Bem na foto!

Do latim, fotografia é a “escrita com a luz”. Luzes negras são as inspirações desses fotógrafos, artistas do cotidiano, que, por meio desses registros mágicos, conseguem mostrar as belezas, sem abrir mão de contar histórias de luta pela sobrevivência

Lorena Filgueiras

Considero o sotaque dos pernambucanos uma delícia de ouvir. Acho-o musical, sonoro, harmonioso. Por isso, celebrei duplamente o papo com o artista/músico/fotógrafo Ronald Santos, que conheci por meio de seu perfil em uma rede social. Nascido no Recife e com uma história pessoal que vale muito ouvir, não demorou até que fizéssemos contato. Foi o sorriso de um de seus fotografados [e que muito honrosamente estampa a capa desta edição especial], que fisgou minha atenção [e a do rapper Emicida, da cantora Iza e do ator Lázaro Ramos, só para citar alguns]. 

Homem negro (Ronald Santos)

Nascido na capital do frevo, Ronald Santos Cruz, 23 anos, teve sua trajetória artística iniciada ainda criança, quando integrou, há 14 anos, a Orquestra Criança Cidadã. Aos 8 anos começou a estudar violino. “Toquei para o Papa Francisco e para alguns presidentes”, conta, cheio de orgulho. Viajou para exterior como violinista. “Sempre escutei muita música clássica e amo o que faço. Lá pelos 17-18 anos, pintou um questionamento: ‘puxa, mas eu só sei fazer isso’. Quis ir além. Sou jovem, de periferia e não podia me dar ao luxo de ter uma única profissão, porque a Arte tem futuro incerto, aqui, onde eu moro”, explica. A certeza fez-se ainda mais forte quando conquistou uma bolsa para estudar comunicação e, como apaixonado por Rádio que sempre foi [ele conta que escuta rádio por 12 horas/dia], desejou ser “um grande radialista”, de preferência, esportivo. Um dia, ajudou uma amiga a dirigir um clipe e a possibilidade de eternizar imagens, mexeu literalmente, com a cabeça de nosso jovem entrevistado especial. 

Foi no mesmo ano em que entrou na faculdade, em 2016, que ele começou a fazer várias coisas que o fizeram ser quem é, como ele define. “A primeira delas foi fazer uma postagem, com uma menina negra, que segurava um cartaz de protesto ‘não me vejo, não me compro’ e a postagem viralizou de maneira muito errada”, desabafa. Ao mesmo tempo, Ronald tentou emprego em várias agências de casting [modelo] e ouvia, quase sempre, a mesma resposta: “você é bonito e tal, mas, infelizmente não se encaixa nos padrões de beleza que estamos buscando”. Decidiu, a partir daí, montar um projeto, chamado @crespografia [no instagram] de valorização e propagação da beleza dos cabelos crespos/cacheados/black power da região metropolitana do Recife. No primeiro encontro, foram apenas 7 pessoas. “No segundo encontro, foram 60!”. O Crespo Grafia mudou a maneira com que o mundo olhava Ronald. “Em 2016, minha mãe e minha irmã usavam cabelos alisados. Minha mãe me olhou por inteiro por causa do @crespografia e atualmente, as duas usam os cabelos crespos”. O pai também aderiu e passou a incentivar o filho a nunca mais usar os cabelos curtos.

Em 2018, Ronald ganha um concurso fotográfico e a vida virou, literalmente. A foto, de um menino negro, tomando banho, conquistou likes e corações de lugares muito mais longínquos. “Por conta da morte dos meninos Miguel e João Pedro, começaram a indicar perfis negros e fui um dos nomes indicados por várias pessoas em todo o Brasil. Isso foi ótimo e continua sendo, mas [ele frisa] foi preciso que um semelhante meu morresse para que enxergassem e valorizassem artistas negros. Quero ser reconhecido como fotógrafo, que faz retratos negros, mas não quero ser lembrado como ‘fotógrafo negro’”, enfatiza.  

A notoriedade permitiu-lhe dialogar diretamente com ídolos, como o rapper Emicida. “Fui compartilhado pela Maísa [ex-apresentadora do SBT], Iza, Lázaro Ramos. Quero ser reconhecido como um grande fotógrafo! Não quero que a cor da pele me aparte, também não quero ser espelho errado para ninguém. Para esse momento, é essencial que eu seja reconhecido como um fotógrafo que fotografa negros. No futuro, não quero que eu ou irmãos meus carreguem esse rótulo”.

