Educação musical transforma vida das pessoas

Dominik Giusti / Troppo

A música é transformadora: acalma os sentidos e favorece a concentração – que o digam as mães de crianças (além de elas próprias) que investiram na educação musical. 

Quando Matheus tinha 8 anos, a sua mãe, Laura Silva, 32, dona de casa, já não sabia mais o que fazer para que o filho melhorasse o comportamento na escola. A dificuldade para que ele tivesse concentração acabava atrapalhando a rotina escolar e o cumprimento das tarefas em sala de aula. Após passar por sessões de terapia ocupacional, Laura decidiu colocá-lo em um projeto de musicalização infantil ofertado pela Fundação Amazônica da Música (FAM). Mesmo um tanto incrédula inicialmente, quando os especialistas em terapia indicam a atividade, ela decidiu por bem levar o filho às aulas. 

Foto: Naiara Jinknss ()

 

“Fiquei sabendo do projeto pelo jornal e fui matriculá-lo. Acabou sendo uma diferença muito grande na vida dele e na nossa. Com um ano de aulas, ele parou a terapia ocupacional”, relembra a mãe. Hoje em dia, Matheus está com 13 anos e continua na FAM. Ele começou no coral, com as atividades integrativas iniciais, e depois criou afeição pelo piano. Mas terminou mesmo na percussão, onde atualmente desenvolve suas atividades no projeto. O envolvimento foi tanto, após cinco anos de musicalização, que o garoto pretende dar continuidade à carreira de músico.... ou cursar Arquitetura e Urbanismo. 

Laura achou que com o tempo, Matheus fosse optar naturalmente por não ir mais para as aulas e ficou surpresa com a resposta positiva do filho e sobretudo, com a melhora no seu quadro comportamental com os familiares e no ambiente colegial. “Ele ficou mais responsável com os afazeres dele, com o cumprimento dos horários. Não esperava esse avanço, que fosse evoluir a esse ponto e dar certo de fato. Mas houve toda uma preparação para incluí-lo, a professora notou que ele precisava de atenção e ele teve esse acompanhamento. É um alívio e uma felicidade muito grande”, relembra satisfeita a mãe.

“Me sinto muito bem nesse projeto, gosto muito de tocar com a orquestra de jovens. Criei responsabilidade e fui chamado para participar de concertos, viagens. Tenho uma relação muito forte com a música, sinto que expresso meus sentimentos”, diz o garoto, jovem músico, que dá orgulho à mãe. 

A professora Glória Caputo, idealizadora do projeto e mentora de uma geração de musicistas paraenses, criou o projeto pensando exatamente em situações como as vividas por Laura e, principalmente, para crianças em vulnerabilidade social. Em três etapas, que vai desde a infância até a adolescência, os alunos da FAM são inseridos em dinâmicas de aprendizado individual e em grupo, para a partilha de saberes e experiências nos conjuntos e orquestras. 

“Os benefícios de musicalização com crianças são incríveis, ela começa a desenvolver mais a parte motora, o aspecto da percepção musical e também a concentração, que é fundamental no desenvolvimento geral da criança. Além disso, existe ainda o trabalho em grupo com outras crianças, que estimula o relacionamento com colegas. Essa é a primeira fase de três, que implementamos à medida que eles vão crescendo. Por isso são recepcionados primeiramente no coral”, explica Glória. 

Geralmente, logo que iniciam o curso, os pequenos frequentam as aulas três vezes por semana. E a cada mês ou a cada dois meses, já realizam pequenas apresentações destinadas à família e aos amigos. Não há separação entre estudos teóricos e práticos e pelo caráter integrativo do projeto da FAM, não há prova final ou exames para passar de uma etapa à outra e os professores desenvolvem uma leitura do processo de cada criança.  O objetivo final é estimular que se tornem músicos profissionais, caso assim desejem, e ingressem em um curso superior de música. 

“A segunda etapa é a adaptação ao instrumento e dependendo da habilidade de cada criança, ela é encaminhada para aulas individuais. Depois desse processo, fazemos o teste de seleção para os grupos de sopro, percussão e cordas. A terceira e última etapa do projeto é o encaminhaento para estágio com orquestras profissionais, como a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz”, explica Glória Caputo - que após 22 anos está à frente também da superintendência da Fundação Carlos Gomes.

Kathlem Mendes, mãe de Kauany Alves, 8, também decidiu matricular a filha na FAM. E ficou muito feliz com o desenvolvimento da menina. “Tem o lado do comportamento, que melhora por ter muita disciplina, como também na postura, ela passou a ter mais responsabilidade. Além disso, é maravilhoso que ela possa conhecer novos ambientes totalmente diferente dos quais ela costumava frequentar, ter a chance de conviver com pessoas e crianças que buscam real interesse em um futuro na música”, diz.

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