Carta para depois

A convite (com uma certa provocação) da Troppo, o historiador Michel Pinho, um dos seres mais apaixonados pela cidade em que vivemos e pela filha, topou escrever sobre sua relação, como pai, com a capital paraense. Para nossa grata surpresa (e enorme felicidade), Pinho foi além e decidiu transpor para o papel todo o amor que sente por suas filhas: Júlia e Belém do Pará. O resultado é uma belíssima carta, um pequeno relicário de sentimentos e preciosas recordações.

Michel Pinho, Historiador, Mestre em Comunicação, Linguagem e Cultura – especial para a Troppo

“Filha, espero que me perdoe por escrever uma carta para ti e para que todos possam ler. Desejo que possas ter contato com as folhas desta revista, já adulta, guardada com zelo dentro de algum lugar especial.

Justifico essa atitude, pois hoje é meu segundo dia dos pais e já me abraças correndo, me beijando e falando “meu papai”. Ser papai é uma construção sua e minha. E aqui peço, filha, que você acompanhe essas linhas tortas, para onde essa construção tem me levado.

Sua mãe e eu, quando soubemos da sua existência, fomos tomados por uma alegria que não conseguimos explicar. Nosso amor começou (você não vai acreditar!) em uma discussão sobre os limites da primeira légua de Belém. Eu, historiador; ela, urbanista e teimosa, jurava que eu estava errado. Discussão vai, discussão vem, beijos e encontros no Ver-O-Peso para comer peixe frito, deram num casamento lindo – como você já deve ter visto – à beira do rio Guamá. Tua história se emaranha com a história desta cidade.

Quer um exemplo? Seu chá de revelação (quando soubemos que você seria a nossa Júlia) foi na praça da república. Ver nossos amigos e família adorando se confraternizar em lugar público, debaixo das centenárias mangueiras, já preconizava como seria tua criação.

Nasceste em novembro, depois de uma linda lua anunciando tua chegada. Teu pai, nervoso, havia feito uma rota de GPS para não se perder do caminho da maternidade. Quando a bolsa estourou, ainda de madrugada, não lembrei do GPS, do nome das ruas que tanto falo e muito menos de vestir calças. Tua mãe que pediu que me acalmasse e me avisou que de cuecas eu não entraria na maternidade!

(Acervo Pessoal)

Teu parto foi tranquilo e aqui, já não consigo escrever direito por que as lágrimas me correm o rosto. Lembrar do nosso primeiro encontro não dá para traduzir em palavras. Não foram poucos os dias em que adormeci contigo; que olhei para a janela e percebi que aquele céu, cheio de nuvens com o sol laranja bem fraquinho, típico do inverno amazônico, anunciava uma nova vida para mim.

E assim que sua mãe autorizou sua saída de casa pela primeira vez, não tive dúvidas: levei você para a ver o rio. Lá estava o Guamá, enorme, caudaloso, te saudando. Uma menininha tão pequenininha. Talvez neste ponto, as pessoas que estão lendo essa carta, entendam que o nascimento de um filho é também o nascimento de um pai. E ali, estavam nascendo um pai e uma filha que adoram sair pela cidade.

Montei teu carrinho e fomos passear, passeamos muito nele. Muito. Quase pedi para trocarem o nome da praça Batista Campos. Seria “Praça Batista Campos da Júlia” – o que seria uma injustiça, pois também seria [a praça] do Pedro, da Ana, da Helena, da Maitê, do Carlos e de todas as crianças que lá vão todos os dias. 

Nas primeiras vezes, o calçamento te fazia dormir. Depois, você começou a rir quando as pedras faziam seu carro trepidar. Mas quando você desceu e começou a dar os primeiros passos, teu pai, que é um chorão, não sabia se filmava, fotografava ou se limpava as lágrimas. Aqui tem um motivo especial, filha. Sua avó Graça saía lá de Marituba, um município um pouco distante de Belém, e me trazia para cá, para fazer exatamente o que você fez na sua infância! 

(Acervo Pessoal)

E, desconfio, para quem está lendo, que por um motivo que não sei explicar, precisamos, em algum momento, manter essas tradições. Você aprendendo a andar. , também, seu pai aprendendo a andar.

Meu amor, não sei como estão seus hábitos alimentares, agora, no início da vida adulta, mas te asseguro que na sua infância, sua mãe foi muito criteriosa com sua dieta. Isso me impressionava. Mas chegou um dia fatídico na lista de comidas para provar: o açaí. Sim, como já deves saber, teu pai é uma vergonha para a família marajoara dele. Eu não tomo açaí de forma alguma. Tensão em casa: compramos o açaí, arrumamos a cadeirinha de alimentação, carregamos a câmera e… você adorou! Sim, você adorou! Todos riam felizes. Foi quase um batismo de paraense. Ouvi longe os relatos do século XIX que dizem que “chegou ao Pará, parou. Tomou açaí, ficou”.

Foi a deixa para te levarmos ao Ver-O-Peso. Os cheiros, os sons, o gosto da tapioca e o vento da baía devem estar guardados dentro de ti. Porque não é possível atravessar aquelas barracas e não levar dentro do peito nossa cultura e parte da nossa identidade. Certamente, quando estiveres lendo essa missiva, vais poder recordar quantas vezes te expliquei sobre o Solar da Beira, onde teu avô Antônio trabalhou, no século passado, ou explicando que teu bisavô, ‘Seu’ Bira, exerceu um papel importante durante a II Guerra Mundial, quando Belém foi um ponto de apoio do exército americano. Provavelmente, filha, vistes meus olhos brilharem quando te contei isso. Porque os olhos do teu avô também brilharam quando me contou. 

Mas não é só de comida que vivemos. Vivemos de Arte nesta casa. E teu pai, como já deves saber, gosta muito de Arte. Tens muitos padrinhos e madrinhas. São fotógrafos, pintores, artistas visuais e grande parte deles se reúne no Circular, projeto lindo que abre os estabelecimentos do centro histórico de Belém, em um domingo a cada dois meses, para que o Teatro, contação de histórias, galerias, exposições ou passeios turísticos possam acontecer. 

(Acervo Pessoal)

Filha, posso te garantir: você foi um sucesso! E, como pai orgulhoso, via isso. No Porto do Sal, vendo capoeira; na Campina, olhando exposição da Kamara Kó; na Praça da Bandeira, escutando música. 

Você vai completar dois anos, logo. Já falas, corre e cai. Então nossa relação com a cidade mudou um pouco. A visita ao Ver-o-rio tem que ser muito cuidadosa: não desgrudamos das mãos no Portal da amazônia e estamos sempre alertas às bicicletas e carros. Apesar de tudo isso, é sempre um prazer viver o espaço público contigo. Descobrimos que a barraca do Said, na praça Batista Campos, vende ração para os peixes do lago da praça. Aqui, quero te fazer a penúltima confissão, filha. Quando eu te perguntava se você queria ver os peixinhos, era eu que queria ficar lá. Ver você maravilhada, imitando o som deles e jogando ração é muito mais do que sempre sonhei para mim.

Desculpa a carta longa, filha. Os que chegaram até aqui, no final, podem garantir que pai “é assim mesmo”. Preciso só te dizer que quando me fizeram a provocação para escrever como a paternidade e a cidade atravessam a minha vida, só consigo pensar na palavra “Patrimônio”. Pois você, Júlia, é exatamente aquilo que os romanos diziam: “aquilo que se refere ao pai”. Você é meu patrimônio. Feliz dia dos pais para todos e te amo, minha filha. 

Troppo
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