Aos mestres, com carinho

Rodrigo Cabral

Se você está lendo esta matéria, com certeza, um ou mais deles tiverem papel especial na sua vida. Da alfabetização à paixão pela leitura, o fascínio por cálculos ou pela História, o pensamento crítico e o desejo de contribuir com inovações.... muitos professores compartilham ensinamentos que levamos da sala de aula para a vida. Antes de seguir adiante neste texto, um desafio: pense em um educador que foi importante para a sua trajetória e, se puder, celebre com ele o fato de que, na próxima terça-feira (15 de outubro) é o Dia do Professor. Uma simples mensagem nas redes sociais pode fazer a diferença para quem venceu algumas dificuldades para contribuir um pouco com o que você é hoje.

A Revista Troppo + Mulher foi atrás de alguns desses profissionais inspiradores para mostrar que, mesmo ainda distantes do nível ideal de educação no país, há pessoas fazendo – e muito bem – a sua parte para que esse poderoso substrato seja a base para surpreendentes mudanças sociais. Literalmente, embarcamos com o professor Elisson Coutinho Ferreira, 44 anos, natural de Abaetetuba (PA). Graduado em Pedagogia, com especialização em docência da Matemática para as séries Iniciais do Ensino Fundamental, há sete anos ele trabalha com a educação ribeirinha, leciona na “Escola Municipal de Educação no Campo Milton Monte”, que fica na costa da ilha do Combu. “Sempre gostei muito de ensinar e adoro trabalhar com crianças e adolescentes.

Elisson Coutinho Ferreira (Naiara Jinknss)

Nós, que atuamos nas ilhas (de Belém), acordamos muito cedo, pois precisamos estar no porto antes das 6h30, horário de saída do barco, que vai buscando os alunos no trajeto até chegar à escola, por volta das 7h. As aulas começam às 7h15 e o último turno termina às 16h30, para que consigamos estar de volta à cidade às 17h30. As questões dos horários e do deslocamento, em si, trazem algumas dificuldades, mas é um prazer também, pois nos proporcionam um contato com a natureza. Aqui, não temos o trânsito caótico. Por outro lado, temos baixo sinal das redes de telefonia celular, o que nos deixa com pouco acesso às tecnologias de comunicação, que poderiam nos ajudar em atividades com os alunos. Mesmo diante disso, há crianças que têm um nível de aprendizado excelente, o que nos dá grande satisfação em seguir em frente para conquistas conjuntas”, detalha Elisson.

A despeito do que ele próprio salienta sobre o pouco reconhecimento da profissão – especialmente considerando que todas as outras formações dependem do professor – o educador destaca que não é apenas o salário que o faz sair de casa todos os dias. “Poder contar com o compromisso dos gestores, dos demais professores e do corpo técnico para aumentar o índice da educação básica é muito estimulante. Ainda mais, quando encontramos uma comunidade escolar engajada. Chegar à escola e receber o respeito dos alunos é maravilhoso. A educação ribeirinha é um desafio, mas é muito empolgante para qualquer profissional observar o sentimento de pertencimento daquelas pessoas, uma coletividade que se respeita, que sorri. Contribuir para que aqueles alunos, que possuem uma série de restrições, possam alcançar realizações em sua vida pessoal e social é algo excepcional”, afirma.

Lute como uma educadora
Com certeza você vai se lembrar dessa história que, como dizemos na linguagem informal, “quebrou a internet” e chamou a atenção do país inteiro, no ano passado. A professora Lília Melo, 42 anos, fez uma campanha em suas redes sociais para levar 200 alunos da periferia de Belém para assistir ao filme “Pantera Negra”, no cinema. Ela tinha a convicção de que a obra trazia importante representatividade para aquelas crianças e geraria uma autorreflexão e contribuição para autoconhecimento delas. E não errou. Os internautas atribuíram nota máxima à iniciativa; o post foi compartilhado centenas de vezes e começou a se formar uma rede de pessoas querendo ajudar. Dois cinemas situados em shoppings de Belém decidiram colaborar, cederam os ingressos e combos de refrigerante com pipoca. Ao invés de 200, Lília conseguiu levar 400 alunos para a sessão especial. O transporte foi pago com o dinheiro arrecadado na campanha.

Lília Melo (Naiara Jinknss)

Mas não pense que essa história começou ou terminou aí. Lília é professora de Língua Portuguesa e Redação há mais de 20 anos. Há 12, trabalha na escola Brigadeiro Fontenelle, no bairro da Terra Firme. “No ano de 2014, com a chacina que houve no bairro, vi de perto o resultado da violência, 11 pessoas foram mortas, entre elas um aluno meu, de 14 anos, cuja mãe também era minha aluna, no turno da noite, da EJA (Educação de Jovens e Adultos). Aquilo me chocou muito e fiquei pensando em como poderia contribuir para mudar aquela realidade. Comecei a estudar e encontrei outras experiências de comunidades que conseguiram superar situações parecidas através da arte, em São Paulo, Rio de Janeiro e na Bahia. Então, iniciei um mapeamento de iniciativas culturais já existentes no bairro e nas adjacências para buscar uma forma de conectar esses esforços com o ambiente escolar. A Terra Firme possui um histórico de resistência forte”, conta.

