Clarice viva e sua arte expandida

Projeções em transmissão on-line terão tom comemorativo aos 100 anos da escritora

YvanaCrizanto

Clarice Viva: Filosofia, Literatura e Arte Expandida. O tema permeia a próxima edição do projeto Cidade em F(r)estas, que celebra 100 anos da escritora Clarice Lispector, em uma noite de sensações na praça da República, no próximo dia 10 [dezembro], a partir das 18h, e transmissão on-line a partir das 19h. O Instituto Ciências da Arte (ICA) da Universidade Federal do Pará é o parceiro que recebe o evento, que tem apoio também dos Coletivos Transitar e Conversações, Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes-UFPA), Casa de Estudos Germânicos (CEG-UFPA), Casulo Cultural, Milton Kanashiro e Sibila Filmes. “Reforçar o valor da obra de Clarice e seus fios conectivos com outros saberes, filosofia e artes expandidas, o quanto esta escritura nos ensina, convocando uma espécie de alerta para o demasiadamente humano”, diz Remédios Britto, professora do PPGArtes-UFPA.

Clarice continua a mostrar um pouco da cidade e dessas curiosidades. Então, a gente pode pensar nessa relação de viver em vários países, de ter se deslocado no Brasil, Norte, Nordeste e Rio de Janeiro durante a ditadura, participando de vários atos e ações pela anistia, pela liberdade de expressão. Clarice Lispector 'uma vida que se conta' desdobra uma identidade, em personagens, mulheres, homens vividos pela narradora no real imaginário, corpo e comportamento, ofeminino, a fala que rompe tabus em metamorfoses: "Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra quase feia. Sou o quê? Um quase tudo", escreve Lispector.

Clarice não separa os fatos, mas se mistura numa transmutação, dar a ver a repressão dentro de casa, no lar; na rua, expõe a violência, o preconceito, como no caso de Mineirinho, uma crônica em que denuncia a violência policial, ao assassinarem com treze tiros um bandido, quando na realidade um tiro só teria sido suficiente. Clarice tateia os silêncios, a cor, como podemos ver em algumas de suas pinturas, cartas, bilhetes os muitos fragmentos; os estilhaços com uma voz que vai buscar a realidade, revolver o mudo silêncio de Deus, a tempestade.

Num diálogo com Clarice, Cazuza traz a poesia cantada de Água Viva: “Sou inquieta, áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas”.

(Josi Mendes)

Atravessar a escrita, pensamentos e inspirações de Clarice, uma das escritoras brasileiras mais lidas e traduzidas. “Lançou-se, no ano passado, o TagtraumundTrunkenheiteinerjungenFrau, na tradução por LuisRuby, nomeado para o ‘Prêmio da Feira do Livro’, em Leipzig - 2020. A prosa curta de Lispector pode ser descoberta no mundo de língua alemã com este volume contendo histórias, das quais algumas foram traduzidas para alemão pela primeira vez”, diz KatjaHölldampf, coordenadora da Casa de Estudos Germânicos (CEG/UFPA).

O processo epifânico, as muitas línguas em experimentações inomináveis, russa de nascimento sua primeira língua foi o português, a invenção, a criação, as histórias na rua do Recife, a cidade e a exclusão. Clarice Lispector sabia do ocultamento de muitas mulheres, escritora, poetas, pintoras, bruxas, e ecoa o grito de Macabéia nas linhas insubmissas.

O projeto recebeu trabalhos de artistas paraenses, e também de diferentes cidades brasileiras, em vídeos, curtas, animação, poesia, fotografia, colagem, documentários, apresentações de música, performances, teatro, receitas que integram a intervenção, desta vez, feita na Praça da República, em projeções no espaço aberto, para visualização dos passantes.

(Josi Mendes)

Nas correspondências de Clarice, que viveu em Belém na década de 40, ela escreveu para a irmã, Tânia, em 1944, algumas curiosidades sobre a capital das mangueiras. “Aqui descobri uma venda chamada ‘Casa Feio e Forte’, outra ‘O Sol Nasce pra Todos’. Tem uma livraria chamada ‘Nossa Senhora Rainha das Dores’, aqui tinha uma venda chamada ‘Pau de Macaco’. O dono quis mudar o nome. Enquanto não ocorria outro, ele colocou uma placa ‘Antigo Pau de Macaco’. Aqui tem um bocado de urubus, vivem em cima das casas, em vez de pombos e passarinhos’”, inscrições de Clarice, em humor cortante.

Nas fRestas

Provocações sobre o coletivo e sobre o individual, em tempos de pandemia, o Cidade em F(r)estras realiza sua 13ª edição com projeções de arte, em locais em que ainda há grande circulação de pessoas. A ideia surgiu em 2018, pelas artistas Galvanda Galvão, Josi Mendes, Roberta Mártires e YvanaCrizanto e, em 2020, também Monica Lizardo, que provocam outros tantos artistas, coletivos de arte, entidades e interessados no fomento da cultura levando às ruas intervenções abertas e gratuitas. Vizinhos e público que trafegavam na área onde ocorriam os eventos eram convidados a participar. Com o novo contexto de pandemia, os fotovarais, que eram montados em espaços públicos, serão substituídos por novas formas de interação: nas projeções e nas redes sociais do projeto. Desde o ano passado, 2019, o fotovaral do projeto recebia trabalhos, a partir do tema “Mundo Cão”, que foi mantido para a convocatória on-line de trabalhos artísticos e também serão exibidos nesta edição comemorativa.

