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De Cabo Verde para o mundo inteiro!

Luciana Medeiros

Você já foi a Cabo Verde? Não? Pois vá! O país-arquipélago é situado próximo à costa do continente africano, sendo formado por 10 ilhas de origem vulcânica, que ganharam nomes de Boa Vista, Brava, Fogo, Maio, Sal, Santo Antão, São Nicolau, São Vicente, Santiago e Santa Luzia – a única que não é habitada, sendo área de preservação das espécies que vivem no oceano Atlântico e que circundam a região. Além desse turismo praiano, de sol e mar, gastronomia e belas paisagens, o país também possui uma cultura rica e única que vem promovendo um turismo cultural impulsionado, principalmente, pela música. Morna, Funaná, Coladeira e Batuque são alguns, dentre os muitos ritmos próprios do país, que também é um celeiro de grandes artistas e intérpretes. A música cabo-verdiana foi difundida porCesáriaÉvora, tornando-se conhecida no mundo todo. A artista foi e continua sendo um ícone de Cabo Verde, influenciando gerações de cantoras de seu país – uma delas é Mindela Soares, 39, que esteve em Belém na semana passada, participando de programações alusivas a um projeto de intercâmbio cultural e cujos resultados virarão vídeo e livro. De timbre muito particular, Mindela apresentou a música tradicional cabo-verdiana, alternada com a música brasileira, pela qual ela se confessa apaixonada. Mindela teve a companhia de outros artistas da terra (dela e da nossa): Manuel di Candinho e Palhin Vieira; as cantoras Natália Matos e Mariza Black; os percusionistas Loba Rodrigues e João Paulo Pires, e o violonista Paulo Robson.

Mindela tem uma carreira recente. Há cinco anos, incentivada por amigos, ela se inscreveu no concurso nacional “Todo Mundo Canta”, em São Vicente. Conquistou o primeiro lugar e saiu do evento determinada a seguir profissionalmente na música, deixando de lado sua formação original em Cozinha. Logo, passou a se apresentar no circuito cultural de sua cidade. Um ano depois, participando de uma festividade do município, ela conheceu o músico e multi-instrumentista Manuel di Candinho, fato que daria uma nova guinada em sua carreira.

Ele estava em São Vicente, cidade onde nasceram Mindela e Cesária Évora, e também se apresentava com a Bulimundo, banda que surgiu em Cabo Verde, logo após sua independência de Portugal, em 1975, apresentando ao povo cabo-verdiano a versão elétrica do Funaná, estimulando a então emergente revolução cultural do país, cuja luta vem sendo transformar a tradição da música local em um símbolo da cultura cabo-verdiana.

A forma natural de Mindela cantar os ritmos cabo-verdianos chamou atenção de Manuel di Candinho, que já havia sido produtor musical de Cesária Évora, de Mayra Andrade e de outros artistas conterrâneos. Ao perceber o talento da cantora, passou a fazer sua direção musical, dando início a uma parceria que se fortalece para a gravação de um primeiro álbum, com previsão de lançamento em 2021. Após este encontro, nossa convidada especial mudou-se para Praia, capital de Cabo Verde, cidade que concentra a grande parte da população do país.

(Luciana Medeiros)

Nesta entrevista, Mindela nos conta como a paixão adolescente pela música tomou conta de sua vida, tornando-se sua profissão, e de como ela tem encarado esse intercâmbio, sendo que a vinda a Belém foi também a sua primeira visita ao Brasil.

Mindela Soares esteve em Belém, participando do Projeto de Extensão “Intercâmbio Turístico-Cultural entre Belém – Pará - Brasil e Cabo Verde”, desenvolvido pelo Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal do Pará, por meio da Faculdade de Turismo (Factur), em parceria com o Escritório Modelo de Práticas Acadêmicas em Turismo (Empactur).

Troppo + Mulher: Como a música entrou na sua vida a ponto de chegar a se tornar a sua profissão?

