Conheça a história de Eloi Iglesias em uma entrevista de tirar o fôlego

Lorena Filgueiras / Troppo

Eloi Iglesias é um ícone paraense. Seu nome está intimamente ligado a dois patrimônios da cultura local: a festa da Chiquita e a canção “Pecados de Adão” – um hino atemporal. Aos 64 anos de idade, esbanja um vigor invejável, acompanhado de memórias – no mínimo – surpreendentes. A mãe, dona Ruth, espanhola de sangue quente e apaixonada por ele, dizia que o destino do pequeno Eloi estava traçado desde a hora de seu nascimento – que comparou à uma estreia, já que ele ‘coroou’ na hora em que Carmen Miranda se despedia da vida.

Entre mesas de operários, cantava desde menino e declamava poesias. Foi hippie, conheceu Glauber Rocha, morou atrás do terreiro de Mãe Menininha do Gantois. Supresos? Esperem que tem mais: Eloi é um pai amoroso e avô dedicado. Ao longo de quase duas horas de entrevistas confessou que transou em todos os lugares do icônico Theatro da Paz, que fez jejum... e que sua canção mais célebre era uma declaração de amor. Uma entrevista surpreendente, como vocês conferem a partir de agora.

Troppo + Mulher: Me conta um pouco das tuas primeiras lembranças, Eloi...
Eloi Iglesias: Nasci no primeiro bairro operário do Brasil, que é o reduto. Nasci no dia 05 de agosto de 1955, às 23:45 – justamente na hora em que Carmen Miranda fez a passagem dela. Então, na verdade, eu fiz uma estreia, eu não nasci – vim para substituir uma grande atriz. Eu sou uma substituta! Lógico que trago isso na minha biografia, porque eu sou da geração do AI5, mas vivi um pouco os anos dourados, o glamour. Mesmo sendo pobre, eu transitava bem: tinha um pé no luxo, na high society e o outro, no lixo, na vala. 

T+M: Falavas da tua família...
EIoi: A história da minha mãe, Ruth Iglesias Começaña, foi meio trágica. Ela perdeu os pais muito cedo: a mãe morreu de paixão pelo pai – naquele tempo em que as pessoas morriam apaixonadas. Minha mãe começou a trabalhar muito cedo e logo conheceu meu pai – também de família espanhola. Eles chegaram ao Brasil fugidos da Espanha, acusados de serem anarquistas. E se alojaram no bairro do Reduto. Eu nasci ali, onde a família do meu pai tinha um comércio, uma mercearia, que se chamava Alma de Dios. Lá tinha de tudo: do alfinete ao avião! (risos) Quando o [general Magalhães] Barata estava no poder, minha avó o desafiou. Havias umas leis bem rígidas em relação ao código de posturas, que estabelecia que os azulejos não podiam passar de um metro e meio de altura. Minha avó, meio irreverente, espanhola sangue quente, perguntou-lhe se ele não queria que ela armasse uma cama pra ele lá – o que causou um enorme desconforto e fez com que minha família fosse deportada.

Voltaram para a Espanha, mas meu pai teve de vir novamente a Belém para providenciar o restante da mudança – neste meio tempo, o Barata tinha ‘caído’ e todos voltaram para o Brasil! (risos) Detalhe: eles vieram parar em Belém, achando que a cidade fazia fronteira com a Argentina – essa coisa da pouca orientação geográfica que o Europeu tinha. Mas voltando: minha mãe teve sete filhos - uma irmã, Perpétua, faleceu. A família, de tradição cristã, batizou os filhos de Marias e Josés...

T+M: Então és José Eloi...
EIoi: José Eloi Iglesias Começana. Aqui no Brasil, tiraram o til de cima do ‘n’. O Eloi veio do meu avô materno, que era embarcadiço. Iglesias, na Espanha, era o Silva. Logo que eu comecei minha carreira, as pessoas achavam que o Iglesias era um codinome... Então, meu nascimento foi uma estreia e eu nasci já com nome e sobrenome de estrela! 

T+M: E como foi a estreia para além do teu nascimento?
EIoi: Minha mãe tinha um restaurante para operários. E eu sempre animava os almoços dos operários: subia nas mesas para declamar poesia e cantar. 

T+M: Tua mãe te incentivava?
EIoi: Muito! Até por ter nascido no dia da partida de Carmen Miranda, ela acreditava muito. E minha estratégia era chorar, porque meu pai era um homem machista... e, pra ele, antes a morte que a má sorte, né? Era ela quem me protegia: ‘é o espírito da Carmem Miranda que está nele!’. Isso eu herdei dela, aliás. Ela transitava bem na espiritualidade. Minha estreia de verdade foi no Theatro da Paz.

