Amor sempre presente

Lorena Filgueiras

Considerados os “segundos pais” de muitos, avós sempre têm muitas histórias inspiradoras a contar – como adoramos uma boa prosa (e se vier carregada de emoção, mais ainda), ouvimos netos que têm muito orgulho de suas origens. 

Longe de ser um spoiler para o que você lerá mais à frente, na entrevista especial deste domingo, a cozinheira Palmirinha Onofre viveu enormes dificuldades para chegar onde chegou – um reconhecimento merecidíssimo à toda sua trajetória, mas não sem muitos ônus, que hoje, talvez ela prefira até não falar. Suas filhas e netos não escondem o orgulho dela, uma mulher que, em nome da sobrevivência, não encontrou outra saída que não fosse trabalhar fora – sem perder sua doçura, uma característica que até hoje é-lhe muito marcante.

Evoco, de cara, um pouco da história dela para dizer que, ao longo desses anos em que atuo como jornalista, sempre ouvi inúmeros relatos de famílias que devem muito do que são (e têm) às suas matriarcas. Neste domingo, 26, data em que se celebra os avós (em homenagem à Sant’Anna e São Joaquim, avós de Jesus), fomos atrás dessas mulheres, avós inspiradoras que legaram exemplos de força e superação aos filhos e netos.

De Anna para Anna

Quando se fala na dona Anna Maria Martins, a primeira-dama da cozinha paraense, é impossível não lembrar de sua elegância. Sempre de batom vermelho, com os cabelos fartos (traço bem característico aos leoninos como ela), ela recebia impecavelmente os clientes que iam ao restaurante da família. Seu protagonismo, que influenciou ao filho, o lendário chef de cozinha Paulo Martins, foi o grande responsável por inscrever a culinária paraense na rota internacional da Gastronomia – tanto que 25 de julho, data em que Anna Maria nasceu, marca, oficialmente, o dia da Culinária paraense, instituída por decreto em 4 de outubro de 2016. 

As duas Annas (Acervo Pessoal)

Neta do governador José Malcher, Anna Maria Martins foi uma mulher muito, muito à frente de seu tempo. Quem nos ajuda a recompor sua linha é a neta Daniela Martins, chef de cozinha. “Ela desafiou muitas normas e costumes de uma sociedade machista. Divorciou-se do meu avô e com o compromisso de prover o alimento aos três filhos e sustentar a casa, passou a fazer doces e salgados pra fora. Anos mais tarde, o papai [o chef Paulo Martins] montou um restaurante só para que ela pudesse cozinhar. Ele adorava rememorar que a família da vovó sentia vergonha por ela vender comida, afinal, era neta de governador, mas ela não dava a mínima para o que diziam – tinha orgulho, afinal, estava trabalhando honestamente e o fruto desse trabalho duro foi consagrado”, conta Daniela. “Com ela aprendi a ter garra e não ter vergonha de recomeçar. Se ela estivesse aqui ainda, neste momento tão desafiador, aposto que faria tudo igual: acordaria antes das 5 da manhã, faria as compras, cozinharia e sempre teria uma palavra de apoio a todos, porque ela era assim. Sorte a de quem conviveu com ela! Eu vim dela, portanto tenho consciência de sua força até hoje”, finaliza.

“Ela é minha melhor amiga”

É como a acadêmica de Medicina Beatriz Lassance, 25, define sua relação com a avó, Maria Eufênia Pina. “Meus avós são as pessoas que mais me inspiram neste mundo. E falo são, porque mesmo meu avô já tendo falecido, a pessoa que sou tem muito dele e de minha avó. Minha avó me inspira por toda a força, por ter buscado uma profissão, em uma época machista em que as mulheres tinham de ficar em casa. Ela formou-se professora, em 1955, construiu uma família e não abandonou a profissão. Cuidou de forma maravilhosa dos filhos, dos netos. Quero ser uma boa profissional, como ela foi, da mesma forma que desejo constituir uma família. Minha avó é um dos seres mais apaixonantes que já conheci na vida. Aos 85 anos, ela tem uma mente mais atual que muitos da minha idade e acho isso lindo nela, porque ela não ficou parada no tempo. Ela é livre de preconceitos e nunca vi minha avó ser desrespeitosa com ninguém. E, sério, ela é incrível”, conta Beatriz, entre risos.