Pergunto se a fotografia já o permitiu realizar algum sonho de consumo e ele cita o Emicida novamente. “São pequenas conquistas da vida adulta. Nessa quarentena, por meio da venda de algumas fotos, consegui comprar uma geladeira para minha mãe. Pode parecer pequeno, mas eu passei um mês olhando a antiga geladeira quase se desfazer. Não teve cartão de crédito. Foi a soma de vários esforços e foi paga à vista e isso significou muito! O sonho mesmo é uma casa própria. Hoje moramos eu, minha mãe e minha irmã. Moramos de aluguel, sou assalariado e, literalmente, metade do que ganho é pra pagar o teto. Minha maior meta de vida é construir um lar pra minha mãe. Meus pais agora são separados, mas eles abriram mão de muitas coisas para que eu pudesse ter educação, estudar violino. Tem um sonho que também preciso realizar que é comprar um notebook pra trabalhar. Você pode citar isso na matéria?”, finaliza.   


Um cosmos chamado Ver-O-Peso

A paraense Naiara Jinknss [ou Nay, como é carinhosamente tratada pelos amigos, conhecidos e admiradores] é fotógrafa, educadora social e, para nosso orgulho, integrou a equipe da Troppo + Mulher por mais de um ano. Com 30 anos de idade e 11 de profissão, Nay é um dos nomes mais celebrados da atualidade. “Inicialmente, comecei a me interessar depois que, por coincidência, dobrando ali no Ver-o-peso, fiz uma foto. Pensei que deveria fazer um curso, porque estava finalizando o terceiro ano do ensino médio e busquei um curso que me desse o máximo de tempo de contato com a Fotografia. Encontrei Artes Visuais e foi um achado!”.

O interesse pela Fotografia começou bem antes, aos 19 anos. “Fui resgatar nas memórias que todas as câmeras fotográficas que ganhei me foram dadas por minha avó. Lembro que ela me deu uma Yashica pequena e minha mãe sempre reclamava que os filmes voltavam cheios de fotos dos meus amigos do colégio e nenhuma minha! Vem desde aí, embora nunca tenha sido incentivada e valorizada”, diz.

Ela conta que demorou algum tempo para perceber que fotografava mais negros. “Eu fui perceber que documentava mais negros muito depois, até porque eu não enxergava como uma pessoa negra, porque eu vim de um lugar em que eu era ‘morena’. Sabia que não era branca e nunca me colocaram como negra. Quando me formo em Artes Visuais, vou para o Rio de Janeiro fazer uma especialização e lá me disseram que eu era negra. Várias questões começaram a me atravessar. Participei de várias rodas de conversas, com mulheres e tudo isso me fez entender a necessidade de nós, paraenses, nos identificarmos com o fenótipo negro mesmo que tenhamos ancestralidade indígena, quilombola. Ouvir o outro lado foi muito importante, mas o lugar da escuta é muito prazeroso e necessário de estar. Precisamos fugir do olhar embranquecido de narrar as histórias, que a nossa sociedade tem. Há muitas maneiras de conta-las e caímos no vício de documentar as pessoas de uma só maneira, estereotipando. O Ver-O-Peso, por exemplo, é estereotipado como um lugar de vícios, perigoso. Mas... quem constrói aquele espaço? Quem documenta? De que maneira? A necessidade de documentar corpos negros vem da necessidade de me enxergar na fotografia e de me enxergar com carinho! Porque as pessoas estão acostumadas a consumir uma fotografia, quando chegam a Belém, querendo fotografar o exótico... querendo mostrar o visceral, reduzindo o espaço à violência. Há coisas e pessoas muito dignas no Ver-O-Peso. Descobrir que é negro, não é fácil. Precisamos consumir mais corpos negros, escritores”, conta, entre risos. “Meu Deus, Lorena, eu falo demais!”.

Nay conquistou o primeiro lugar de um reality de fotografia e já estava longe de Belém quando a pandemia iniciou. Não pensou duas vezes em voltar para Belém e ficar ao lado dos pais. “Eu precisava ter com eles, as experiências que não tive com minha avó. Precisava olhá-los com mais carinho e documentá-los também”. Ela também conta que perdeu pessoas muito amadas, que precisou se olhar com amor. Sobreviveu vendendo suas imagens decorativas. “Não vendo fotos de pessoas, porque elas não se beneficiam, então ficam só para mim. Vendo as decorativas”.

Há que se ter responsabilidade
“Não se pode reduzir um povo que é reduzido. Não se pode se apropriar das imagens sem dar dignidade às pessoas. Não é porque as pessoas estão em alta vulnerabilidade social, que vamos fotografá-las dessa maneira. Até porque imagem é óbvia – para além disso: não é porque a vida é violenta, que você será violento com as imagens. Você faria isso com sua avó? Com pessoas que amas? Na Amazônia urbana negra? Todo mundo quer ficar bem na foto”, finaliza.  


Para conhecer mais:
@crespografia
@oronaldphotos
@lindinaldofilho
@nayjinknss
@mamanacoletiv

Troppo
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