“É importante a gente acabar com essa ideia de que mulheres são rivais”

Por Lorena Filgueiras

Uma (ex-)freira com valores distorcidos, inveja, ambiciosa. Ainda assim, uma personagem deliciosa, porque rende cenas divertidamente maravilhosas e... como não podia ser: caiu na rede, virou meme! Estamos falando de Fabiana, personagem vivida por Nathalia Dill, em “A dona do Pedaço” e que ilustra a capa deste domingo da Troppo + Mulher – uma atriz com carreira sólida e incontáveis elogios ao profissionalismo e maneira como se entrega aos seus papeis. Nesta entrevista, ela falou, naturalmente, sobre Fabiana, uma vilã surpreendente e cheia de tiradas espetaculares – tanto que há quem torça pela felicidade dessa malvada -,
sobre feminismo, a vida na internet e de suas inspirações.

Troppo + Mulher: Criada por freiras e malvadinha. Não tem uma contradição aí? Risos. Deixo para ti devassar essa personalidade: como defines Fabiana? 

Nathalia Dill: Ela saiu do convento. Acho que isso já demonstra que Fabiana não tinha valores muito compatíveis com aqueles que eram pregados no convento (risos). Acho que isso vem dela. Ela nunca quis aquela vida. Foi parar no convento por acaso ao ser separada da família. Fabiana é uma pessoa invejosa, que não mede esforços para conseguir o que deseja, para
alcançar seus objetivos. 

T+M: Onde buscaste inspiração para compor tua personagem?

ND: Busquei inspiração no cinema e mesmo em novelas. Fui atrás de mulheres da ficção que tinham essa dubiedade, como, por exemplo, no filme “A malvada”. Carminha, de “Avenida Brasil”, e Laura, de “Celebridade”, também são vilãs que me inspiraram. O texto do Walcyr é muito rico e traz Fabiana de forma bem detalhada. Em cima dele, trabalho com a Amora Mautner para transpor o que está no papel para a cena. O legal de fazer novela é que como é uma obra aberta, a gente sabe como começa, mas não tem ideia de como vai terminar. Então, eu construo Fabiana diariamente, a cada cena, com meus colegas de cena, a cada bloco de
capítulos que recebo.

T+M: O que faltou à Fabiana para ser uma pessoa melhor?

ND: Não sei. Talvez ela fosse diferente se tivesse sido criada com a família. 

Busquei inspiração no cinema e mesmo em novelas. Fui atrás de mulheres da ficção que tinham essa dubiedade, como, por exemplo, no filme “A malvada”. Carminha, de “Avenida Brasil”, e Laura, de “Celebridade”, também são vilãs que me inspiraram.

T+M: Como tem sido a reação das pessoas nas ruas? Qual reação, em particular, te surpreendeu mais?

ND: Acho interessante que, de certa forma, o público absolve a Fabiana. Nas ruas, as pessoas perguntam se ela e Rock (Caio Castro) vão ficar juntos, torcem por eles (risos). É doido isso. E ouço muito falarem "olha a freirinha", "toma cuidado com essa freira". Me divirto com isso. Para mim, é surpreendente que a personagem tenha caído tanto nas graças do público dessa forma, justamente por ser uma vilã que arma tanto e movimenta quase todos os núcleos da trama.

T+M: Você tem uma carreira longeva, sólida... Qual personagem sonhas em interpretar?

ND: Eu acho que o mais importante é contar boas histórias. É levar o público numa jornada com a gente, fazer com que ele se interesse pela nossa narrativa, que se envolva. E que isso transforme de alguma maneira quem está nos assistindo. É muito bom quando percebo a repercussão nas ruas, nas redes sociais, quando alguém fala que determinada cena fez com que a família e os amigos tratassem de algum tema de forma mais aberta. É uma mostra de que estamos cumprindo bem nosso papel.

T+M: Tens uma voz ativa, partícipe de discussões sobre temas muito atuais, como empoderamento, feminismo... já sofreste assédio? Como lidaste com isso? Como encorajar outras mulheres a não se calarem?

ND: Eu nunca passei por uma situação de assédio no ambiente de trabalho. Mas isso não faz com que eu tenha a capacidade de ter empatia com quem já enfrentou essa situação tão difícil. Acho que é justamente a empatia que faz com que as mulheres se sintam cada vez mais amparadas e que tenham força para vir a público e denunciar. 

"Eu nunca passei por uma situação de assédio no ambiente de trabalho. Mas isso não faz com que eu tenha a capacidade de ter empatia com quem já enfrentou essa situação tão difícil."

T+M: A Simone de Beauvoir diz que não se nasce mulher, torna-se mulher. Quando o feminismo nasceu pra ti? Precisaste de ajuda com conceitos? Quem te ajudou?

ND: Sou feminista desde sempre porque nunca fui alguém que visse a disparidade entre gêneros sem questionar, tomando como algo natural. E nessa caminhada, eu conto com outras mulheres que debatem comigo, que me indicam livros, que me ajudam a refletir sobre o que está aí e como podemos mudar, fazer diferente. É importante a gente acabar com essa ideia de que mulheres são rivais. E focarmos mais no aspecto de que somos parceiras, que estamos aqui para crescer juntas.

"É importante a gente acabar com essa ideia de que mulheres são rivais. E focarmos mais no aspecto de que somos parceiras, que estamos aqui para crescer juntas."

T+M: A gente vive tempos muito estranhos – como lidas com as redes sociais, dos elogios aos haters?

ND: Eu entendo as redes sociais como um canal de comunicação. Uso para abrir um diálogo. E acho que no momento em que está cada vez mais difícil justamente de manter uma conversa, é importante para mim ter ali naquele espaço virtual também esse tipo de atitude. E quando tem alguém criticando de uma forma positiva, ótimo também. Mais uma chance de aprender mais. Se é alguém que apenas quer criticar por criticar, de forma mais vazia, procuro não me conectar com isso, não dar atenção a algo que não mereceria.

Legenda (Vinícius Mochizuki)

 

T+M: Ainda sobre esse tempo de hoje, de muita intolerância, como fazer a diferença e ajudar outras pessoas a compreenderem a necessidade de ouvir, ponderar e buscar esclarecimentos?

ND: Acho que a gente chega nessa construção estando abertos ao diálogo: expor o que achamos, ouvir o outro, ponderar. Tudo isso sem brigar ou agredir. Acredito que a mudança passe por aí. 

T+M: Por fim, imagino a correria frenética e a agenda intensa – o que fazes por tua saúde mental? No sentido de desplugar? O que gostas mais de fazer quando estás de folga?

ND: Adoro fazer ioga, meditar, jogar vôlei na praia com as minhas amigas. São maneiras de cuidar da mente e do corpo e que me deixam mais em equilíbrio.

Para saber mais: @nathaliadill

Troppo
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