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Criatividade à mesa 

Alta no preço de diversos alimentos que compõem as ceias natalinas abrem espaço para inovações nos menus, com uso de mais produtos regionais

Jamille Reis

O ano de 2020 foi marcado por adaptações e, para muitos brasileiros, elas também serão necessárias nas ceias de Natal e Ano Novo. Cerejas, damascos, pêssegos, nozes e outros itens comuns às mesas festivas dão lugar a produtos nacionais. Isso porque, o país terá a menor participação de produtos importados em mais de uma década, conforme estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Os fortes impactos causados pela pandemia refletem em queda de 16,5% na importação de produtos tipicamente natalinos, como vinhos, castanhas, pescados, castanhas e frutas típicas, em relação ao ano passado, com total de R$ 1,85 bilhão entre setembro e novembro. O valor é o menor desde 2009. 

Para o técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese Pará) Everson Costa, a forma de produzir, consumir e se relacionar mudou drasticamente e deve ainda manter mudanças estruturais fortes daqui pra frente. "Isso impacta diretamente não só no consumo, mas na economia como um todo. Temos no comércio global uma série de insumos sendo encarecidos, além de restrições e reflexos impostos pelos lockdowns, que trouxeram outros efeitos que encarecem os produtos", explica. 

Everson Costa (Acervo Pessoal)

A variação no câmbio do dólar, com média de alta de 35% este ano, também é um dos fatores que contribuem para os reflexos do cenário atual, segundo Everson. "Além do alto custo para trazer os produtos, há o cenário de queda na renda e desemprego em que estamos vivendo", acrescenta o economista. 

Mas, na opinião do chef de cozinha Saulo Jennings, não há motivos para os paraenses se preocuparem, pois o Pará é um estado rico em insumos, que podem ser atualizados e adaptados com diversas referências gastronômicas mundiais. 

Saulo Jennings (Dudu Maroja)

"Precisamos nos conscientizar e valorizar o que é nosso. Exercitar ideias, praticar. Sair do quadrado e conseguir enxergar nossos ingredientes como chiques. Além de sair mais gostoso, sai mais barato. É algo que eu sempre fiz, mesmo antes da pandemia", afirma o chef, que assinará a ceia de Natal da cantora Gaby Amarantos. 

Para a decoração da mesa e pratos, no lugar de cerejas, ameixas e outras frutas importadas, Saulo afirma que pode ser usada a ata, chamada também de fruta do conde, sapotilhas e tucumã, essa última, uma fruta que dá no mato e que é possível fazer uma calda (velouté) com base de molho agridoce para ser servida com antepastos. Ou, ainda, uma saborosa geleia de açaí. 

"Muitas vezes não colocamos na mesa nossa castanha-do-pará e colocamos avelã, por exemplo. Temos a melhor castanha, seja ela fresca ou desidratada, que pode ser, inclusive, usada em uma farofa", acrescenta o chef. 

De acordo com Everson Costa, as frutas e demais itens importados estão sendo encontrados este ano, porém em menor quantidade e com elevação nos preços. 

Bacalhau Amazônico 

Um dos itens também muito comuns às ceias de fim de ano, o bacalhau português também teve grande alta no preço e, como consequência, houve recuo de 52% na importação de pescados, segundo a CNC.

Para o chef Saulo, quem não vai incluir o alimento no banquete das festas, pode lançar mão do pirarucu seco, intitulado como o bacalhau amazônico, que pode ser feito com o mesmo preparo do nobre pescado importado, ou ainda, com legumes e luminosas regionais, como macaxeira, jerimum, maxixe, regados a um bom azeite, com ovos caipiras. Ou mesmo o pirarucu de casaca, um clássico paraense feito com banana da terra frita.

"Outras alternativas são a pescada amarela fresca, disponível no Ver-o-Peso e nos nossos mercados, pescadinha amarela, que pode ser salgada e depois dessalgada, e o mapará seco, para fazer um prato desfiado, que ninguém vai saber se é ou não realmente bacalhau", dá a dica. 

O pirarucu, aliás, é item indispensável na ceia de Saulo. "É um clássico, seja ele fresco ou seco, é o símbolo amazônico, símbolo da partilha, pois é um peixe grande, e é versátil, pode ser feito de diversas formas. Um bom pirarucu, para mim, não pode faltar, e também tucupi e jambu nunca faltam, nem no Natal", garante. 

Natal paraense

Esse será o primeiro Natal da assistente social e criadora de conteúdo Vanessa Feitosa, 35, em Belém. Carioca, ela e o marido, Rômulo, vieram morar na Cidade das Mangueiras por conta do trabalho, há 10 meses, e estão na expectativa pela ceia da noite natalina. 

Rômulo, Vanessa e os filhos Gabriel e Julia (Arquivo Pessoal)

Vanessa conta que percebeu aumento significativo nas prateleiras dos supermercados em produtos como azeite, bacalhau, castanhas portuguesas e frutas cristalizadas, por exemplo. Para não deixar de fazer o tradicional prato de peixe, ela vai optar pela substituição da bacalhoada cheia de azeitonas e regada ao azeite, por bolinho ou salada de bacalhau. "Assim a gente garante o bacalhau mas em outro formato e economizando nos ingredientes mais caros", explica a criadora de conteúdo, que compartilha sua nova rotina de vida na capital paraense, com dicas de como fazer você mesmo de vários objetos decorativos e receitas, no perfil do Instagram @nos5eumavida.  

Entre os itens que não faltam na ceia da família, estão castanhas, frutas cristalizadas, bolo, panetone e rabanada. "As crianças também adoram confeitar biscoitos de gengibre", afirma Vanessa, que é mãe da Julia, de um ano, e do Gabriel, de 3 anos.  

"Pensar um Natal 'à brasileira' e substituir as frutas importadas por frutas regionais e de baixo custo são uma ótima opção para economizar na ceia. Doce de cupuaçu, salada de frutas, são ótimas opções nesse calor", opina a carioca. 

Mas não foi só nos alimentos que a família sentiu o aumento nos preços. Vanessa conta que objetos decorativos, como enfeites e guirlandas, e até a árvore de Natal, tiveram valores mais altos. "As lojas estão cheias de opções. Para economizar em meio a tanta diversidade, o ideal é sair de casa com uma listinha em mãos. Esse ano optamos por fazer uma árvore de Natal com temática Disney e aproveitar as pelúcias e brinquedos das crianças", conta. 

E para quem está preocupado com a mesa, às vésperas das festas de fim de ano, Vanessa deixa uma mensagem: "Natal é nascimento, família. Mesa de Natal tem que ter representatividade. Mais do que nunca precisamos valorizar o que nossa culinária tem de melhor. Nosso país é tão rico e tem uma diversidade de alimentos enorme", pontua a assistente social.

Quem compartilha do mesmo pensamento é o chef Saulo, que assina embaixo quando o assunto é valorização de insumos locais. "Assim como temos uma culinária que tempera o mundo, que tenhamos, na mesma proporção, uma fé para passar por tudo isso e ter dias melhores. Nosso povo merece", finaliza.  

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Troppo
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