Dia dos Avós: amor duas vezes mais intenso

Lorena Filgueiras

O dia 26 de julho marca a data dedicada aos avós, seres especiais, sinônimos de amor incondicional e histórias. Afinal, quem não tem uma história marcante para contar sobre os avós.

A data, que é uma homenagem aos avós, nasceu de uma homenagem – católica – aos avós de Jesus, Sant’Ana e São Joaquim. Embora quase nada se saiba da relação de Jesus com seus avós, os registros bíblicos falam de Ana e Joaquim, como pais. Aliás, voltemos um pouco no tempo. Ana e Joaquim eram casados e tentaram, uma vida inteira ter filhos. Estéril e com idade avançada, Joaquim teria pedido a graça a Deus e se retirou para o deserto, onde, ao longo de 40 dias jejuou e orou para ter seu pedido atendido. Sem ter notícias do marido, Ana orou fervorosamente, pedindo pela vida de Joaquim e reforçou o desejo ter um bebê. A Bíblia relata ainda que anjos apareceram para ambos, anunciando as boas novas: teria um bebê. Seria uma menina, uma filha.

Ana engravidou e nasceu Maria, que viria a ser a mãe de Jesus.  E, como dito mais acima, embora não haja registros da relação de Jesus com seus avós, sabe-se, com certeza, que Maria tinha muito orgulho dos pais e transmitiu muito de sua educação ao filho.

Da antiguidade para os tempos atuais

De lá para cá, os avós, em boa parte dos casos, sempre tiveram uma determinante participação na vida dos netos. Cunharam-se algumas máximas para tentar definir os papéis dos avós, dentre as quais destaco duas: “pais educam, avós mimam” ou “avós são pais duas vezes”. A última não poderia ser mais verdadeira na relação da arquiteta Patrícia Mendonça, 32 e da avó, Eunice Taques, que acaba de completar 80 anos. Tendo perdido a mãe, Selma, há poucos meses, depois de um longo período de enfermidade, Patrícia ganhou uma ajuda imprescindível – ainda no período em que a mãe adoeceu. Natural de Campo Grande, onde reside boa parte da família (e de onde avó veio), a arquiteta mora em Belém há alguns anos e a mãe, Sônia, veio também para a capital paraense morar com a filha, então recém-casada. Há um ano, a doença reincidiu e deixou Sônia bem debilitada.

Patrícia Mendonça, a avó Eunice Taques e a neta Cecília (Naiara Jinknss/acervo pessoal)

Dona Eunice não pensou duas vezes: embarcou pra Belém com a mala cheia de roupas e esperanças. Veio disposta a passar o tempo que fosse necessário cuidando da filha... mas quis o destino aliviar Sônia de seus sofrimentos físicos. A avó, Eunice, virou mãe de Patrícia e já decidiu: vai alternar períodos de 3 meses entre Belém e Campo Grande, para sempre poder estar junto dela e da bisneta (sim, temos uma bisneta), Cecília. “A Patrícia é uma boa neta e sempre foi uma boa menina”, afirma. Quando pergunto o que mais gosta na neta, dona Eunice não pensa duas vezes: “quando ela chega do trabalho, me dá um beijinho na testa e pergunta como foi meu dia”. A mãe-avó é a rainha da casa: cardápio do almoço, limpeza e até a educação da bisneta passam pelo crivo da Dona Eunice, que, em toda sua simplicidade, se permitiu um momentinho de orgulho: “o primeiro banho da Cecília fui eu quem dei! Tive ajuda do Rogério (o pai da binesta), mas fui eu que dei!”.

As dores pela perda da única filha, Sônia, ainda são muito presentes – afinal, pelo curso natural da vida, é muito antinatural um pai dar adeus a um filho. Os olhos ainda marejam facilmente, feito olho d’água e a voz embarga. “Se eu pudesse, eu ficava aqui pra sempre, mas tenho minha casinha lá [em Campo Grande], né, fia?”, pergunta à Patrícia, cheia de carinho e com o sotaque notadamente caipira.