T+M: Uma estreia histórica, de cara.
EIoi: Foi no teatro, em 1970. Já havia estreado, anos antes, em festival musical, mas eu sou do palco. Mas considero o palco do Theatro da Paz minha estreia porque era um estado de santidade – eu tenho uma relação meio de altar com o palco. Você fica meio incorporado. É um lance meio Stanislavski [diretor, ator e professor russo, responsável por um sistema de atuação, que condensa as melhores técnicas para atores e atrizes], quando o ator entra em um transe. O palco me toma, me possui... eu deixo fluir minhas emoções. Sou de um tempo em que se dizia que homem não chorava – e eu sempre chorei muito! O espetáculo da minha estreia era o “Coronel de Macambira”, que era da Escola de Teatro [da UFPA], com a direção do Cláudio Barradas... aliás, foi uma honra! Ele era um mestre de cena. Ele me ensinou a pisar no palco, a me posicionar... qual luz usar. Inclusive, eu não faço shows em barzinhos... veja bem, eu sou um artista que as pessoas têm de prestar atenção e nem sempre em barzinhos, as pessoas prestam atenção ao artista. Meu show tem entrelinhas, tem subtextos, muita semiótica. Eu sou deste tempo!

T+M: Por isso tua paixão pelo Theatro da Paz?
EIoi: Eu estreei lá e foi uma honra. Conheço cada pedacinho daquele local. Já transei em todos os lugares do Theatro da Paz! (risos) Já fumei maconha em todos os lugares do Theatro da Paz! Sou de uma geração que foi cobaia – o Cazuza dizia muito isso. Experimentei muito! Falei pro meu filho, quando ele entrou na faculdade: ‘olha, você tem que experimentar tudo na faculdade’. Como eu não entrei na faculdade, experimentei tudo aqui do lado de fora e não nego nenhuma das minhas experiências porque foram todas muito válidas. Consegui criar um filho! Sou pai solteiro e as pessoas sempre me perguntam se é um filho biológico.

T+M: Eu não te perguntaria isso. Filho é filho. E ponto.
EIoi: Lógico que ele é um filho biológico! Mas tá muito além disso: me perguntam se ele é gay e eu digo que não, mas se fosse, seria ótimo! E tem um nome forte, indígena: Uirá Uaury. Na época, eu tava montando um musical chamado “A lenda do Jurupari”, que o manipulador do universo, que favorece os encontros... foi ele quem manipulou nosso encontro, inclusive! Mas Jurupari manipulava os nascimentos das crianças... e a junção do nome do meu filho dá um pássaro que tem voo próprio. Nunca quis interferir na vida do meu filho religiosamente, por exemplo: não o batizei – deixei que ele escolhesse. E ele cresceu mais justo aos sentimentos dele; os sentimentos dele de justiça são maiores que o meu. Hoje ele é empresário e me enche de orgulho.

T+M: Já és avô, Eloi?
EIoi: Já! Do Gabriel, que tem três anos. É uma delícia ser avô! Ontem mesmo fiquei cantando para ele até as 4 da manhã – eu sou muito vigoroso! Tenho uma energia esotérica. Gosto de santos, rezo meus Pais-Nossos e tenho um lado ateu demais – Ateu, graças a Deus. Não se consegue chegar a Deus muito rápido, mas deixo pago meu Pai-Nosso. Mas deixa eu te contar do Gabriel. Eu que o levo à escola e sou responsável pela recreação: na minha casa, ele pode pintar as paredes – na casa dele, não pode. Adoraria que ele fosse artista plástico! [risos] Essa semana, ele começou a ir para a escola... e, sabes, né? Os meninos choram para ir à escola. Ele chorou muito! Mas observei que as meninas não choram – as meninas são libertárias! É bom ser avô! Recomendo muito que todos sejam pais. Amo demais meu filho e o eduquei como meu pai me educou... logicamente, com algumas liberdades, né? [ele ri] Mas não adianta: mãe é mãe. Pai é pai.

T+M: Ser artista te ajudou com a paternidade?
EIoi: Com certeza! No auge da ditadura, na década de 70, conheci a educação montessoriana – que era muito moderna para a época. E a gente debatia muito sobre como educar as crianças para o novo. Sabemos que o mundo não está preparado para algumas educações. Coloquei meu filho numa escola pública, sob a premissa de que a escola pública te abre as percepções; é onde conhecerás pessoas boas e ruins. E como artista... bem, acho que sabes: há épocas em que tem dinheiro e há épocas em que não tens dinheiro. Melhor garantir o leite da criança, porque a escola já estava garantida. Eu acompanhei de perto toda a educação dele. Na primeira infância dele, na nossa casa, não se consumia proteína animal – cuidávamos de nossa saúde assim, através da alimentação. A macrobiótica nos fez muito bem – era melhor evitar remédios.