Mindela Soares: Em sou a única mulher entre seis irmãos nascidos de uma família 100% caboverdiana. Nasci na ilha de São Vicente, como meu pai. Já minha mãe é da ilha de São Nicolau. Eu tenho essa mistura das duas ilhas, sendo que São Vicente é uma das mais culturais de Cabo Verde. Nasci na mesma zona em que morava Cesária Évora. Eu vivia na rua anterior à dela; tenho a mesma idade de seus netose brinquei muito, quando criança, com um deles. Cresci nesse ambiente, em que havia muita serenata, muita música e muito violão. A música veio também da minha cultura familiar, está no sangue, porque o meu avô era compositor das marchas de carnaval da ilha de São Vicente; minha mãe gostava de dançar e de cantar. Ela colocava para tocar sempre a nossa música e outras também, inclusive a música brasileira, que nós crescemos ouvindo. Era muito samba, as baladas do Roberto Carlos e tantas outras. Então conhecemos todo essa parte cultural vossa, através da minha mãe.

T+M: Na sua família há mais artistas como você?

MS: Na família,sou a única cantora que assumiu a música como profissão. Minha mãe gostava muito de cantar, mas nunca chegou a fazer isso profissionalmente. Tenho tias e tios, do lado do meu pai, que cantam muito, mas também não assumiram, somente quando reunimos a família e grupos de amigos. Tenho um irmão que é bailarino e professor de dança, mas de forma geral, todos lá em casa gostam de música e sabem dançar. Minha mãe nos passou esse legado da música.

T+M: Antes de se dedicar à música, o que fazia profissionalmente?

MS: Eu sou formada em Cozinha e vinha trabalhando com isso até que e a música veio, há cinco anos, como profissão. Embora eu tenha passado minha adolescência toda envolvida com isso, somente agora que estou fazendo uma carreira profissional. E quando começou isso [a nova carreira], já tinha minha família e filhos.

(Luciana Medeiros)

T+M: E como foi exatamente que isso aconteceu?

MS: Uma amiga me indicou que participasse do concurso “Todo Mundo Canta”, que é realizado em minha ilha, reunindo interpretes de todo o país. Pelo meu estilo, caí nas graças dos tradicionalistas e passei a ser convidada para shows de maior importância. E depois disso, encontrei Manuel quando estava em um show de festa de São João, promovido pela Câmara Municipal da ilha. Manuel di Candinho estava tocando com o Bulimundo. O vocalista já era meu amigo e sempre me dizia “Mindela venha para a Praia, porque São Vicente já está pequena para você”. E assim me apresentou a Manuel. Daí que uns meses depois disso eu saí de São Vicente e fui para Praia, a fim de abrir os horizontes na música. É onde eu moro agora.

T+M: Você me disse que tem cinco filhos e tem apenas 39 anos. É comum que as mulheres em Cabo Verde tenham muitos filhos e tão jovens? Aqui no Brasil é um tanto assim...

MS: Tenho quatro meninas, com idades de 16, 12, 9 e 7 anos, e um rapaz de 19. Tive o primeiro filho aos 21 anos. Em meu país acontece muito a gravidez na adolescência. Temos um problema sério de paternidade. Temos lá muitas mães solteiras, que criamos filhos sozinhas. Mas ter muitos filhos é uma coisa cultural, minha mãe teve seis, meu irmão teve cinco. As famílias são sempre muito grandes. Já diminuiu: antigamente eram 10, 12 filhos por família, inúmeros netos.

T+M: Vamos falar mais da tua essência musical, o que você mostrou aqui em Belém?

