Consciência Negra

O próximo 20 de novembro marca o dia da Consciência Negra, um momento de relembrar nomes que lutaram por igualdade, combater o racismo e celebrar a cultura negra e suas raízes.

Gustavo Aguiar

Lembra de quando você ia à escola, sentava em uma cadeira, ouvia as professoras e professores narrarem a história brasileira em cima de grandes feitos? Batalhas, gritos que mudaram o rumo do país, personalidades com nomes gigantescos [que eram difíceis de decorar], e suas representações em pinturas: todos homens brancos. O que se conta e se ensina, como sendo a história do povo brasileiro, é na verdade a história da população branca que vive no país desde o século XV. Mas, e a população negra? Será que não existiu uma grande mulher ou grande homem preto responsável por mudar o rumo do Brasil?

Sim, nós tivemos. O maior líder quilombola brasileiro esteve à frente de uma resistência contra o sistema escravista e o domínio colonial que foi a mais duradoura das américas, com 90 anos de luta contra os colonizadores. Zumbi dos Palmares é o maior herói da história do Brasil, descendente de africanos escravizados, é um símbolo que foi apagado dos livros didáticos, assim como a cultura africana e indígena, que permanecem marginalizadas por séculos.

O Quilombo dos Palmares foi invadido e sua população, assassinada em 20 de novembro de 1695. Mas foi somente na década de 1970, quando os movimentos negros começaram a se organizar e a denunciar o racismo brasileiro, que a história preta nacional começou a ser valorizada. Criou-se, décadas depois, em 1997, o dia de combate à escravidão, opressão e racismo, que em 2011 se tornou o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Mas o que significa essa data e por que é tão necessária para o atual cenário de discussões sobre racismo e violência contra a população preta no Brasil?

O QUE É CONSCIÊNCIA NEGRA?

Hoje, qualquer pesquisa na internet sobre racismo vai revelar temáticas como “apropriação cultural”, “racismo estrutural”, “solidão da mulher negra”, entre outros temas em voga sobre o assunto, mostrando que muito se evoluiu nos estudos raciais no mundo todo. O historiador e doutorando em História da América Latina na Universidade de Columbia, Manuel Rendeiro Neto, conta que as discussões sobre consciência negra começaram a ter destaque desde a metade do século XX, com objetivo de reconhecimento de sua origem racial, tanto do passado horrível da escravidão, quanto da valorização da memória da população negra, que muitas vezes não tem acesso à sua própria história. 

O mês da consciência negra é um momento de lembrar que, no Brasil, as pessoas de pele escura são tratadas de forma diferente, por conta do histórico violento da escravidão, que assolou o país por mais de 300 anos. Esses efeitos ainda são sentidos de diferentes maneiras. Para o professor Manuel Rendeiro Neto, "uma forma simples de identificar a desigualdade racial no Brasil é a gente olhar para o espaço urbano, na divisão de bairros de uma cidade, na disposição de cargos em certas empresas. Visualmente, a gente consegue identificar uma certa distribuição racial, que vincula a questão racial a uma questão socioeconômica", explica.

PODE FALAR “CONSCIÊNCIA HUMANA”?

Assim como os efeitos da escravidão da população africana no Brasil ainda podem ser enxergados na marginalização da cultura negra, na violência contra os jovens negros e na diferença de cargos de liderança que são ocupados por pretos e por brancos, os costumes racistas também passaram de geração a geração. O professor Manuel Rendeiro Neto conta que a população branca ainda é responsável pela perpetuação de ideias de violência contra a população preta, mas que entender o que é consciência negra é um caminho para “aprender de onde vem certas atitudes que ainda se mantém hoje em dia e de que maneira a gente precisa combater as ideias racistas que persistem em nossa sociedade”, analisa.

“Consciência humana” é uma ideia racista que foi criada para conter o crescimento das discussões sobre racismo. Normalmente, é citada por pessoas brancas que acreditam que os negros querem ter mais diretos que o resto da população, num movimento de perpetuação da desigualdade, mas com os pretos no poder. Esse é um reflexo de um certo grupo de pessoas que ainda é resistente à ideia de que a sociedade é racialmente desigual e de que são necessárias medidas para acabar com a desigualdade social entre pretos e brancos.

Essa discussão, que chega a polarizar grupos entre movimento negro e os que acreditam que não existe racismo no Brasil, fica ainda mais complicada porque na cultura brasileira o racismo faz parte da estrutura social e se manifesta de diferentes formas que nem sempre são explícitas. Está presente em palavras de uso comum, como “denegrir”, “mulata” e no fato de que os exemplos de beleza sempre são ligados a traços eurocêntricos. A psicóloga Victória Elmira explica que para muitos é difícil aceitar que suas atitudes são racistas.

