Banho de cheiro é tradição e deixa 'a alma lavada'

É um banho, um perfume, uma simpatia? É um extrato da cultura paraense, que transborda os alguidares, ativa nossas memórias e reflete a crença popular. Para perfumar o corpo e elevar o espírito

Rodrigo Cabral

Banho de Cheiro também é literatura e perfumou as linhas escritas pela paraense Eneida de Moraes, na década de 1960. Em sua crônica, que leva o mesmo nome da poderosa efusão de ervas amazônicas, ela registrou toda a simplicidade e a magia do modo de produzir: “Tomai de uma lata de banha bem limpa. Dentro dela, com bastante água jogai folhas, raízes, madeiras cheirosas da Amazônia que, raladas, esmagadas – verdes pela juventude ou amareladas pela velhice – darão, depois de fervidas, um líquido esverdeado, com estranho perfume de mata virgem (...). Deixai ferver e ferver muito. Depois – ah depois – deixai esfriar e está pronto o vosso banho de São João, que deve ser tomado à meia-noite de 23 de junho para abrir as portas de todas as aventuras. São João ajudará”.

Mais do que trazer uma receita, esses trechos da crônica de Eneida de Moraes, revelam que preparar o banho de cheiro é uma experiência que se completa com a vivência das pessoas. A fotógrafa Walda Marques conta que mantém esse costume há muitos anos, um hábito que herdou de sua mãe. Ela acredita tanto no poder de atração de boas energias, que, além da noite de São João, também faz o banho de cheiro na virada do ano e no seu aniversário. “Acredito que tudo que vem da natureza é bem-vindo. O pensamento na hora que você está fazendo o banho é tão legal, que traz felicidade, sim! Eu uso várias ervas, todas as possíveis. Geralmente, deixo uma noite (em efusão) e, pela manhã, ponho de frente para o nascer do sol”, descreve.

Para ativar ainda mais o poder de atração do banho de cheiro, Walda costuma, antes, tomar um banho de descarrego. “Faço uma limpeza com amoníaco diluído em muita água, limão galego e sabão de cacau. Depois disso, rezo e tomo o banho de cheiro”. 

Se, para muitos, o banho de São João atrai felicidade, para dona Adalgisa Chaves Dias, 82 anos, a alegria já começa no momento da preparação. Há mais de três décadas, ela realiza uma grande festa junina em sua casa, no bairro Campina, com direito a muito banho de cheiro para os convidados. “O nosso arraial é bastante esperado pelos parentes e amigos, é muito divertido e eu adoro preparar tudo. Tem comidas típicas, quadrilha, e muita animação. Logo na entrada, eu deixo os alguidares com o banho de ervas para quem chegar já molhar a cabeça e abrir os caminhos para a felicidade”, afirma Adalgisa.

Uma imersão na cultura paraense
Ir ao mercado do Ver-o-Peso comprar os itens para a preparação do banho, por si só, já é uma experiência única. Passear pelos corredores das barracas das erveiras, é contagiar-se com aquela variedade de cheiros, texturas e com os sorrisos largos das vendedoras de ervas, que têm sempre a indicação certa para cada desejo. Caso alguém pergunte se você conhece a senhora Clotilde de Souza, provavelmente a resposta será negativa. Mas, com certeza, já deve ter ouvido falar na dona Coló, como ela é conhecida na feira. Dos seus 64 anos, 34 foram dedicados ao setor de ervas do Ver-o-Peso. Com toda essa experiência, dona Coló garante: “muita gente volta aqui comigo pra contar que o banho deu certo. A pessoa tem que fazer seu pedido para São João, pedir sorte, saúde, felicidade, prosperidade e tomar o banho com fé”, orienta.

Quem não tem tempo para investir nas horas de preparação, não tem mais desculpa. “Eu também vendo o kit do banho de cheiro prontinho, já na garrafa, no ponto para o freguês fazer seu pedido e se banhar”, dispara. Cada kit custa R$ 20,00. A erveira explica que o preparo utiliza diversas folhas, óleos essenciais, raízes, cipós e cascas de plantas, entre elas: manjericão, priprioca, estoraque, fava de São João, patchouli, japana branca, curimbó, catinga de mulata, vergamota, pataqueira, abre caminho, vindicá e capitiú (nomes populares).

Eu fiz uma fogueirinha
Outra tradição junina que algumas pessoas ainda buscam manter acesa, em Belém, é o hábito de fazer fogueiras na noite de São João. O aposentado Lúcio de Jesus Correa, hoje, tem 92 anos de idade. Há mais de 50, reacende esse costume anualmente, no bairro da Sacramenta. Saudoso, ele lembra que, antigamente, as fogueiras eram muito maiores. “Não tinham tantos fios elétricos quanto têm hoje, a gente podia fazer fogueiras grandes em áreas mais abertas, para não ter risco para as pessoas. Era uma brincadeira saudável, a gente até competia pra ver quem fazia a maior”, recorda.

Com o passar dos anos, o tamanho da fogueira foi diminuindo, mas não a vontade de iluminar a prática junina de uma forma especial. Com a chegada do asfalto na região, a solução foi improvisar uma placa de metal para servir de base para fogo e não prejudicar a via. Antes, seu Lúcio preparava a fogueira para, também, alegrar seus filhos. Hoje, com seus movimentos comprometidos pela idade, ele conta com a ajuda de um deles, Antônio Carlos, de 52 anos, para acender a fogueira de São João. E, assim, a chama da tradição da família vai se mantendo.

Troppo
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