(Galvanda Galvão)

“O Cidade em F(r)estas, projeto independente, propõe esse deslocar territórios, por isso estamos na praça da República com cuidados e proteção para discutir esse cotidiano pós-vírus, esses vírus que são ancestrais. Atualmente a gente está lidando de frente com o corona, e é preciso pensar um outro modo sobre a cidade”, diz Galvanda. Nas telas montadas na praça, serão projetados trabalhos dos artistas Bia Blare, Conceição Miranda, Danilo Correa, Lais Gabrielle, Rennan Willian, Izabela Leal, Lucia Martins, Lucia Gomes, Karina Martins,Arquivo HokusPokusFokusLab com Rial y Costas-KatjaHoelldampf, Cleber Cajun, Pedrosa Nazareno Barbosa Junior, Suzane Oliveira, Márcio Mariath e Suzane Oliveira, além das artistas que promovem o evento.

(Márcio-Mariath)

“As projeções também trazem trabalhos de artistas convidados na temática da pandemia: Marcela Inajá, Thais Badu, Cincinato Júnior, Danielle Fonseca, Antônio Moura, Miguel Chikaoka, Guto Nunes com uma edição recortada do documentário do mestre Damasceno, Marise Maués, Chico numa “paisagem sonora”. Isso inclui, por um lado, uma reflexão acerca das modalidades de vírus circulantes na nossa sociedade nos tempos atuais, e, por outro, as inúmeras respostas que podem emergir da arte, da rua, da potência criativa de cada um”, afirma a artista Monica Lizardo.

 

As cenas nas ruas já envolveram cerca de duas mil pessoas, mobilizando para um movimento das cidades, seus personagens, suas ruas: trata-se de abrir espaço para uma ocupação de suas praças, becos, ruelas, caminhos. O projeto Cidade em F(r)estas surgiu em 2018 e busca movimentar as ruas com produções de arte, sobretudo locais, redescobrir o contato com a vizinhança, o cotidiano no espaço compartilhado.

O projeto recebe ainda as vozes da Rádio Estamira, com conteúdo especial, com Antônia Melo, que fala de impacto dos grandes projetos na Amazônia, e a invisibilização da sociedade local na região de Altamira.

Serviço:

Cidade em F(r)estas – projeções na Praça da República na frente do Teatro Waldemar Henrique, na Campina. Transmissão on-line a partir das 19h, pelas redes sociais do projeto @cidadeemfrestas no Facebook e Instagram. O projeto recebe obras de artistas inspirados por Clarice Lispector até o dia 30/11 pelo link https://bit.ly/3ldtkkW.

Concepção e produção:

Josi Mendes, YvanaCrizanto, Monica Lizardo e GalvandaGalvão

Galvanda Galvão - Doutoranda em Poéticas Visuais - Cinema Ppgartes/UFPA, videoartista, colagista, fotógrafa, professora e escritora do livro UMLANCEDEDENTES da Edições do Escriba &uxi.cão, 2017 e AMENINAANOLIMOC da editora uxi. Cão, 2013.

Josi Mendes - Bacharel em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda(UFPA) e em Design (Uepa). Pós-graduanda em Produção Audiovisual na Faculdade Estácio do Pará. Atua profissionalmente com comunicação visual, ilustração e diagramação em instituições públicas e projetos culturais há mais de 10 anos no Pará. Compõe a equipe de design do Amazônia Doc - Festival Pan-Amazônico de Cinema desde a primeira edição, em 2009. Desde 2014, é designer gráfica na Assessoria de Comunicação da Universidade do Estado do Pará.

Mônica Lizardo - Mineira, radicada no Pará desde a década de 80, é vinculada ao Projeto de pesquisa da Universidade Federal do Pará,Imagem e Arte, Ética e Sociedade, sob a coordenação de Kátia Mendonça, professora titular do PPGSA/UFPA. Mestre em Ciências Sociais (2011) pela UFPA/PPGSA, tramita pela sociologia, antropologia e artes visuais. Lecionou no curso de Etnodesenvolvimento (2015) UFPA/Altamira. Integrou como pesquisadora o INRC//IPHAN do Carimbó como patrimônio cultural do Pará. Desenvolve trabalho de pesquisa com povos tradicionais quilombolas, indígenas e ribeirinhos, tendo atuado em pesquisas no Marajó e no Médio Xingu – onde escuta e fotografa desde o anode 2013, na região de maior impacto da UHE Belo Monte, acompanhando as transformações na paisagem do rio, e na vida das famílias ribeirinhas do Xingu; sobre a temática apresentou, em Portugal, a exposição Vestigium, no Porto FemmeFest Festival Internacional de Cinema (2018); participou da Coletiva “Sobre sonhos, abismos e fronteiras”, no Centro de Fotografia de Montevideo (URU), com a instalação Feito um parente Morto; participou do FotoRio Resiste (2018), na coletiva Herança e Futuro, no IPN – Instituto de Memória e Pesquisa Pretos Novos, com a imagem Fantasmas de algo que não passou.

Yvana Crizanto - Desenvolve pesquisa em canto e fotografia desde 2015, a partir de vivências no Casulo Cultural, Associação Fotoativa, Grupo de Pesquisa Música e Identidade na Amazônia (UFPa) e escola de música da ufpa (EMUFPA). Realizou o projeto Universo de Si: canto e fotografia no Casulo Cultural (2015-16), Fundação Curro Velho (2018), Sesc Sorocaba - SP (2018). Em 2018 foi contemplada em Artes Cênicas, pela performance vocal Água, pelo Prêmio de Produção e Difusão Artística, da Fundação Cultural do Pará (FCP). Em canto, atuou com os projetos “Inversos canta Cartola”, com Helton Lobão, Maurício Panzera e Douglas Dias (2018), e “Delírio”, com Laíla e Kleber Benigno (2019/2020). Jornalista com atuação em projetos com imprensa e comunidades, há cerca de 20 anos.

Troppo
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