Divisor de águas

Elck Oliveira

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Os ensinamentos de Paulo Freire permanecem cada vez mais vivos e é inegável que a educação transforma todas as vidas tocadas por ela e, por essa razão, a aprovação em um processo seletivo para o ensino superior é tão comemorado. Uma semana após a divulgação dos aprovados no processo seletivo de indígenas e quilombolas da UFPA, a Troppo + Mulher foi ao encontro de alguns dos calouros para ouvir deles seus planos e expectativas para o futuro.

A divulgação do listão dos aprovados nos vestibulares, Brasil afora, é, sem dúvida, um momento singular. Aqui em Belém, a tradição (ainda) envolve ouvir o nome nas transmissões das rádios e, imediatamente, começar a festa, regada a ovo, farinha de trigo, colorau e outros produtos, todos devidamente misturados na cabeça do vestibulando. Os rapazes, em geral, têm os cabelos raspados, enquanto que as moças são poupadas do “sacrifício”, só tendo que lidar com a difícil limpeza das madeixas depois. As comemorações duram o dia todo – às vezes, até mais de um dia – e reúnem familiares, amigos, colegas de escola, professores, vizinhos... uma grandiosa mobilização, que só se vê uma vez por ano.  

Neste 2020, a celebração teve um sabor especial. As polêmicas envolvendo a correção das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – principal porta de entrada para as mais importantes universidades do país – tornaram a espera ainda mais angustiante. Algumas instituições de ensino superior chegaram a cancelar a divulgação dos listões depois de uma ordem da Justiça de São Paulo.

Superação

Problemas à parte, enfim, os listões saíram. E em Belém não faltaram histórias de pessoas que superaram toda sorte de dificuldades até verem os seus nomes publicados nas listas de aprovados. Gente como a pastora evangélica Nehru Moraes, de 39 anos, moradora do bairro do Barreiro e mãe de quatro filhos, sendo duas biológicas e dois adotivos. Ela havia parado de estudar havia quase 20 anos, depois de concluir o Ensino Médio. 

“Sou filha adotiva e tive uma infância difícil. Estudei a vida toda em escola pública e me casei muito cedo, aos 16 anos. Aos 19, engravidei e me dediquei a cuidar da minha filha. Depois nasceu a segunda e, por conta de tudo isso, acabei deixando engavetado o meu sonho de fazer uma faculdade, embora sempre tenha gostado muito de estudar”, conta. 

Nehru Moraes (Dudu Maroja)

Nehru lembra que a vontade de retomar os estudos veio há mais ou menos dois anos, quando percebeu que os filhos já estavam criados e a vocação religiosa, consolidada. Queria poder estudar e, por meio do conhecimento, fazer o que mais gosta, que é ajudar o próximo. Prestou o Enem em 2018, mas não conseguiu aprovação. No ano passado, sem dinheiro para pagar um cursinho, decidiu começar a preparação em casa. Acabou ganhando uma bolsa de estudos em um curso de redação, que frequentou até o meio do ano. “Depois, fiquei doente e parei de ir para as aulas. No entanto, estudei muito em casa, pedi ajuda aos meus vizinhos mais jovens, fiz muitas pesquisas em livros e recorri à internet”, explica. 

Eis que o resultado de todo o esforço veio: ela foi aprovada no curso de Serviço Social da Universidade Federal do Pará (UFPA). A comemoração se espalhou pelo mundo, por conta de um vídeo divulgado pela filha, Francielle. Até o apresentador da Rede Globo, Luciano Huck, tomou conhecimento da história e fez uma matéria sobre Nehru, um reconhecimento que ela nunca imaginou alcançar: “Tudo o que tem acontecido até agora é muito surreal. Nunca imaginei que eu fosse entrar na Federal. Por isso, digo a todos aqueles que ainda não conseguiram, que não desistam, pois Deus é poderoso e a vitória um dia vem”.  

Respeito – Além da dedicação aos estudos, Nehru também dá um exemplo de vida. A filha mais velha, Francielle, é transexual. A pastora conta que, no início do processo de transição da jovem, hoje com 19 anos, a família sofreu muitos ataques e foi vítima de preconceitos. Contudo, nada foi capaz de abalar o amor e o respeito que eles sentem uns pelos outros. “Seria uma grande hipocrisia da minha parte, eu, como pastora, subir aos altares, declarar o meu amor à humanidade e não amar a minha filha, que eu gerei. A minha filha tem todo o meu respeito, o meu amor e eu jamais irei condená-la por sua escolha, até porque isso não cabe a mim. Só quero que ela continue sendo essa pessoa íntegra e honesta”, afirma. 

