Arte e afeto

Alexandre Sequeira – convidado especial

Ao mesmo passo em que a pandemia da Covid-19 manteve a maioria da população confinada em casa, a impossibilidade do contato social despertou uma onda de solidariedade que varreu o globo, permitindo reafirmar (ou ressignificar) a importância da Arte para a vida. 

Para além do sentimento de perplexidade que se abate sobre a humanidade, enquanto acompanhamos o Covid-19 avançar pelo planeta, ignorando fronteiras geopolíticas e diferenças econômicas e sociais, nos vimos tomados por uma série de inquietações. O isolamento social, como forma de conter o avanço do vírus, nos faz refletir a respeito de questões fundamentais de nossa existência. Refiro-me, por exemplo, ao reconhecimento de nossa fragilidade, diante da perda do sentido de proteção e o quanto dependemos do outro para sobreviver. Embora cético quanto às escolhas que a humanidade possa vir a tomar no futuro, vejo essa tomada de consciência como um indutor de mudanças de comportamento que já acontecem e, quiçá, podem perdurar após esses dias difíceis. 

Tão logo a pandemia mostrou sua face mais sombria nas cidades do Norte da Itália, passamos a assistir gestos espontâneos de pessoas que, tendo por fundamento o desamparo, instauravam microcircuitos de afeto, à medida em que, a partir do pátio de seus apartamentos entoavam cantos, tocavam instrumentos musicais ou recitavam poesias. Atitudes movidas não por vaidades pessoais, mas pelo desejo de irmanar-se ao outro. Gestos de partilha de valores tão íntimos que, impulsionados pela internet, passaram a se replicar pelo planeta de forma até mais veloz que o próprio vírus. Incorporamos, desde então, ao nosso viver uma dinâmica que, pela suspensão de certezas (e justamente por essa condição) passa a promover uma reordenação de nossas frágeis garantias, ao reivindicar verdades que agora dependem do que há de mais humano em nós como argumento de sustentação: nossas impressões sensíveis. Algo que aponta para a importância da Arte enquanto espaço onde todos, independentemente de sermos ou não artistas, de sermos ou não estudiosos do assunto, podemos exercitar a construção de um sentido profundo que diz respeito à qualidade de nossa presença no mundo.

Raiar do dia no porto da cidade de Hoi-An. Província de Quang-Nan. Vietnã (Acervo Pessoal)

É a partir dessa perspectiva que tenho procurado pautar minha rotina cotidiana: dando a devida atenção para o que me alimenta – não apenas ao corpo, mas também à mente e à alma. Alterno meus compromissos profissionais e minhas atividades domésticas com momentos de leitura, como também na fruição de conteúdos de natureza artística que se oferecem no mundo virtual de forma gratuita e diversa: por meio de informação que nos é disponibilizada, numa zona que relativiza distâncias e onde forças disponíveis se movem num fluxo que tanto nos carrega de energia, quanto dissolve planos pré-estabelecidos. Não é difícil nos darmos conta do quanto a experiência estética é uma necessidade humana, profunda, natural e também transformadora, na medida em que nos ajuda a reconhecer os males da vida e da sociedade simplesmente por sua representação e tal consciência crítica é um passo necessário e essencial à melhoria ética e social do coletivo. 

Nosso vínculo com a experiência estética e seu incontestável poder se revela nas mais variadas formas e contextos, até nos aparentemente despretensiosos, como quando, por exemplo, nos dispomos a folhear um simples álbum de fotografias de viagem. Nesses dias de isolamento, me dediquei a resgatar alguns registros fotográficos de lugares que visitei e, diante da satisfação em revisitar esses espaços de afeto, os reuni em uma série que intitulei “Lugares encantados da memória são reserva de paz interior”. Decidi partilhar esse conteúdo com parceiros de uma rede de relacionamento virtual por considerar que, apesar de concernente a uma vivência pessoal, em sua condição de cartografia emocional, de um encontro harmonioso com o mundo, poderia se converter em experiência coletiva, na medida em que aponta para um sentimento de pertencimento que todos temos com o planeta que vivemos. E assim, como num passe de mágica, a partilha das imagens se fez movimento emancipador ao suscitar uma série de instigantes reflexões. Questões como, por exemplo, os recentes sinais de recuperação do planeta em função do recesso de nossos maus-tratos cotidianos e a possibilidade de se tomar esse sinal como motivo para uma mudança de conduta. E assim o movimento de microcircuitos gerados a partir de uma socialização da experiência estética segue seu curso em incontáveis e improváveis gestos, até mesmo nos considerados banais.

Vila de Lapinha da Serra. Serra do Cipó. Minas Gerais (Acervo Pessoal)

Sabemos dos desafios que esses dias nos reservam, considerando a inevitável parcela de perdas (algumas irreparáveis, como vidas) que, desde já, muitos experimentam. Frente a isso, há que se considerar a força desse impulso libertador da humanidade de cerzir, por múltiplas palavras, uma narrativa que desata os nós da dor e retoma o curso da vida por uma fidelidade transformadora do presente. Celebro, pois toda forma de troca de enunciados poéticos na medida em que revelam, para além dos parcos limites de nossa “bolha protetora”, uma porta que se abre para um incomensurável campo de interpretações dessa incrível aventura que é viver. Possibilidade de encontros e trocas que, a despeito da força negativa que insiste em nos emudecer, se afirma enquanto gesto redentor, na medida em que se oferece como possibilidade de atribuir algum sentido a tudo o que ficou para trás, como também a tudo o que ainda estava por vir. 

Alexandre Sequeira é Doutor em Arte pela UFMG e professor da Faculdade de Artes Visuais da UFPa.
Para conhecer mais:
@arsequeira

Troppo
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