MS: Aquí em Belém eu cantei a Morna, ritmo que é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e também mostrei o nosso samba, que na minha ilha ganha um ritmo um pouco mais suave, mas com muita semelhança com o daqui. Eu canto os ritmos da minha ilha, mas em Cabo Verde tem muitos outros, isso vai variando de ilha para ilha, mas temos esses ritmos que são comuns em todas.A ilha mais próxima de São Vicente, onde nasci, é a ilha de Santo Antão, que fica a uma hora de barco. As outras ficam um pouco mais distantes. Da Praia para São Vicente, são 45 minutos de avião, então não é muito longe. Temos essa ligação via marítima ou aérea entre as ilhas, que precisam estar sempre interligadas. Algumas são mais agrícolas: produzem, inclusive, muitas frutas como banana, papaia, manga, laranja da terra, tamarina e tâmaras. Temos uma comida que é típica em todo país, a Cachopa, que é feita com milho, feijão, legumes e carne, mas que também pode ser consumida com peixe.

(Mácio Ferreira)

T+M: A música tem sido uma plataforma de atuação potente para os artistas e para a economia do turismo em Cabo Verde. Como isso tem sido desenvolvido?

MS: Temos lá o AME – Atlantic Music Expo, criado em 2014, e que vem atraindo artistas e empresários, além de turistas, de todo o mundo. Este ano, por causa da pandemia, o evento foi cancelado, mas em 2021 talvez seja realizado em abril. É um tipo uma exposição, feira da música. Temosainda o festival de Guitarras na Ilha do Sal, e ainda oCrioulo jazz, Festival da Gamboa, entre outros, e todos são abertos à participação de artistas do mundo todo. As CâmarasMunicipais são responsáveis em realizá-los. E nestes todos já recebemos muitos artistas brasileiros, entre eles as paraenses Joelma e Fafá de Belém.

T+M: Embora você tenha todo esse contato com a música brasileira, essa é a sua primeira vez no Brasil. Como tem sido essa experiência?

MS: Não deu tempo de conhecer tudo, pois chegamos aqui e já passamos aos ensaios para agravação, mas cheguei a provar algumas comidas e tomar alguns sucos, como a acerola, que eu gostei muito. Também tive oportunidade de conversar com as pessoas dentro e fora do hotel. A impressão que temos do brasileiro é de um povo simpático, aberto, e,quando cheguei aqui, tive essa certeza.Essa não é uma impressão verdadeira, vocês também têm muita morabeza[morabeza é um regionalismo crioulo de Cabo Verde, que denota hospitalidade, significando “bem-vindo”] como nós, por isso nos identificamos muito com o povo brasileiro.

T+M: E como foi a troca entre vocês artistas que participam desse projeto de intercâmbio?

MS: Foi muito bom. Quando nos falamos, descobrimos coisas em comum sobre a luta nesse mundo musical. Descobrimos que nossos ritmos têm em comum, araiz africana, sendo que esta, quando transportada de um lugar ao outro, foi ganhando outras características e se transformando, mas, na essência você vai encontrar ainda muitos pontos em comum entre a música brasileira e caboverdiana. Quem é músico, sente logo isso. E criamos também uma amizade. Desde a live,que tínhamos participado em outubro, que eu e Mariza [Black, cantora] estamos em contato,viaWhatsApp. Não houve nenhuma dificuldade entre nós e nem com nenhum outro artista. Gostei muito de Natalia [Matos, cantora], da Loba, instrumentista que pega tudo com facilidade. Falamos cada um de seu país e de nossos mercados musicais.

T+M: No Pará, o Carimbó foi reconhecido como Patrimônio Cultural, assim como a Morna. Você poderia falar um pouco mais sobre este gênero musical?

MS: É uma música que está conosco desde o nascimento. Quando nós nascemos, no sétimo dia, já nos é cantado, por tradição, uma Morna. Então você vem com a Morna do nascimento e durante a sua vida ela vai te acompanhando, pelas manifestações culturais, as festas, em todos os momentos...e também é cantado quando você se despede da vida, na morte, né? Temos por tradição, quando uma pessoa morre no nosso País, o funeral ser acompanhado de Morna.