A neta-filha Patrícia Mendonça conta que “descobriu” a avó aos 5 anos. “Eu tinha duas avós, a mãe do meu pai, Elvira; e a mãe da minha mãe, Eunice. A Elvira era mais presente porque eu frequentava mais a família do meu pai. Não me identificava com ela, porque ela era francesa, rigorosa e não tínhamos afinidade. Depois de um curto tempinho, a vó Eunice passou a ser uma presença mais frequente e eu me apaixonei completamente por ela. Era ela quem fazia minhas vontades... e os suspiros que eu comia!”, conta entre gargalhadas. “Na adolescência, eu estudava em um colégio colado ao hospital onde ela trabalhava. Eu saía da aula, na hora do almoço e entrava no hospital para almoçar com ela. Esperava ansiosamente a hora do almoço”, afirma. Sobre a avó ter assumido o papel de mãe, foi um caminho natural, quase que óbvio. “A minha mãe era muito uma filha mais velha pra mim... não tinha essa referência de mãe. A minha avó, quando veio pra cá, assumiu esse papel mesmo. Era ela quem me dava o suporte dentro de casa, que me ajudava a cuidar da minha mãe, me dava as broncas e me dava os conselhos. Depois que a minha mãe partiu, isso ficou ainda mais nítido”, segreda. “É muito bacana ter uma relação próxima de avós, porque é valioso ter alguém com mais experiência e que possa compartilhar um pouco mais de sabedoria. Eu amo minha avó. Minha filha sabe que ela é imprescindível à nossa família: ‘somos eu, você, papai e minha bisa, né, mãe?’”, finaliza.

Avós x tecnologia = histórias maravilhosas para contar 

Há aproximadamente dois anos, uma sequência de prints dominou os trending topics da internet: tratava-se de uma conversa, via aplicativo de mensagens instantâneas no celular, entre um neto e sua avó. O papo, hilário, foi marcado pela estreia da avó na tal plataforma de mensagens (e o desespero dela com o corretor do aparelho) e o neto, que mora nos Estados Unidos. De lá, o neto Marlon Corrente, empresário, tentava acalmar a avó, Luzia Mangisfesti, que, em determinado momento da conversa, ficou tão desesperada com o que o corretor escrevia, que perguntou ao neto se resolveria o problema em colocar o celular pra lavar. O post teve tantos compartilhamentos que mudou a vida da nossa personagem, dona Luzia. Mas deixemos que o próprio neto conte pra gente. “A relação da vó com a tecnologia continua a mesma, só que mais madura. Ela não é tão fã do Facebook, porque segundo ela, não se pode ter amigos sem fazer café pra eles... (risos) então ela não tem usado tanto.

No Whatsapp ela só manda áudio, o que limitou bastante as pérolas de corretor e escrita de texto. Ela também trouxe o vô pro mundo digital, que atualmente tem cerca de 8 perfis no Facebook, pois sempre que tenta entrar e esquece a senha, cria outro”, conta, provocando gargalhadas em mim. Pergunto para o Marlon sobre os avós, como é a relação deles e percebo muito carinho (além de um bom humor que só pode ser genético!). “Minha avó se chama Luzia Mangifesti Corrente. Ela mora em Jerônimo Monteiro, Espírito Santo. Nossa relação é extremamente próxima, como de todos os netos e tias. Meu avô é digital e desempenha uma função muito importante em cidades do interior, a de berganhista: aquele senhor que fica sentado no banquinho da rua trocando tudo com todos... então imagine que o maior problema agora não são os textos da vó: é o número de telefone do Vô! Ele troca de aparelho semanalmente, e quando você vai ligar pra ele no WhatsApp, acaba falando com Simone, Ivete, Marlene ou qualquer outra pessoa acima de 60 anos que tenha comprado o telefone dele”. 

Embora não se vejam pessoalmente, desde que a história viralizou, Marlon faz planos para estar no Brasil no começo de 2020, mas não abre mão de falar com eles quase todo dia. “A gente se fala quase que diariamente, sempre que tô dirigindo de um local pra outro costumo ligar pra ela ou para os meus pais. Eu costumo tirar foto das tempestades aqui do Texas, e mando no grupo da família. Agora a tarefa dela é pedir pra ter cuidado com isso e esconder”, finaliza entre risos.

Marlon conta rapidamente que a avó sempre pede que ele leve um agasalho e que coma bem. “De fato, estou comendo melhor”, admite. 

Avós são dádivas divinas. Impossível não passar um filme na cabeça. Com a minha (de quem morro de saudades todo santo dia), aprendi muitas coisas... mas ainda menina, ela me ensinou a bater claras de ovo em neve com o auxílio do garfo. Elas ficaram enormes, firmes, ao que ela, toda orgulhosa, sentenciou: “sinal de que você terá muita fartura e dinheiro na vida”. O dinheiro não veio ainda... mas pouco importa: nada no mundo compra o amor dela e eis a maior herança. 

Troppo
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