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As mulheres e o HIV

Dezembro chega com um lembrete atemporal: todo dia é momento de cuidar de si e de se proteger do HIV, vírus cuja incidência tem aumentado, expressivamente, entre mulheres – especialmente, gestantes

Thamyris Assunção

O dia 12 de junho de 2018 ficou marcado eternamente na história de Roberta*. Não por ela ter recebido presentes românticos ou declarações apaixonadas. O dia que poderia ter sido o mais devastador da vida da operadora de caixa de 36 anos a fez perceber, não sem dores e sofrimentos que, naquele momento, um novo tipo de sentimento surgia: o amor próprio, a força para lutar por si mesma. Após se sentir muito doente e inúmeras idas e vindas em consultas nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), diferentes médicos, além de vários exames por conta de um mal estar contínuo de causas até então desconhecidas, foi em 12 de junho de 2018 que Roberta recebeu o diagnóstico que mudaria para sempre a sua forma de viver: era soropositiva, portadora do vírus HIV.

Tratado ainda como tabu por boa parte dos brasileiros, o vírus HIV, que leva à da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), doença sexualmente transmissível, que se caracteriza pelo enfraquecimento do sistema imunológico e uma maior vulnerabilidade ao aparecimento de doenças oportunistas (que vão de resfriados até infecções mais graves como tuberculose e câncer), surgiu no Brasil em meados dos anos 80 com altas taxas de infecção. Mesmo depois de mais de 40 anos, segue presente na jornada de Roberta e de inúmeras outras mulheres, de todas as idades.

Mulheres heterossexuais já representam grande parcela da população que convive com o vírus atualmente, em todo o mundo. De acordo com a UNAIDS, programa das Nações Unidas voltado ao combate à Aids, em 2019, 48% das novas infecções ocorreram em mulheres. E existe um perfil delimitado: em 2019, mulheres na faixa de 25 a 39 anos contraíram HIV e, pela Aids, ou seja, a manifestação concreta da doença ocasionada pelo vírus, foram detectados casos em mulheres com idades entre 35 e 39 anos.

No Brasil e, mais espeficamente, na região Norte, embora o número de infecções ainda seja mais alto entre homens – 26 homens para cada 10 mulheres infectadas -, foram notificados, de 2007 a junho de 2020, 104.824 casos em mulheres, o que corresponde a 30,6% do total, segundo dados recentes do Boletim Epidemiológico de HIV/Aids do Ministério da Saúde.

No Pará, só no ano passado, de acordo com informações da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), foram registrados 2.970 casos de HIV/Aids, sendo destes: 769 notificados como Aids e 2.301, como HIV. Do total de confirmações de Aids, 227 notificações corresponderam ao sexo feminino. Em cerca de 90% dos casos novos, ainda conforme o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, de modo geral, a transmissão do vírus se deu por meio de relações sexuais praticadas sem proteção. Esta ainda é a principal forma de contaminação no país.

Os dados também chamam a atenção em mulheres grávidas. No mundo inteiro, o número de gestantes vivendo com HIV foi de 1,3 milhão, apenas em 2019, de acordo com informações do relatório World AIDS 2020, publicado pela UNICEF em novembro. No Estado do Pará, só na última década (2010-2020), foram notificados aproximandamente 2.700 casos de grávidas portadoras de HIV, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Destes casos, 43% estão localizados na região metropolitana da capital, que compreende, além de Belém, os municípios de Ananindeua, Marituba, Benevides e Santa Bárbara.

Entre 2019 e 2020, a faixa etária de 20 a 34 anos é a que apresenta o maior número de gestantes infectadas no Pará, correspondendo a quase 67% do total, de acordo com a Sespa.

Em geral, a descoberta do diagnóstico em grávidas se dá nos exames pré-natais onde, uma vez apresentado o resultado positivo, a mulher pode iniciar imediatamente o tratamento pelo SUS para garantir um acompanhamento saudável e evitar a chamada transmissão vertical (de mãe para filho), durante toda a gestação, o parto e o pós-parto. “Quando se detecta o vírus nos primeiros momentos da gestação, nas primeiras consultas do pré-natal, você consegue fazer uma prevenção da transmissão da infecção de mãe para filho de maneira mais eficaz. Quando esse processo é feito de maneira adequada, como vários estudos demonstram, se consegue reduzir a transmissão para taxas próximas a zero. Para que isso ocorra, é necessário que se faça um pré-natal bem estruturado, bem realizado, com incentivos para que a mulher siga com as testagens em todas as etapas da gestação”, afirma o infectologista Lourival Marso.