Direito

Quem também viu sua história e fotos ganharem as páginas dos jornais e de vários sites na internet foi a estudante Fernanda Bahia, de 17 anos. Moradora do bairro do Guamá, em Belém, ela vive com os pais, os dois irmãos e a avó. Filha de um professor e de uma secretária escolar, Fernanda e a família sempre se equilibraram com um orçamento apertado. Quando ela cursava a oitava série, no entanto, a situação piorou. O pai de Fernanda foi diagnosticado com falência renal, o que o obrigou a começar a fazer hemodiálise. Nessa época, eles viviam no município do Acará, distante pouco mais de 100 quilômetros de Belém. Para fazer o tratamento, o pai precisava vir à capital três vezes por semana, saindo de casa pela manhã e retornando à noite. “Como a minha mãe ia com o meu pai, eu tinha que cuidar da casa, dos meus irmãos e ainda estudar. Mas isso nunca foi um empecilho para mim”, lembra. 

Fernanda Bahia (Dudu Maroja)

Esse processo durou um ano e meio, até que o pai de Fernanda conseguisse fazer o transplante renal, o que o livrou da hemodiálise. Nesse momento, a família já estava morando em Belém e a saúde do pai foi fundamental para que a jovem decidisse a profissão que queria seguir. “Durante muito tempo, eu quis Medicina, porque achei que precisava ser nefrologista para ajudar o meu pai na hemodiálise. Mas, depois que ele conseguiu o transplante, eu disse para mim mesma que precisava seguir o meu sonho, que era fazer Direito. Sempre fui uma pessoa que gostou de lutar pelos seus direitos, nunca baixei a cabeça para as coisas difíceis da vida. Por ser mulher, negra e da periferia, acabei sendo vista como alguém inferior por uma parte da sociedade. Então, eu decidi fazer Direito para mostrar o contrário, que todos nós somos capazes sim, e, também, para lutar pelos meus”, reflete. 

Fernanda fez a sua preparação para o Enem em um cursinho público e chegou a vender brigadeiros para ter o dinheiro das passagens de ônibus. Foi aprovada no curso de Direito da UFPA. “Eu sou a primeira da minha família a entrar em uma universidade federal. Além de orgulho, isso representa resistência, força, e, mais importante, o amor”, conclui.

Processo Seletivo Especial

A Universidade Federal do Pará (UFPA) também realiza um processo seletivo especial para indígenas e quilombolas, por meio do qual os candidatos disputam quatro vagas em cada curso de graduação, sendo duas para indígenas e duas para quilombolas. O indígena Scolny Catarini, da etnia Tukano, foi um dos aprovados no PSE deste ano. Nascido na comunidade de Matuzinho, no município de Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas, ele será aluno do curso de Direito. Aos 21 anos, Scolny já havia tentado entrar na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde não existem processos seletivos especiais, o que acabou dificultando a aprovação. 

Desta vez, junto com esposa, e com mais alguns amigos da comunidade, veio para Belém tentar uma vaga na UFPA. Agora, ela já planeja o que vai fazer depois de formado: voltar para a cidade natal, para ajudar a sua comunidade. “Quero fazer o concurso da Defensoria Pública e me tornar defensor para ajudar o meu lugar, que é muito pequeno e abandonado pelo poder público”, lamenta. 

Competição

Para o psicólogo Fabrício Vieira, o vestibular reflete um componente importante da nossa sociedade: a competição. Por conta disso, é natural gerar tanta ansiedade, angústia, medo, cobrança e nervosismo. “Porém, quando a vaga é conquistada, vem a sensação de vitória, mas qual vitória está sendo alcançada? Essa vitória se refere à conquista de uma vaga que levará a uma posição social, a uma autoafirmação, e isso aumenta a confiança do indivíduo, especialmente dos jovens”, analisa.

O mais importante, segundo o especialista, é que a pessoa faça suas escolhas baseada apenas nas suas próprias vontades e desejos. Só assim, o indivíduo poderá se sentir pleno e feliz na profissão escolhida. “E é por isso que o sentimento de vitória e satisfação são tão grandes. Porque, naquele momento, ele venceu o cansaço, as cobranças, a concorrência, o desânimo... tudo isso é motivo suficiente para comemorar, festejar tal êxito na busca por si mesmo”, aponta.

Troppo
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