Divinas Colheradas

A boa mesa sempre foi o lugar preferido dos reis... e dos homens da Igreja. “Deus está até nos ensopados”. A frase, creditada à Santa Teresa D’Ávila, teria sido dita no momento em que a freira tinha sua epifania, na cozinha do convento

Lorena Filgueiras

Se a caça foi o salto evolutivo ao homem da idade da pedra, a boa mesa foi, igualmente, um divisor de águas para a política – afinal, boa parte das decisões que diziam respeito ao futuro de antigas nações foi tomada na companhia de pão, assados e vinho. E não estamos falando de monarcas apenas, mas de papas, de homens da igreja. Até hoje, inclusive, a cozinha do Vaticano guarda preferências e segredos (nem tão secretos) sobre a predileção de seus supremos chefes.

Lembro que quando da preparação para a primeira visita do Papa Francisco ao Brasil, em meados de 2013, uma equipe veio antes para selecionar o chef que ficaria responsável pela execução das receitas – para muito além do tempero, questões de segurança são absolutamente imprescindíveis. À época, o escolhido foi Pasquale Mancini, chef de um tradicional restaurante na capital paulistana. Nascido na Toscana, Itália, Mancini recebeu orientações diretas: que preparasse pratos clássicos e sem exageros, sendo fidedigno às receitas originais e com uso de ingredientes de boa procedência. À época, o chef afirmou que o Papa tratava sua alimentação com a mesma simplicidade com a qual tratava hábitos cotidianos de sua vida. Entre os alimentos preferidos, os saudáveis, como salada, frutas, peixes, frango sem pele. Os “exageros” (se é que a gente realmente pode considerar como tal) ficaram por conta de uma taça de vinho, vez ou outra, e uma xícara de café espresso – do qual ele não abre mão.

Apesar da simplicidade do sumo pontífice, membros da comitiva precursora afirmaram que Francisco era um cozinheiro refinado e que ele domina a arte de um bom risoto! 

Entre receitas simples e outras nem tanto, o fato é que os hábitos à mesa de reis e papas, além da própria cozinha do Vaticano suscitam curiosidades. Em 2007, por ocasião da visita do papa Bento XVI ao Brasil, escrevi um longo artigo sobre um livro, então recém-lançado, da jornalista Eva Celada, em que ela desvendava alguns mistérios em um delicioso livro chamado “Os Segredos da Cozinha do Vaticano”. Em completa oposição ao nosso papa atual, Joseph Ratzinger tinha um lado gourmet declarado, era apreciador de pratos mais elaborados e possuía um gosto apurado para vinhos.

Mais recentemente (se você não viu ainda, corra para ver) o filme “Dois Papas” (disponível na plataforma Netflix) revelou – com alguma liberdade poética, porque, afinal, estamos falando de Hollywood – os bastidores da renúncia de Ratzinger e a campanha pela eleição de Bergoglio. Dentre as curiosidades mostradas, a de que o papa Bento XVI adorava beber refrigerante sabor laranja. O longa, riquíssimo em detalhes, fala da predileção do alemão por pratos típicos germânicos. Uma das cenas mais divertidas precede a revelação de religiosos criminosos: o cardeal Jorge Mario e o papa Bento comem pizza, após uma longa benção da comida. 

Aliás, falando em um clássico italiano, o papa João Paulo II era apaixonado por massas (macarrão) e não abria mão de pizza. Já o Papa João XXIII (1958-1963) gostava da cozinha italiana, mas não abria mão de pratos franceses e era apreciador de pães, croissants, queijos, embutidos.

Mas voltemos ao Brasil

Por cá, Bento XVI ganhou um mimo: doces feitos pela cozinheira Emília Mattias Serafim. A relação dela com o mundo angelical não ficava tão somente no sobrenome: ela trabalhava, desde os 14 anos de idade, para a família do Beato Frei Galvão, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, e sua especialidade eram os papos de anjo (um adendo, aqui no Pará, Dona Anna Maria Martins fez papos de anjo para o santo Padre João Paulo, quando de sua passagem relâmpago pela capital paraense. Enquanto que o chef Paulo Martins conduziu o jantar). E não foram somente eles – dona Emília preparou nozes tingidas, encapados de amêndoas, creme da rainha e doce de castanha. Ah! E de quebra, Bento XVI ainda ganhou de presente 120 garrafas de um vinho brasileiro (tecnologia portuguesa às margens do rio São Francisco) Rio Sol, que levou na bagagem para a Itália.
 
