É possível viver bem com dermatites?

Apesar de não ter cura, Psoríase e caspa possuem tratamentos contínuos que proporcionam mais qualidade de vida. O maior desafio são as barreiras emocionais

Jamille Reis

Apesar de não ter cura, Psoríase e caspa possuem tratamentos contínuos que proporcionam mais qualidade de vida. O maior desafio são as barreiras emocionais. 

Doenças comuns, mas pouco discutidas na sociedade e que podem causar sérios danos emocionais pela falta de informação, a psoríase e a dermatite seborreica, popularmente conhecida como "caspa", são enfermidades com características muito parecidas, crônicas e que acometem a pele com lesões, mas, além do incômodo fisiológico, pode ferir, também, a autoestima.      

Recentemente, a socialite americana Kim Kardashian, 39, surpreendeu o público ao fazer um longo desabafo e revelar que possui psoríase desde os 25 anos. A empresária abordou o assunto após receber duras críticas por causa de sua pele e chegou a afirmar que faz uso de maquiagem forte para esconder as lesões. 

De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), a doença afeta cerca de 3% da população mundial, ou seja, 125 milhões de pessoas em todo o mundo, sendo 5 milhões apenas no Brasil. 

A dermatologista Paula Cerqueira, membro da SBD, explica que as duas doenças não têm cura, mas, ao contrário do que se propaga, em especial sobre caspa, também não são contagiosas. "Os principais fatores que desencadeiam são herança genética, estresse, bebida alcoólica, tabagismo e algumas medicações", pontua. No caso da caspa, excesso de oleosidade na pele e presença de fungo também podem ser acrescentados.  

Segundo a profissional, as doenças passam por períodos de melhora e piora, mas é possível ter controle com tratamento contínuo e orientado por um dermatologista. Entre os sintomas, destacam-se descamação, vermelhidão e coceira. Na psoríase, formam-se escamas mais esbranquiçadas e densas, que podem acometer cotovelos, joelhos e o couro cabeludo, este último em 50% dos casos.

Todos esses sintomas podem impactar significativamente na qualidade de vida do paciente, por ser capaz de diminuir a sua autoestima, um fator que traz ainda mais danos ao tratamento, já que o emocional pode ser um dos gatilhos para crises. 

"A psicoterapia deve ser encorajada para melhor controle da doença. Hoje existem várias modalidades de tratamento que alcançam resultados satisfatórios e melhoram significativamente a qualidade de vida. A palavra para os casos mais graves é persistência. Persistir e acreditar no tratamento proposto pelo seu dermatologista", destaca a médica.   

O preconceito fere mais que a pele
A cabeleireira Glaucia Cardoso, 38, descobriu que a filha Giovanna,10, tinha caspa aos quatro anos. A família acreditava que poderia ser um processo alérgico, já que a criança tem alergia a diversos alimentos, como lactose, frutos do mar, carne, peixe, frango e também a ácaros e mofo. Já com o diagnóstico, ela fez diversos tratamentos, mas os sintomas sempre reaparecem. 

Além do desconforto com a coceira e odor no couro cabeludo, sua filha teve que enfrentar situações ainda mais dolorosas: o bullying na escola e trauma em cortar o cabelo. "Os colegas a zoavam porque ela ficava coçando a cabeça. Conversei e expliquei sobre a doença, tentando fazê-la entender e melhorar sua situação. Mas no fundo, como mãe, fiquei muito mal, chorei escondido", afirma Glauce. 

Para a cabeleireira, é importante que os pais conscientizem seus filhos sobre doenças de outras crianças. "Temos que alertar, mostrar que eles não podem julgar ou fazer brincadeiras de mal gosto, pois as crianças sofrem com o preconceito", pondera.

Por causa de crises fortes, que ocasionaram feridas, Giovanna precisou cortar o cabelo duas vezes por recomendação médica. "Isso causou um trauma, pois os meninos na escola a chamavam de machinho", conta a cabeleireira, que no início, por não saber que a doença não é contagiosa, chegou a separar pentes e acessórios de cabelo de Giovanna e sua irmã. Hoje, com o acompanhamento e tratamento, a doença está controlada e os sintomas somem por até seis meses. 