T+M: Foste muito perseguido na Ditadura?
EIoi: Olha, eu não vou te mentir que não percebi. Era tanto LSD que eu tomava, que acreditava que ficava invisível, sabe? Eu era aquele garoto que andava com o cabelo solto, imenso, cheio de flores, que andava descalço... eu era meio mendigo na rua. Tenho uma habilidade manual enorme e naquele período, durante o movimento hippie, eu fazia joias com cobre, sapatos com sola de pneu, criava roupas... aqui em Belém, havia um lugar chamado ‘O Lixo’, que recebia roupas vindas da guerra do Vietnã e eu andava com roupas de soldados que haviam sido mortos na guerra. Aqui não tinha jeans, mas lá sempre comprava. E assim eu andava na rua. Eu era um menino bonitinho. [risos] Foi quando comecei a ter minhas primeiras experiências, a beijar os meninos... a fumar folha de bananeira...

T+M: Folha de bananeira te dava barato?
EIoi: Que nada! Só uma dor de cabeça dos infernos! [ele gargalha] Eu era uma personagem de gibi... e continuo sendo!

T+M: E como foi que tornaste possível expressar tua arte para um público maior?
EIoi: Sou produtor cultural porque tive que aprender a me produzir. Logo cedo eu aprendi que nenhum produtor cultural bateria na minha porta comprando minhas ideias. E entendi que essa relação de produtor-artista é meio escravocrata e eu nunca me encaixei nestes padrões. Hoje eu faço vários projetos e transito em vários meios.

T+M: Me fala de ‘Pecados de Adão’...
EIoi: Viajei pra São Paulo, morei na Bahia – lá, inclusive, eu fazia um espetáculo com os ogãs da Mãe Menininha do Gantois. Foi minha introdução na cultura afro-religiosa valendo! Eu não estava familiarizado com a cultura do Candomblé. Conhecia a Umbanda e tinha medo...  Pois bem, na Bahia, eu morava no alto do Gantois, bem atrás do roncó de Mãe Menininha do Gantois! Cheguei a conhecê-la e vi de perto a história que todos contavam da chuva que só caía sobre a Casa Branca do Gantois. Eu achava lindo andar de cabelo trançado, usando brincos de búzios... e não ligava à transexualidade. Na realidade, eu pensava a transexualidade como androginia e androginia, pra mim, era algo meio santo. 

T+M: Que história incrível!
EIoi: Fiz jejum. Passei dias tomando orvalho e comendo flores. Eu acreditava e ainda acredito na transcendentalidade. No terceiro dia, meus chakras estavam abertos e eu viajei. 

T+M: Foi nesse contexto que ‘Pecados de Adão‘ surgiu?
EIoi: Sim. Tava terminando a Ditadura e o Figueiredo tinha acabo de assumir. Montamos uma banda chamada ‘Cinco Estrelas’, em homenagem à lenda do Cruzeiro do Sul. E em São Paulo começamos a nos apresentar, juntamente com os ogãs de Mãe Menininha – era um grupo muito doido! Fazíamos Teatro musicalizado e começamos a chamar a atenção de algumas pessoas, como o Jorge Mautner – que era um ídolo. Foi quando conheci o Glauber Rocha, porque um dos integrantes da banda trabalhou como assistente de direção dele – o Glauber dizia que tínhamos de estudar mais história. Pois bem, no meio disso tudo, começamos a chamar atenção e o Comando de Caça aos Comunistas invadiu o atelier que ocupávamos. Decidi ir embora de novo de Belém e conheci uma pessoa... me apaixonei. 

T+M: A música é uma declaração de amor?
EIoi: Pois então: é! [ele ri] Foi uma homenagem.

T+M: A música pareceu ter sido escrita para uma pessoa do sexo feminino, por conta de uma linha “você calada, no meio da multidão”. Por que você não escreveu “você calado”?
EIoi: Eu sempre acho que tudo tem de ser escrito no feminino. As pessoas deviam se tratar mais por “ela”, em vez de “ele”. A gente precisa desconstruir o masculino. Acho que o masculino oprime muito. Falo da minha paixão por meio de uma saudade, que é explicitada no zoom. Mas [a música] também tem essa coisa de lembranças de outras pessoas. O fato é que “Pecados de Adão” era uma música que eu cantava na troca de uma roupa – era um espetáculo interativo em que eu me apresentava nu. Pecados de Adão nem era o meu estilo.