Segredos deliciosos

Em trezentas deliciosas páginas de “Os Segredos da Cozinha do Vaticano”, a autora passeou por quase 20 séculos de Gastronomia encerrada entre os muros do menor país do mundo. Até o século IV, por exemplo, os Papas viviam de maneira simples. Na Idade Média foi que os hábitos mudaram, com a eleição de Bonifácio VIII, em 1303 – daí a cozinha do Vaticano ganhou complexidade e, por que não dizer, alguma ostentação.

Lagosta trufada, ovos beneditinos sobre bacalhau, massas recheadas e caviar eram alguns dos itens obrigatórios – só para dar uma rápida ideia dos cardápios papais. É importante frisar que, a despeito dos excessos, o Vaticano contribuiu, de maneira expressiva, na adoção e disseminação de alguns hábitos culinários presentes até hoje em grande parte das mesas contemporâneas: o uso do queijo muçarela nos pratos, o surgimento de sopas batidas (amassadas), arroz doce, manjares e do panetone. Na interminável lista de modos de preparar ovos, não nos esqueçamos ainda de que foi nos mosteiros que surgiram o champanhe, licores... que tinham de vir com a inscrição D.O.M (Deus Onipotente e Máximo, em latim).

Voltando a João Paulo II, polonês de nascimento, ele apreciava a cozinha de seu país, mas gostava igualmente dos pratos italianos e espanhóis. Adorava torrone e, por essa razão, sempre ganhava o doce de presente. Havia um grupo de doceiros espanhóis, que sempre mantinha a Santa Sé abastecida. Conta-se que em seu apartamento, a comida era sempre muito simples, caseira mesmo. Gostava de chás e de uma geleia, em especial: a feita com pétalas de rosas. Importante dizer que João Paulo II não comia arroz (muitos brasileiros também não estão comendo)! Apreciava conversas durante as refeições e abençoava cada uma delas. Costumava dizer, em tom de brincadeira, que “o que se fala à mesa, não sai da mesa”.
Quando Bento XVI, nascido na Alemanha, assumiu, pediu que fossem introduzidos alguns ingredientes de sua terra natal – ele gostava muito de doces e caldos e comia pouca carne.

Uma curiosidade final: no Vaticano, a 300 metros da Praça São Pedro, localiza-se o restaurante preferido de Ratzinger – e que ele frequentou religiosamente por quase 15 anos –, o Venerina. O prato pedido todas as vezes era praticamente o mesmo, o Fettuccine Porto Vieste, que era acrescido de abobrinha, camarões e creme de leite. E sem repetecos, porque, afinal, a Gula é pecado...

ALGUNS DOS SEGREDOS DA COZINHA DO VATICANO:
 
“(...) porém, estou certa de que muitas pessoas queiram saber também que no distante século XIII na Corte de Roma se tomava lagosta trufada e que os deliciosos ovos beneditinos sobre leito de bacalhau eram um capricho de Benedicto III, que ele mesmo sugeriu a receita. Ou que o marzipã de água de rosas se fazia nas cozinhas vaticanas na Idade Média. Também penso que será de interesse para muitos descobrir que já no princípio do século XX se fazia cozinha “de autor” no Vaticano e pratos considerados como grandes descobrimentos em nossos dias eram habituais em suas mesas, como as saladas de flores, as massas recheadas de angulas e cobertas com caviar, saborosamente apresentadas”.
 
“João Paulo II assistia a um jantar em homenagem a sua Coroação e ao ver o menu, disse com toda humildade: ‘Não precisava se incomodar, pizza e pasta era suficiente’. Por acaso o papa não sabia que a cozinha italiana oferece centenas de pratos saborosos à margem destes tão populares? A resposta é que o Papa não era um grande gastrônomo. Quando ia a Roma, até ser eleito Sumo Pontífice, comia somente pizza e pasta, não visitava os restaurantes luxuosos. Ele gostava de comer também a sobremesa, adorava conversar depois de comer, depois que terminava a sobremesa, solicitava que fosse retirado tudo e que ficasse somente o café. Até o final de seus dias foi assim, privadamente ele comia uma simples comida polaca e somente quando vinha algum convidado, ele mandava servir outros pratos (muitos dos quais não gostava)”. 

Troppo
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