica mais fácil estudar, entender e depois explicar para eles”. Pergunto se ele teme o cancelamento do ano letivo, ao que ele responde que morre de medo. “Justo na minha vez!” [ele faz referência por estar no último ano do ensino médio, antes do ENEM].

O futuro, embora incerto do ponto de vista do cenário, já está definido para o jovem. “Vou cursar Ciências biológicas. Quero ser um perito criminal e depois, quero cursar Medicina Veterinária”. Quando peço uma foto, ele pergunta “pode ser qualquer uma?”. Respondo que sim, desde que seja uma imagem de que ele goste. Ele justifica a escolha da foto. “Saudade de poder sair, viajar, me comunicar e ter contato social. Com a chegada desse vírus e da quarentena, isso tudo foi tomado das pessoas. Essa foto foi tirada ano passado, na melhor viagem da minha vida e [é] uma lembrança, uma esperança de que tudo vai melhorar e de que vamos poder ganhar o mundo novamente”.

A estudante Eduarda Kalyne, 16, passou 2019 estudando no turno da noite, para poder trabalhar. “Como era mais lento”, decidiu mudar para o turno da tarde em 2020, quando a Pandemia chegou.“Tá sendo muito difícil manter o ritmo... isso quando é possível manter. Eu tô super desmotivada... Tentei me desconectar de todo esse bombardeio de notícias ruins, mesmo assim, com toda essa negatividade no ar é quase impossível seguir normalmente o cronograma. Mas eu posso dizer uma coisa...? Que em nome de todos os alunos de ensino médio da escola pública, a sensação é de estarmos sozinhos. Sabemos que se quisermos chegar no curso superior, temos que estudar o dobro por existirem muitas lacunas de aprendizado, acumuladas duramente [ao longo de todos] esses anos e, nisso, a escola acaba se tornado insuficiente. Somos obrigados a procurar outros meios, como cursinhos e muitas videoaulas", podera.

"Nesse momento de pandemia, me sinto totalmente sozinha e até desprovida de privilégios educacionais. Não temos atividades de fixação. Não tivemos nem a primeira avaliação semestral... A data do Enem está marcada e a escola pública está parada. Haja força de vontade! Haja sonho!”, desabafou. Sobre as videoaulas para a rede pública, Eduarda conta que têm mais aspecto de reforço. “Pra mim tão sendo mais pra revisão sabe... nada de novo”, diz.

Troppo
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