Autoestima
Assim como Giovanna, Márcio Assunção, 47, também enfrenta os desafios de uma doença crônica: a psoríase. As lesões começaram a surgir aos 30 anos, nos cotovelos e, depois de alguns anos, nos joelhos e outras áreas do corpo. Para o jornalista, os piores sintomas são a coceira e lidar com a autoestima. Ele também chegou a ter queda de cabelo. "Gostava de malhar, jogar bola, e hoje não faço mais essas atividades. Tenho vergonha de usar shorts, camisas manga-curtas e até mesmo sunga para ir à praia. Confesso que às vezes me sinto 'condenado' a viver para sempre na companhia de uma doença tão ingrata", desabafa. 

Apesar dos momentos difíceis, Márcio aprendeu a lidar com a psoríase, doença que também foi enfrentada por sua avó e pai, já falecidos, e acomete um casal de irmãos. "No processo de descoberta, você lê muita coisa da internet que ajuda, mas ter o acompanhamento com um dermatologista é fundamental. Particularmente, sou feliz. Acredito que a beleza da vida e do viver não pode ser suplantada por nenhuma enfermidade. Basta ter autoestima!", opina.

Outro alerta dado pelo jornalista se refere à automedicação, falha cometida por ele mesmo, que usou remédios a base de corticoides que não deveria. "Aparentemente eles amenizavam as lesões, mas quando passava o efeito da medicação, elas se espalhavam pelo meu corpo", conta. Hoje, seu tratamento inclui 15 minutos de banho de sol de manhã e à tarde. 

Dificuldades
Além do preconceito e autoestima baixa, outras dificuldades podem surgir, como aconteceu com Lucas Bentes, de 28 anos. Ele descobriu a psoríase por volta dos 11 anos e uma das áreas atingidas pelas lesões são as mãos. "Já passei por algumas situações burocráticas por conta disso, pois dependendo da crise minhas digitais 'somem'. Fui renovar o RG e elas não pegavam, precisei voltar várias vezes até conseguir", explica o fotógrafo e videomaker, que também já teve problemas na catraca da academia. 

Lucas já realizou diversos tratamentos e hoje encontrou medicamentos que conseguem estabilizar a doença, deixando as lesões quase imperceptíveis. Segundo ele, o acompanhamento psicológico também o ajuda muito. "As crises estão muito ligadas com o meu humor, se estou ansioso ou estressado, então preciso saber lidar com o emocional. Minha psicóloga me ajuda muito nisso". Com bom humor e uma visão leve da sua realidade, Lucas deixa uma mensagem para pessoas que estão em fase de diagnóstico. "Apesar de ser uma doença difícil e causar incômodos, existe tratamento, é possível estabilizá-la e ter uma vida normal, feliz", finaliza. 

Tratamento 
Para Regina Carneiro, professora titular de Dermatologia da Universidade Estadual do Pará (Uepa), a automedicação, em especial com shampoos, é um dos principais fatores para a demora na buscar por tratamento. Mesmo assim, a demanda é grande. Somente na Uepa, no Ambulatório de Dermatologia Dr Miguel Saraty, referência no tratamento de psoríase, são atendidos, por mês, cerca de 30 novos casos e 400 pacientes em tratamento.

"A psoríase é uma doença crônica, onde o paciente deve fazer a medicação provavelmente por toda a vida, sempre sob orientação médica. Já na dermatite seborreica também existem medicações e, nela, há uma tendência a melhorar com o avançar da idade", explica Regina. Ela informa que existem diversos tipos de tratamentos disponíveis, inclusive na rede pública, que incluem medicações tópicas, via oral e injetáveis, incluindo as mais recentes, que são os imunobiológicos, e também a fototerapia, tratamento com radiação ultravioleta.

Troppo
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