Lourival Marso (Acervo Pessoal)

Ainda que os números chamem a atenção e que os registros apontem crescimento nos índices de contaminação pelo vírus na região Norte, existe uma tendência de queda nos casos de HIV/Aids no resto do país. E isso se dá por uma ação efetiva onde, nas demais regiões do Brasil, há um aumento nas testagens e na adesão ao tratamento. Para o infectologista Lourival Marso, entretanto, os esforços nas campanhas de prevenção com ações de planejamento familiar, educação sexual e a manutenção de um protocolo de tratamento precoce, completo, acessível e gratuito com testagens e distribuição de medicamentos via SUS, precisam estar cada vez mais próximos das mulheres e das demais populações em maior situação de vulnerabilidade à doença, como as profissionais do sexo. “Mesmo existindo unidades específicas para testagens e distribuição de preservativos em Belém e no Estado do Pará, é necessário fazer com esses insumos de prevenção estejam o mais perto, o mais próximo possível dessas mulheres, dessas populações.”, diz o médico.

O Brasil é tido hoje como um dos países de referência em prevenção e atendimento aos pacientes com HIV/Aids. Mesmo no período de pandemia, governos municipais e estaduais seguiram agindo em conjunto para garantir o amparo aos que mais precisavam. Para o também infectologista Paulo Henrique Farias, mesmo com as dificuldades que o momento impôs e a redução na procura por testagens e atendimentos, no Pará a assistência foi mantida. “No período mais crítico da pandemia, foi emitida uma nota técnica do Ministério da Saúde que permitia a liberação das medicações aos pacientes regularmente cadastrados e com acompanhamento da doença em dia sem a necessidade das prescrições corriqueiras, justamente para evitar aglomerações e sem que fosse preciso que esse paciente precisasse ir várias vezes, todos os meses, nas unidades de saúde. Não houve falta de medicação. Na verdade, algumas mudanças ocorreram no atendimento multidisciplinar, onde equipes de profissionais precisaram entrar em esquema de rodízio. De modo geral, os pacientes sempre tiveram acesso às medicações”, afirmou.

Paulo Henrique Farias (Acervo Pessoal)

Roberta, que iniciou os cuidados em 2018, reconhece que teve condições de conseguir continuar com o tratamento mesmo em um momento tão complicado, mas admite que muitos outros pacientes que conhece não tiveram a mesma oportunidade. “Graças a Deus, o remédio não me faltou. Faço meu tratamento direito, faço os check-ups. Tenho condições e tenho acesso. Mas como faço parte de uma ONG, eu vejo muitos relatos de pessoas que não tinham a medicação, por exemplo. Tem gente que não tem esse acesso fácil, não tem como ir nos locais, ficou sem renda, mora longe. Eu vi muito disso.”, conta.

Saúde em dia, Vida Normal

Mesmo abalada após receber o diagnóstico positivo, Roberta não desistiu de se cuidar e de levar uma vida normal, mais saudável e consciente. Buscou ajuda e recebeu orientações e medicamentos, de maneira gratuita, pelo sistema público de saúde. Fez novos exames, iniciou o tratamento imediatamente – o chamado PEP – Profilaxia pós-exposição – e segue a rotina de consultas e acompanhamento multidisciplinar com médicos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e psicólogos. Após 2 anos de convívio diário com o HIV, Roberta, que é mãe de um adolescente, conta que buscou na informação um modo de compreender a nova condição e, principalmente, de se aceitar. “Antes, eu não sabia nada. Quando eu aceitei a doença, passei a conhecer melhor. Eu procurava ler, me informar. Eu oriento meu filho, converso com ele sobre o uso da camisinha. E hoje o que eu posso dizer para todo mundo é: procure, se informe, faça o teste. Quanto antes descobrir a doença, mais chances você tem.”, diz.

Combate aos estigmas e preconceitos

Mas nem sempre foi simples lidar com os impactos da doença. O preconceito, o medo da rejeição e até mesmo da morte, logo no momento da descoberta do diagnóstico, deixaram Roberta insegura sobre o futuro. “Foi um choque. Não conseguia chorar. Fiquei muito abalada. Logo que soube, comecei a me questionar: “Como? Quando? Quem?” Só pensava que não ia conseguir mais fazer nada. O medo foi horrível, assustador.”, comenta.

O preconceito e os estigmas são alguns dos principais obstáculos à prevenção e ao tratamento correto do HIV/Aids. Sentimentos, crenças e pensamentos negativos, desconhecimento sobre a doença e suas particularidades e tratamento injusto e desigual dado aos portadores do vírus ainda são comuns. Segundo o Índice de Estigma, estudo inédito realizado em 2019 pela UNAIDS, no Brasil o assédio moral, a exclusão social, a agressão física e a perda do emprego são algumas das consequências do preconceito que soropositivos enfrentam diariamente, dentro e fora do ambiente familiar. Para muitas pessoas, portar o HIV é possuir uma sentença de incapacidade para o resto da vida. Graças ao avanço da ciência e da tecnologia nos tratamentos antirretrovirais, hoje se sabe que a realidade é bem diferente.