Assim nasceu o projeto "Juventude Negra Periférica - Do Extermínio ao Protagonismo", que passou a gerar um novo ciclo produtivo e positivo para essas crianças e jovens, envolvendo poesia, artes cênicas, manifestações da cultura popular, cinema e, principalmente, diálogo aberto sobre diversas questões que impactam no dia a dia desse público-alvo e na sua visão de futuro. Tudo isso rendeu à professora Lília Melo, destaque no prêmio “Professores do Brasil”, realizado pelo Ministério da Educação (MEC), em 2018. Ela foi reconhecida nacionalmente com o título de melhor educadora de ensino médio do país. “Eu fui receber o prêmio em Brasília, voltei com R$ 7 mil reais e destinei o valor integralmente para o projeto. Com isso, compramos câmeras e outros equipamentos para que os próprios alunos pudessem avançar em sua produção audiovisual”, relata – produção que já havia começado e dado resultados animadores. Depois de assistir ao filme “Pantera Negra”, as crianças e adolescentes que integram o projeto participaram de diversas rodas de conversas em instituições como a Universidade Federal do Pará, o Museu Emílio Goeldi, veículos de imprensa e tudo foi registrado em imagens de celular. Com elas, os alunos produziram o documentário "É nós por nós", que foi premiado no festival “Osga”, realizado pela Universidade da Amazônia. “Depois de se encantaram com o ‘Pantera Negra’, os alunos voltaram ao cinema para assistir o documentário que eles mesmos produziram. Isso é maravilhoso e deu forças para eles seguirem com outras produções que representam a realidade da periferia. É necessário que se tenha o entendimento de que educação e cultura são duas faces da mesma moeda e, quando trabalhadas em conjunto, alcançam um potencial transformador incrível”, destaca.

Os futuros professores e o conhecimento que se renova
Isabella Caroline Silva da Silva tem 18 anos e está cursando o segundo semestre do curso de Letras (habilitação em Língua Portuguesa), na Universidade Federal do Pará (UFPA). Fascinada pelos estudos, desde cedo, já sabia que queria seguir os caminhos da educação. “Tive a certeza de que iria optar pela licenciatura no último ano do Ensino Médio (2018). Mas, desde o Fundamental, já sonhava em ser professora. Eu sempre gostei de falar muito (risos) e de escrever, então, fazer algo que eu pudesse encaixar esses dois fatores já era algo significativo, porém não o suficiente. Eu amo ensinar e aprender. Dentro da sala de aula, tive ótimas oportunidades para observar o quão lindo é o poder do conhecimento. Quanto mais eu aprendia, mais queria ensinar; quanto mais eu estudava e coisas novas descobria, mais queria contar pra todo mundo. E, por conta de me sentir tão bem fazendo aquilo, ensinando, nunca mais pensei em fazer outra coisa”, revela a jovem.

Isabella Caroline Silva da Silva (Naiara Jinknss)

Além dos seus professores, Isabella também teve bons exemplos dentro de casa. “Minha tia Jaqueline e sua filha Gabriela foram de fundamental importância pra minha inspiração. Por dificuldades financeiras, a tia Jaqueline começou a estudar tarde (com 10 anos de idade) e sofreu com isso no colégio. Mas nada a impediu de chegar ao Doutorado. Ela sempre me incentivou a fazer o curso de Letras, devido a minha aptidão com a área de linguagem e pelo trabalho lindo que ela faz com comunidades ribeirinhas e indígenas. O seu trabalho de pesquisa é completamente fascinante, contribuindo para que a educação chegue até onde, infelizmente, é quase impossível chegar, além de manter vivo em registros parte da história e da identidade de um povo, ou seja, da nossa própria história”, conta orgulhosa.

Sobre o que vai encontrar nas salas de aula e como a educação passará a repercutir fora delas, a futura professora escolheu insistir na valorização do conhecimento. “Devido ao contexto social e político que vivemos atualmente, sei que é um tanto difícil ser otimista quanto ao futuro. No entanto, não perder as esperanças foi justamente um dos motivos pelo qual escolhi a licenciatura. Espero que, através das lutas de hoje, possamos colher bons frutos amanhã. A luta se renova todos os dias nas escolas, por isso não podemos parar. Conhecimento é a chave de tudo, é algo que ninguém pode roubar de nós. A educação é transformadora e fundamental pra evolução do ser humano e, consequentemente, da sociedade”, conclui Isabella

Troppo
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