Então não foi difícil, para reconhecer nisso, um patrimônio, mas nós também agradecemos ao Ministério da Cultura por ter feito esse trabalho, porque é uma junção, né? Eram os artistas e o povo que queriam a Morna[como] patrimônio. O governo tinha que ter essa consciência para recolher esses dados e valorizar, então este foi um momento muito grande para Cabo Verde. E também temos a grande contribuição da Césaria Évora, não podemos deixar de dizer, porque ela cantou e era conhecida como a rainha da Morna, a espalhando pelo mundo inteiro. Cabo Verde passou a ser conhecida, através da Morna que ela cantou, da música que ela levou pelo mundo.

T+M: Hoje em dia, quem são os expoentes da música de Cabo Verde?

MS: Temos muito artistas conhecidos internacionalmente, que fazem muito sucesso, e não só no ritmo tradicional, porque eles também fazem um outro tipo de música. A Mayra [Andrade] faz uma que mistura bem própria, de ritmos que ela ouviu por onde andou e por isso tem um trabalho muito próprio. Eu gosto muito dela, sou muito fã. E também temos, o Dino D'Santiago e a Elida Almeida, que andam pelo mundo levando a música de Cabo Verde, cada um com seu estilo, mas tem sidos bem recebidos, enfim, é a nossa música viajando pelo mundo inteiro.

(Mácio Ferreira)

T+M: Quais são os planos para o lançamento de seu primeiro álbum?

MS: Ainda não gravei o disco, mas já tenho todo o material pronto e senão fosse essa pandemia,eu já teria lançado esse meu trabalho, mas atrasou tudo. Acredito que isso possa passar e que eu possa retomar esse trabalho com o Manoel. Só falta entrar no estúdio.As pessoas já estão me cobrando esse disco. Eu tenho então vivido algo diferente. Normalmente as pessoas fazem o disco e depois fazem a carreira; mas eu já estou caminhando assim, mesmo não tendo um disco. Eu consigo fazer meus shows, sou chamada para cantar em muitos lugares, mesmo não tendo, ainda, o trabalho sólido no mercado.

T+M: O que foi mostrado em Belém também estará em seu primeiro CD?

MS: O que eu trouxe aqui são músicas que a Cesária cantou, outras cantoras cantaram; compositores variados que tem muito peso na nossa cultura, como Francisco Xavier da Cruz, conhecido por Beléza, que é um dos compositores considerados maiores da nossa cultura. No meu CD vou ter composições originais [inéditas], de Mário Lúcio [que já foi Ministro da Cultura de Cabo Verde] e de alguns compositores que são da nova geração. Vou ter composições de ritmos da coladera, e também de marchas de carnaval, que identifica muito a minha pessoa, a minha ilha.

T+M: O que fica em você sobre sua estadia em Belém?

MS:Eu fiquei muito feliz de poder ter essa oportunidade de estar aqui em Belém, fazer um show presencial para as pessoas, mesmo que poucas por causa dos cuidados com a pandemia. Eu pude passar essa energia da nossa música que tem muito do sentimento cabo-verdiano. Acredito que é preciso manter e ampliar esse contato, para que as pessoas daqui também possam estar lá conosco, compartilhando música e cultura de forma geral. Gostaria de deixar um abraço para todos os brasileiros, de todas as pessoas aqui de Belém do Pará, dizer que agradecemos pela recepção.Estamos muito felizes de estar aqui e, do fundo do coração, dizer que os cabo-verdianos amam muito o Brasil e os brasileiros, mesmo que muitos de vocês não conheçam nosso país, nós conhecemos muito vosso. A música daqui toca nas rádios de lá; nós vemos as telenovelas e sabemos tudo que passa aqui, de bom e de mal. Temos esta informação, então só espero que um dia vocês possam ter essa ligação, essa percepção de saber o que passa no nosso país também e que possamos ter ainda essa ligação mais forte.

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Troppo
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