T+M: Se não era teu estilo, esperavas o sucesso que foi?
EIoi: Não! Como eu te dizia, ela era uma música de intervalo. Tive uma música censurada à época, o “Rock da Martinha”, que falava dos traficantes da Matinha [como era conhecido antigamente o bairro de Fátima] e eu morria de medo... morro até hoje, de militares. Quem não tinha música censurada, nem era tão bom artista assim...! [risos] Então, a música começava meio romântica, manhosa porque era uma música de intervalo, para troca de roupa. Eu cantava nu e tinha uma sombra chinesa atrás de mim. Era algo bem teatral e uma chamada à naturalidade: a gente nasce nu e morre nu. Roupa é pra quem tem medo! Pois então, a música era ingênua de verdade. Gravei uma fita k7 e o Marton Maués, que era ator e trabalhava comigo, me disse: ‘me dá essa fita que vou tentar tocar na Cultura’, onde ele era locutor. E estourou! Eu a regravei depois, com uma pegada mais acelerada. ‘Pecados de Adão’ foi lançada oficialmente no verão e, como meu timbre é muito parecido com o do Cazuza, teve gente que confundiu com o novo lançamento do Cazuza! A Continental [gravadora] ouviu a música e me chamou para lançar lá fora, mas preferi não apostar, até porque estava com meu filho pequeno e tinha uma estrutura toda montada.

T+M: És feliz, Eloi, com as escolhas que fizeste?
EIoi: Muito! Consegui criar e educar meu filho com Arte. Meu filho me respeita, me ama, confia em mim e me deu um neto. Não me escondo: sou um defensor dos Direitos Humanos. Estamos vivendo um momento muito difícil, mas vamos voltar pra rua. Já vivemos tanto e temos que garantir uma vida bacana à juventude do planeta.
 
O papo com o cantor e artista Eloi Iglesias continua em nosso site. Ele fala sobre o “encaretamento” da cultura, sobre o cenário político atual e sobre a festa da Chiquita. Ficou curioso? Acesse o código QR ao lado para ler mais.

T+M: A Fafá, em entrevista concedida a nós, falou sobre como o mundo atual era careta. Concordas com isso?
EIoi: Conheci a Fafá novinha, cantando na janela do Bar do parque. Ficamos muito amigos, fizemos uma peça juntos eu, ela e o Cacá [Carvalho]. Eu acho que as pessoas estão muito caretas, sim. Ao mesmo tempo, eu penso que lutei muito para que as pessoas tivessem o direito de ser caretas. Acho chato... hoje existe uma música que te oprime. Se tu não souberes  fazer um quadradinho de oito, fica complicado! Digo a todas as pessoas: ‘eu sou diva! Eu não posso fazer quadradinho de oito!” Não faço selfie – não tenho essa habilidade. Não toco com fundo de música eletrônica. Gosto de tocar com músicos instrumentistas. Sempre me adequo às coisas para que eu não fique sujeito aos preconceitos. Ontem eu vi o show da Aretuza Lovi e adorei, achei ela muito politizada... ela mandou o presidente para longe. Achei corajoso, especialmente em um cenário de que muitos LGBT votaram nesse cara!

T+M: Qual tua visão para a Cultura no atual cenário político?
EIoi: O Chico diz que é melhor não ter um Ministério da Cultura, se for pra ter o que se tem. Mas acredito que temos de ser camaleões. Não dá pra ficar de fora e deixar que essas outras pessoas assumam as coisas. Sou de uma época em que, quando eu fazia espetáculo, ia um censor e atrás dele, vinham 10 aprendizes de censor. Depois de muito ter espetáculos picotados, finalmente entendemos que o problema deles era com pornografia. Aí o que gente fazia: enchia de pornografia o começo do espetáculo e deixava a mensagem principal para depois. Temos que encontrar um jeito de fazer resistência e mandar a mensagem!

T+M: Passaste um tempo morando no Rio, não foi, Eloi? Cogitaste ficar por lá e dar andamento à carreira?
EIoi: Sempre achei que eu aconteceria em qualquer lugar! Sou muito feliz, sinceramente. Adoraria ter uma visibilidade internacional e até acho que tenho porque faço um evento, que ajudei a construir, a Festa da Chiquita, que é um ícone da cultura LGBT no mundo! Ela é a primeira festa que é patrimônio imaterial da humanidade! [a festa foi tombada pelo IPHAN em 2018].

T+M: Como nasceu a Festa da Chiquita?
Eloi: Ela nasceu ainda no período da Ditadura, a partir de um grupo de artistas que se reuniam para questionar o território que é invadido pelos fieis e peregrinos. Os artistas são peregrinos da cultura e quis brincar com essa coisa de diretoria da festa. 
Todo mundo sabe como funciona uma diretoria de uma festa. Semiótica tá aí para explicar isso. Tudo que é para a Santa, é dado de graça.  

Troppo