Conheça a arte da Falcoaria, que ajuda até na segurança dos aeroportos

Atividade atravessou milênios, uma técnica de caça que protege o meio ambiente

Rodrigo Cabral / Troppo

Parece coisa de filme. Em cenário medieval, um rei com seu falcão na torre do castelo com olhares firmes para o horizonte. Também conhecida como o esporte dos reis, a arte de treinar aves de rapina era bastante comum entre a nobreza, na Idade Média, e está mais perto do que você imagina. Em um voo alto, a falcoaria atravessou milênios, reunindo esporte, cultura e preservação ambiental. Recentemente, a técnica foi usada para garantir a segurança e evitar colisões entre aeronaves e pássaros, no aeroporto de Belém.

Hoje reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a prática consiste em treinar aves de rapina para a caça de presas naturais. Recebem essa classificação os pássaros que caçam com as garras. Além da fascinante relação que se estabelece entre a ave e seu treinador, outro viés do trabalho é a reinserção dos animais à natureza, especialmente para aves que foram apreendidas por órgãos ambientais e passaram por algum tipo de trauma.

“Os animais que podem ser usados na arte da falcoaria são os gaviões e os falcões. Também usamos algumas técnicas desse treinamento com corujas, mas elas não são usadas para caça. O treino é dividido em etapas, onde trabalhamos o animal fisicamente e mentalmente para poder ir a campo fazer a caça, dependendo das características de cada um”, explica o biólogo Felipe Furtado, fundador do grupo Harpia, que existe há cinco anos em Belém. 

O biólogo Felipe Furtado, fundador do grupo Harpia, que existe há cinco anos em Belém (Naiara Jinknss / Troppo)

 

O grupo Harpia 

A Associação Amazônica de Falcoaria e Conservação de Aves de Rapina é a único na região Norte. Reúne biólogos e veterinários interessados em promover a arte da falcoaria, bem como contribuir com a conservação e reabilitação de rapinantes, além de contribuir com a educação ambiental, levando orientações à população sobre a importância de cuidar dessas espécies.

Além de capacitar profissionais para a prática responsável da falcoaria, o grupo realiza cursos e palestras para públicos específicos e para a comunidade, atuando também no tratamento e na reabilitação de aves que foram tiradas ilegalmente de seu habitat natural. 

Hoje com 30 anos, Felipe decidiu ampliar ainda mais a sua atuação. Ele está cursando uma segunda graduação, desta vez, em Veterinária para conhecer ainda mais sobre as aves e como prestar atendimento médico em emergências.  “O meu interesse por falcoaria surgiu quando eu era estagiário do Museu Paraense Emílio Goeldi. Lá, recebíamos algumas aves de rapina machucadas. Eu decidi procurar uma forma de melhor de ajudar esses animais a voltarem a voar e retornar à natureza. Pesquisei, conheci a falcoaria e comecei a usar a técnica para a reabilitação. Muitas vezes, as aves chegavam ainda filhotes. Eu as ensinava a voar e, depois, a caçar até estarem prontas para serem soltas”, conta.

O treinamento de aves de rapina é uma atividade livre, mas a utilização para a caça precisa ser autorizada pelos órgãos ambientais. A falcoaria é autorizada em aeroportos, contribui para a segurança do tráfego aéreo. Os espaços gramados circundam as pistas de pouso atraem a presença de aves como pombos e quero-queros, oferecendo riscos de colisões durante a decolagem ou o pouso das aeronaves. “Realizamos esse trabalho no aeroporto de Belém. Os gaviões são predadores naturais. Com a presença do predador, essas outras aves se afugentam. Nesses casos, utilizamos técnicas em que a caça machuque o mínimo possível a presa. Colocamos miçangas nas garras do gavião, evitando que a outra ave seja furada. Após a caça, trocamos a presa por comida para recompensar”, explica Felipe.