"Quando a gente vai acusar ou explicar uma situação de racismo, a gente explica coisas do cotidiano, coisas que as pessoas fazem durante uma vida toda, 20, 30, 40 anos... como explicar pra essas pessoas que o que elas vêm fazendo a vida inteira era racismo? Ao mesmo tempo que a gente luta pra combater o racismo que se alastra de forma geral na sociedade, que é estrutura da nossa sociedade, a gente também tem que lidar com essas pequenas coisas do dia-a-dia, essa coisa é velada, mas que atrapalha a nossa vivência", conta a psicóloga.

O IMPACTO DO RACISMO

As grandes barreiras do racismo na sociedade, somadas às pequenas ações discriminatórias do dia-a-dia e que as pessoas pretas sofrem durante todo o seu crescimento contribuem para problemas emocionais nessa população. Uma pesquisa do Ministério da Saúde de 2018 revelou que a terceira maior causa de mortes no Brasil é o suicídio. Um jovem negro, entre 19 e 24 anos, tem 45% mais chances de cometer suicídio em relação a uma pessoa branca da mesma faixa etária.

“A gente pode falar também sobre a ansiedade, a depressão, como a nossa saúde mental está sendo estruturada dentro dessa sociedade racista, sociedade que diariamente nos agride quando a gente assiste a televisão e vê que pessoas parecidas com nós são vistas com outros olhos, e a partir da nossa imagem a gente é julgado como criminoso ou não, se pode ter sucesso na vida ou não", explica a psicóloga Victória Elmira.

Pensar a consciência negra no Brasil é um caminho de dor, de uma herança violenta. Mas há a beleza daquilo que não foi apagado, a história e cultura que os africanos trouxeram para o país e que ainda está presente na música, na dança, nas artes, na religião e numa filosofia negra que vem sendo resgatada. Tudo isso faz parte da valorização do ser negro, um ponto fundamental para a Consciência Negra. Essa cultura vem sendo pesquisada por diferentes áreas de estudo e compartilhada para a população principalmente pela internet, com produtores de conteúdo como o Gabriel Conrado, 30 anos, que discute sobre negritude e sobre cultura afro-amazônica em suas redes sociais.

“Percebi que não basta falar apenas desse algoz, de como eles nos subjugam e nos resumem a corpos hipersexualizados, à força, a animalização, brutos e ignorantes, mas também que precisamos enaltecer nossa negritude, ensinar o preto que ser preto é bom, que somos intelectuais, somos capazes de tudo, de chegar onde queremos, apesar do sistema lutar contra isso”, confessa Gabriel, que produz vídeos e vários posts sobre racismo, mas também sobre a beleza de ser preto e amazônida.

Pra ele, que tá no front das discussões e embates sobre racismo na internet, “todas as pautas são importantes, ‘apropriação cultural’, ‘colorismo’, ‘lugar de fala’, ‘os termos racistas’, todos são extremamente necessárias até porque todos eles estão no nosso cotidiano, a gente é atravessado por eles o tempo inteiro. O que atrapalha o debate é o esvaziamento do significado dessas pautas”, ele explica, como a ideia de “consciência humana” que tira o foco da discussão sobre a desigualdade racial.

Se na internet, as discussões ganham corpo e brigam por mudanças de fato na sociedade, como a discussão de cotas raciais em instâncias públicas e privadas, na vida real poucas mudanças podem ser detectadas, pelo menos do lado de fora. Mas dentro de cada adolescente preto ou preta, a ideia de beleza, de poder e a confiança em si vêm crescendo com a quantidade de produções musicais e cinematográficas, por exemplo, que valorizam a cultura e a beleza afro.

Em Belém, uma festa chamada “Coisa Preta” vem, há mais de quatro anos, todo mês, celebrando a cultura negra e de periferia no Brasil. Um dos criadores é o Dj The Black, 30 anos, que já percebe uma mudança na forma como a juventude negra se enxerga. “Houve uma mudança muito grande na autoestima do jovem preto e queria destacar também a mulher preta dentro do processo de luta, de enfrentamento e afrontamento. Houve uma aceitação da sua identidade pelo jovem preto. Eu, por exemplo, fui influenciado pelo cabelo e depois fui buscar minhas referências, fui lendo, buscando fontes. Um fato que me levou a isso foi a música, que me trouxe muito poder, muito vigor e me fez refletir sobre o que é ser preto na sociedade brasileira, acima de tudo racista”, conta o DJ.

Assim como a festa, diversas outras iniciativas estão fazendo a diferença e a ponte entre as discussões acadêmicas e as novas pesquisas sobre negritude e o identificar-se negro, com toda a sua beleza, história, cultura e herança da diáspora africana e colonização do Brasil. A consciência do que é ser negro no país que teve o período escravocrata mais longo e o que mais importou africanos escravizados é buscar informações sobre essa história e celebrar seus traços com orgulho, durante todos os meses do ano. Quem sabe, um dia, não seja necessário explicar o que é racismo, nem discutir a importância de falar sobre o que é ser negro no Brasil, pois já teremos igualdade, de fato.

Para conhecer mais:
@éguapreto 
@arthurtheblack
@coisapretaa
@maneurendeiro

Troppo
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