Ingrid Silva: A brasileira que deixou Nova York aos seus pés

Flávia Ribeiro

A poucos meses para o fim da segunda década do século XXI, pela primeira vez uma bailarina negra não precisará adequar um dos seus instrumentos de trabalho para que fiquem da sua cor de pele. Ingrid Silva também se tornou a primeira bailarina negra a estampar a capa de uma revista nacional no Brasil, seu país natal e o que concentra a maior população negra fora do continente africano.

Não é de hoje que ela é notícia, mas há algumas semanas um post ganhou espaço na mídia por falar da emoção em ter sapatilhas fabricadas com a sua cor. As sapatilhas de uma bailarina devem representar uma parte do seu corpo, devem ser discretas, para mostrar movimentos fluidos. Antes, era necessário pintá-las para que não destoassem do resto do corpo durante os movimentos.

Morando nos Estados Unidos há mais de uma década, Ingrid faz parte da companhia Dance Theatre Of Harlem, que é famosa no mundo inteiro por trazer a diversidade como marca. Entre uma apresentação e outra, Ingrid estava na California e falou um pouco com a Troppo + Mulher sobre sua carreira, sua vida, a dança e sobre a plataforma digital EmpowerHer NY, que ela criou para dar suporte às mulheres.

Ingrid Silva (Angela Zaremba)

Troppo + Mulher: O ano é 2019 e foste a primeira bailarina negra e brasileira a estampar a capa de uma revista nacional, do Brasil, país mais negro fora de África. Qual a tua opinião sobre isso?
Ingrid Silva: Eu fico muito feliz de haver revistas que dão oportunidades e abrem portas. Eu sei que é o Mês da Consciência Negra. Isso está sendo e é muito importante para que mais pessoas vejam que o ballet está aberto para a diversidade e com as portas abertas para mudanças.

T+M: Tens uma noção de quantas vezes já foste considerada a primeira ou a única bailarina negra e brasileira a desbravar situações?
IS: Sim, várias vezes me pego em situações como estas. Mas não sou a única, há muitos outros bailarinos que também tiveram que sair do Brasil, para procurar oportunidades fora do país e seguir carreira na dança.

T+M: Qual o custo pessoal, físico e emocional desse pioneirismo?
IS: É um custo bem alto! Mas, graças a Deus, eu tenho pessoas ao meu lado que são super importantes e que estão comigo em todas as minhas jornadas, que me deixam com os pés no chão. Elas me dão o melhor suporte possível, para que essas coisas aconteçam e que as mudanças aconteçam no mundo.

T+M: Novamente, vou ter que repetir que o ano é 2019 e pela primeira vez usas sapatilhas fabricadas com o teu tom de pele. Um post seu viralizou, mas vou te perguntar de novo, qual o sentimento de poder ter essas sapatilhas, depois de 11 anos pintando as sapatilhas brancas, rosadas e peroladas?
IS: É gratificante. Na verdade, a história das sapatilhas é muito mais intensa e renovadora do que as pessoas acham. Desde 1969, o fundador, do DTH [Dance Theatre of Harlem], Artur Mitchell criou esse look da companhia e até hoje isso vem revolucionando e proporcionando um mundo da diversidade na dança. Depois de 11 anos, eu não ter que pintar mais a minha sapatilha e é uma vitória imensurável, porque as novas gerações nunca vão ter que passar por isso.

T+M: Além de pintar as sapatilhas para se adequar ao teu tom de pele, também paraste com o alisamento de cabelos, como foi esse processo?
IS: O processo de transição já faz cinco anos. Antes, eu sempre tive o cabelo com permanente. Mas há alguns anos, meu marido perguntou “por que você não deixa seu cabelo natural?” Aquilo, naquele momento, meio que abriu meus horizontes e me encorajou, para que eu fizesse essa transição. Foi uma das melhores decisões que eu já tive na minha vida!

T+M: De uma menina negra, de Benfica, no Rio de Janeiro, à bailarina internacionalmente conhecida, sonhavas que o balé te levaria para esses lugares? Como foi o começo na dança?
IS: Ah, eu jamais imaginaria que me levaria para esses lugares. Comecei em um projeto social chamado “Dançando para não dançar, na Vila Olímpica da Mangueira. Esse projeto tem mais de 20 anos e continua recrutando meninas de comunidade e dando oportunidade para que elas tenham acesso a arte. Eu jamais imaginaria que a dança me levaria para tantos lugares. Mas, eu acho que também é fruto de muito talento, perseverança e determinação.

T+M: Como foi desembarcar nos Estados Unidos, sem falar inglês e sozinha?
IS: Desembarcar no Estados Unidos sem falar a língua foi muito complicado. Me senti sozinha e senti que não fazia parte daquele mundo. Era a minha primeira viagem internacional. Talvez, se eu tivesse aprendido um pouco mais de inglês, eu estivesse mais segura. Mas nada disso impediu em um ano, com ajuda dos meus amigos, eu aprendesse a língua e conseguisse me dar super bem com a cultura americana.

T+M: Como é de maneira geral a tua relação com a família no Brasil e como isso influenciou na tua carreira e na tua vida em NY?
IS: Minha relação com a minha família é das melhores. Eu tenho pessoas ao meu lado que sempre me apoiam, para o que der e vier e a minha mãe é uma figura que sempre me ajudou muito. Ela me apoiou e me encorajou.

T+M: O que diferencia o DTH de outras companhias?
IS: Eu acho que o que diferencia a minha companhia é que você nunca vai ver nenhuma outra companhia de ballet clássico com a adversidade que nós temos no palco. É algo revolucionário!

T+M: Como foi o processo de criação do EmpowerHer NY? Como funciona e qual o objetivo?
IS: Criar essa plataforma para mulheres tem aberto muitas portas para mim e me mostrado muitas outras coisas além da arte. Eu tenho dado oportunidade para outras mulheres para criarem seu próprio network. É uma rede colaborativa que tem a intenção de dar oportunidade, diversidade e criação. O meu sonho com essa plataforma é de que seja maior plataforma de network do mundo.

T+M: Qual o conselho para aquelas meninas negras, que estão nas favelas e periferias do Brasil, e são inspiradas por ti?
IS: Nunca desistam dos seus sonhos! Sempre tenham essa perseverança e do amor pela arte. Vão existir muitos obstáculos, mas pense que você é capaz.

Para conhecer mais:
@ingridsilva

Troppo
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