Amor pela falcoaria
 

Ively Maluna de Almada, 23 anos, é acadêmica de Medicina Veterinária e falcoeira. Em 2013, quando ainda cursava Biologia em Macapá-AP, assistiu a uma demonstração de voo conduzida pelo Felipe Furtado, no Parque do Forte, um dos pontos turísticos da capital amapaense. Naquele dia, ela se apaixonou pela arte milenar e percebeu que a falcoaria é uma ferramenta importante para a conservação das aves de rapina. A partir daquele momento, ela passou a pesquisar mais sobre a arte, seguiu trocando informações com o treinador e, daí, iniciaram um plano de voo em conjunto. Noivaram e, hoje, moram juntos em Belém, onde possuem duas aves: um Gavião-asa-de-telha (Parabuteo umicinctus) e uma Coruja Suindara (Tyto furcata).

Ively Maluna de Almada, 23 anos, é acadêmica de Medicina Veterinária e falcoeira (Naiara Jinknss / Troppo)



Ively atua bastante na reabilitação de aves. “Estou cuidando de uma Águia-de-cauda-branca (Geranoaetus albicaudatus) oriunda de cativeiro ilegal e criação irregular, o que causou um transtorno psicológico e impossibilidade de reintrodução na natureza. O animal está em tratamento devido a uma fratura consolidada na asa, e estamos avaliando se é viável a realização de uma cirurgia”, relata.

Para adquirir uma ave de rapina, é preciso buscar um criadouro autorizado pelas autoridades ambientais. No Brasil, já existem mais de cinco em funcionamento há bastante tempo. Nailson Júnior, 24 anos, é Médico Veterinário e residente em clínica médica e cirúrgica de animais silvestres do Hospital Veterinário da UFPA em Castanhal. Nos horários vagos, contribui voluntariamente com o trabalho do Grupo Harpia. “Atualmente eu tenho um gavião-asa-de-telha macho, de 4 anos, oriundo de um criadouro legalizado pelo Ibama, o Criadouro Fukui no Rio de Janeiro.

A primeira vez que tive contato com a arte da Falcoaria foi em 2010, por documentários na televisão. Como morava no interior do Ceará, infelizmente, não era uma realidade ter algum contato pessoal. Em 2012, ingressei no curso de Medicina Veterinária pela Universidade Federal da Paraíba, onde, por intermédio de amigos, conheci meu Tutor na Falcoaria, Glenison Dias, também Médico Veterinário”, lembra Nailson. 

Nailson Junior e o seu gavião (Thalles Almeida)

O veterinário ressalta a importância de ser buscar a capacitação para praticar a falcoaria. “É fundamental ter alguém para lhe repassar os conhecimentos, ensinar e acompanhar, pois, quando você erra, quem irá sofrer as consequências será a ave”, orienta. “No meu trabalho na UFPA, faço parte de uma equipe do setor de animais silvestres, que presta atendimento a animais oriundos de resgates, apreensões, dentre outras situações. Lá fazemos o atendimento clínico ambulatorial, exames de diagnóstico por imagem ou laboratoriais, cirurgias, bem como a reabilitação comportamental e psicológica dos animais. Com as aves de rapina, especificamente, utilizamos a falcoaria para melhorar a resistência física da ave e obter um melhor sucesso de reintrodução no ambiente natural. Também conseguimos fazer educação ambiental com esses animais, tentando evitar que eles sejam capturados e criados de forma inadequada ou contrária à legislação ambiental, além de prestarmos orientação sobre essa legislação, sempre em conformidade à Resolução do Conselho Federal de Medicina”, conclui o Nailson.   

SE INTERESSOU PELA FALCOARIA?

Para ingressar na arte da falcoaria é preciso estar disposto a investir tempo para aprender o treinamento das aves e dinheiro para adquiri-las. Os interessados em possuir uma ave de rapina devem procurar um criadouro autorizado pelo Ibama. Os valores variam de acordo com as espécies. Os preços dos falcões vão de R$ 1 mil (geralmente os menores) a R$ 10 mil (valor médio para a venda do falcão peregrino, considerado o mais rápido do mundo). Para gaviões, o custo varia entre R$ 2 a R$ 4 mil. Já os preços de corujas têm média entre R$ 2,5 e R$ 5mil. No Brasil, há duas entidades que são referência: a Associação Brasileira de Falcoaria e a Associação Nordeste de Falcoaria.

Segundo os especialistas, é importante que os interessados na prática credenciem-se juntos a uma delas para troca de experiências e, também, para realizar trabalhos na área, que, geralmente, são articulados a partir dessas associações.

Troppo
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