O apoio da família, dos amigos, o acolhimento do sistema de saúde e, principalmente, a informação foram maneiras encontradas por Roberta para que os preconceitos fossem quebrados e um novo olhar sobre a vida surgisse. “Por várias vezes já me peguei falando que o HIV entrou na minha vida para melhorar. Eu também dizia que ‘não, comigo isso nunca vai acontecer!’. Hoje, não consigo me imaginar de outra forma. É uma situação que você, aos poucos, vai absorvendo. Tomo meus remédios sem pensar na doença. Conheci pessoas maravilhosas e aprendo com elas. Aprendi a viver mais do lado das pessoas, sabe? Eu me cuido muito mais. Sei quando algo não está bem, me conheço mais. Antes de ter a doença, não ‘enxergava’ nada. Hoje, vivo bem.”, afirma.

Informação, prevenção e solidariedade: as armas na luta contra a Aids

O mês de dezembro é mundialmente marcado por ações de combate à Aids. Nesse período, muitas iniciativas são organizadas para informar, conscientizar e proteger a população, além de sensibilizar para as dificuldades enfrentadas por quem já convive há anos com a doença.

Foi esse processo de sensibilização que fez a solidariedade também aflorar e transformar a trajetória de Roberta. Trabalhar voluntariamente em uma ONG que ajuda outros portadores do HIV trouxe novas perspectivas e novas amizades. Perspectivas e esperança partilhadas também por Daivison Porteglio, voluntário que dedica boa parte do seu tempo a ajudar pacientes e familiares a ter uma vida mais digna por meio da ONG Comitê Arte pela Vida.

Daivison Porteglio (Acervo Pessoal)

A entidade, formada por artistas, jornalistas e profissionais liberais atua há 24 anos em prol das pessoas que convivem com HIV/Aids no Estado e atende, por mês, cerca de 600 famílias. Por meio de doações e outras iniciativas como a venda de itens em uma loja sustentável, a ONG arrecada dinheiro para a compra e doação de cestas básicas, produtos de higiene, medicamentos e cadeiras de rodas. Com a pandemia, desde o mês de abril, a demanda por doações cresceu e a necessidade pela arrecadação de alimentos aumentou muito. Para suprir o que precisa, a entidade começou uma campanha natalina. “Hoje, a grande necessidade, eu sempre digo, é o alimento, a fome. Precisamos muito de cestas básicas. Entramos agora em campanha de Natal, que vai até o dia 21 de dezembro. Qualquer pessoa pode entrar em contato conosco e doar. As cestas podem ser entregues aqui na sede da ONG ou nós iremos buscar. Eu acredito que a solidariedade é o sentimento que melhor expressa nesse momento o respeito pela dignidade humana”, comenta Daivison.

Ainda sem cura efetiva, a mensagem do mês de luta contra a Aids para todos é clara: a única arma efetiva contra o contágio do vírus e a propagação da doença ainda é a prevenção. “Dada a importância dessa doença, precisamos lembrar que o combate ao HIV deve ser em todos meses. Que o dia de combate ao HIV é todo dia. Que nós conversemos com os nossos jovens de 13, 14, 16 e até de 20 anos, que não viveram o início da epidemia de Aids e não enxergam a doença com o nível de gravidade que ela de fato tem. Precisamos falar com nossos filhos, nossos jovens, sobre a importância da prevenção, da prática do sexo seguro, da importância da responsabilidade com o número de parceiros, da importância do uso do preservativo independente do tipo de relação. Todos nós temos um histórico e HIV não está ‘escrito’ em ninguém. Para as mulheres, é fundamental lembrar da importância do pré-natal. É necessário que elas tenham a oportunidade de fazer a prevenção para trazer ao mundo seus filhos de maneira saudável.”, recomenda.

Para conhecer mais e ajudar:

ONG Comitê Arte pela Vida:

Facebook: www.facebook.com/comiteartepelavida

Instagram: @comiteartepelavida

Contatos: 98280-2188 / 98250-6161 (WhatsApp)

UNAIDS:

www.unaids.org

UNICEF – Children and Aids

http://www.childrenandaids.org

Ministério da Saúde (Página informativa sobre HIV/Aids):

www.aids.gov.br

Palavras-chave

Troppo
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