Dor à espreita

Lorena Filgueiras

Um belo dia, sem aviso, você acorda com dor na lombar ou sentindo uma certa rigidez muscular – e não está sozinho: na pandemia aumentaram as queixas de desconfortos na coluna e músculos, afetando de adolescentes aos idosos.

Em casa há mais de dois meses, a estudante Fernanda Beatriz Cabral, 16, afirma que as dores persistentes na coluna e nos ombros apareceram lá pelo vigésimo dia de confinamento. “Logo no começo, não estava sentindo tanto, porque ainda conseguia sair para ir na casa da minha irmã ou de familiares. Conseguia ter essa certa movimentação”, diz. Há que se dizer que antes de a pandemia ser decretada, ela estava iniciando um tratamento com fisioterapeuta – que foi interrompido.

Ela atribui o mal-estar ao fato de não estar se movimentando muito. “Por causa do momento, tenho ficado só em casa, por muito tempo deitada ou sentada. Acho que isso tem agravado ainda mais as dores”, conta. Numa tentativa de aliviar tamanho incômodo, começou a procurar – por conta própria – exercícios, vídeos e artigos na internet. “Busquei até informações sobre posições até para dormir, porque também sinto dores”. Fernanda conta que as sente mais no começo e fim do dia, ao deitar-se para descansar.

A mãe de Fernanda, a jornalista Fabiana Cabral, conta que teve que correr, às pressas, para a farmácia mais próxima, em busca de um remédio que aliviasse a condição de sua caçula. “Ela estava reclamando demais e deu uma aliviada, mas tem se virando sozinha, buscando exercícios de alongamento e tem flertado com a yoga – tudo pelas redes sociais. As reclamações deram uma diminuída, mas é complicado, porque ela passa muito tempo deitada e ao celular ou sentada ao computador, porque são as únicas atividades tem no momento”, lamenta. Fabiana também lamenta não poder nem estimular a filha para fazer uma caminhada. “Temos que ficar dentro de casa. Tirando esses exercícios de alongamento, realmente não estamos fazendo muito mais para movimentar o corpo. Sei que é muito ruim pra ela. Além das questões físicas, tem a saúde mental. Estamos amedrontados e sequer podemos ter contato com outras pessoas. A Fernanda não pode visitar a irmã e o sobrinho e parou todas as atividades: escola, Teatro, enfim, tudo que ela estava fazendo. A gente luta todo dia para que isso não traga problemas ao emocional dela. Temos acompanhamento de psicólogo e, se as coisas começam a apertar, ligamos para a doutora”, conta.

Fabiana Cabral e a filha Fernanda Beatriz (Acervo Pessoal)

A queixa de Fernanda Beatriz é cada vez mais recorrente – especialmente nos últimos dois meses – entre pessoas de todas as idades. A dona de casa Marly Ferreira, 51 anos, por exemplo, reclama de muita dor nos quadris e pernas. “Qualquer movimento dói”, diz. Durante a pandemia, Marly teve uma crise, que foi controlada, mas o desconforto persiste. “O incômodo continua. Como a rotina [de antes] envolvia me movimentar, com o isolamento, acabei ‘adiantando’ serviço e comecei a ficar muito mais tempo deitada e sentada. Aí piorou”. A exemplo de boa parte dos brasileiros, a dona de casa tomou um medicamento por conta própria e sentiu uma melhora. “Não fui ao médico ainda justamente por conta da quarentena”. Questionada sobre em quais horários tem sentido mais dor – e em quais circunstâncias -, ela responde que o tempo todo. “Dói quando sento, deito ou fico muito tempo em pé. Como passo muito tempo deitada agora, a dor também surge nas costas. Já tive esse problema um bom tempo atrás e agora surgiu novamente. Na época fiz tratamento - sessões de fisioterapia e caminhadas”. 

Dores de home office

O médico ortopedista Bruno Brasil, 41, membro titular da sociedade brasileira de coluna, explica que as dores também estão associadas à transferência das atividades profissionais para dentro de casa, o chamado home office – e, quase sempre, de maneira improvisada, já que foi necessária uma rápida adaptação ao momento. “Na maioria das vezes, [os home offices] não possuem as condições de ergonomia ideais para realização destas atividades e o tempo prolongado de trabalho em cadeiras não apropriadas, altura de mesa e computador não adequadas, têm levado ao aumento dos quadros de dor na região da coluna vertebral nestas pessoas. Além disso, muitos estão tendo que realizar as atividades de limpeza e arrumação do lar, o que também pode ajudar no aparecimento desse quadro clínico”, afirma.

E, de fato, a procura por atendimento aumentou. “Tenho recebido maior procura por paciente com dor, principalmente dores na coluna dorsal e lombar, além de muitos pacientes em crise, necessitando de medicamentos para controle do quadro”. Se, por um lado, a postura e a falta de movimentação são fatores que contribuem para o incômodo corporal, o aspecto emocional interfere também – e muito. “Com a pandemia vivemos um estado de medo, angústia, incertezas de quando tudo irá se normalizar, o que gera também aumento a procura de tratamento especializado”, diz. “A falta de atividade física regular pode gerar atrofias e encurtamentos musculares, o que irá gerar sobrecarga nas articulações e músculos com as atividades do dia a dia. Além disso, muitos pacientes que estavam em tratamento tiveram que interromper seus tratamentos em virtude de muitas clínicas terem fechado e também por medo de exposição ao ter que sair de suas casas. Com isso pode haver um agravo em suas condições clínicas”, complementa. E aconselha: “é importante manter contato com seu médico, seu fisioterapeuta e seu educador físico para ter orientações de atividades que possam ser realizadas em seus domicílios, orientações de alongamentos, utilizando objetos que temos em casa. Estás orientações podem ser feitas até mesmo por vídeos ou em consulta presencial”.

Sobre a dor lombar tem-se discutido muito, porque ela poderia ser um sintoma da Covid-19, conforme ouviu-se falar – uma vez que por tratar-se de uma doença que ainda carece de muitos estudos, e pelo caráter mutante do vírus, a sintomatologia é mais diversa. Bruno Brasil diz que este sintoma “é incomum e dificilmente causada [a dor lombar] pela Covid e, sim, por todos esses aspectos envolvidos, como o sedentarismo, a má postura e o aspecto emocional”.

Mesmo para quem tem preparo físico ou trabalha na área, as dores têm se manifestado. É o caso da professora de educação física Paula Jordana Neves 24, que tem amargado com o agravamento de uma condição pré-existente: a escoliose. “Sinto dores na coluna desde 2016, quando diagnosticada com escoliose e, desde então, sinto dores que são controladas e até anuladas com a prática de exercícios físicos, mas desde o início do isolamento social as dores agravaram bastante por passar a maior parte do dia sentada e deitada”, explica.

Para atenuar o desconforto, como ela já tem um diagnóstico médico, recorre sempre à prática física. “Durante o isolamento continuei. Faço alongamentos e exercícios de força em casa. Com isso, consigo controlar as dores. Ajuda na diminuição das dores, por promover o fortalecimento da musculatura, fazendo com que até não existam mais. Mas é importante frisar que não é qualquer exercício que deve ser feito e que se deve ter o acompanhamento de um profissional da área para que o problema não se agrave”, pontua.

Troppo
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