De fato, dona Eufênia é apaixonante e a conexão com a neta é muito marcante. “Trocamos receitas”, Beatriz revela. Dia desses, a avó ensinou-lhe a fazer baba de camelo [uma tradicional sobremesa portuguesa, uma espécie de mousse de doce de leite] e coube à Beatriz ensinar a receita de paella à dona Eufênia. “Minha relação com ela é de amizade. Conto as coisas mais importantes para ela e mesmo ela não aprovando a ideia de eu sair de Belém, ela me apoia. Né, vó?”, pergunta entre risos. “Tenho seis netos maravilhosos e três bisnetos lindos e eles todos preenchem o meu vazio”, interrompe carinhosamente a avó.

O casamento com o avô, Jorge Arobalilo Pina, durou 54 anos, além de outros 6 de namoro. Quando ele virou poesia, em 2013, dona Eufênia decidiu adotar um cachorrinho da Praça da República. “Ela não deixou de viver a vida e aproveita todas as oportunidades: viaja o Brasil inteiro de ônibus nas excursões da igreja, mas tem um pouco de medo de avião, por isso só viajamos juntas, porque ela aperta a minha mão e fica tudo bem”, finaliza Beatriz.

Na saúde e quando ela inspira cuidados

Dona Ana Firmina dos Santos Pinheiros tem 92 anos e, há aproximadamente 10, a família descobriu o Alzheimer. Desde então, ela passou a morar com a neta, a estudante de psicologia Ana Violeta Pinheiro, 23, e sua mãe. “Com isso, trocamos os papéis. Eu e minha mãe dedicamos nossas vidas a cuidar e dar o de melhor para ela, para que ela tenha todo o conforto que ela não pode ter, quando era ela quem dedicava a sua vida a cuidar de nós”, diz Ana Violeta. “Ela significa tudo na minha vida. É uma força da natureza”, elogia a neta. “Disseram que ela não iria aguentar, mas ela tá aqui todos os dias, chamando meu nome e dizendo que me ama. Ela nunca desistiu! E é a melhor pessoa do mundo”, afirma Ana Violeta.

Nascida em Abaetetuba, Firmina casou muito jovem com um homem mais velho e que trabalhava viajando muito, deixando-a sozinha e cuidando dos 10 filhos. “Eles passaram muitas dificuldades, mas ela fazia tudo o que podia para que todos tivessem o melhor que ela podia dar e, aos poucos, os filhos foram ganhando suas independências, trabalhando para ajudar em casa e conseguindo se formar no ensino superior, graças à luta dela. Como avó, ela é uma pessoa incrível, que sempre cuidou de mim e meus primos. Passávamos o final de semana na casa dela, brincando e fazendo bagunça, que ela adorava! Sempre às 16 horas, nos recebia com o café com leite mais gostoso do mundo”, relembra a neta. Com uma piscadinha, afirma também que é a neta favorita. “Minha avó me inspira por ser uma mulher forte, que mesmo com todas as amarras da cultura, nunca deixou de ser quem era: brava e determinada. Também me ensinou a nunca menosprezar quem eu sou, pois ninguém nesse mundo é melhor que o outro, somos todos iguais”.

Família em primeiro lugar!

Esse é o maior legado de Suely Rosa da Silva, que, aos 59 anos, é avó de adultos. Quem conversa conosco é Victória Souza, 19, neta de Suely.

Trabalhando desde os 9 anos de idade, para poder ajudar a família, que era muito humilde, dona Suely foi mãe solo. “Até hoje, ela é uma mulher incrível, que sempre foi parceira de suas filhas, nunca deixando faltar nada, ainda que sendo mãe separada. Mas sua vida se completou definitivamente quando vieram seus netos, pois nunca vi uma avó que se doe tanto para ver a felicidade dos seus netos quanto ela, que se dispõe a levar na escola, se preocupa com a alimentação e até mesmo chega ao ponto de atravessar a cidade, de ônibus, até Ananindeua, somente para levar filha e neto em casa, para ter certeza que ambos chegariam em segurança e depois voltar para sua residência no Guamá. Fazer isso só mostra o amor que ela sente por todos”, exemplifica Victória, que enxerga na avó seu maior exemplo. “A garra dela em ir atrás de seus objetivos para ajudar a criar suas filhas é admirável, como sua preocupação pela educação. Espero, um dia, ter metade das qualidades admiráveis da minha avó. O ensinamento mais importante que ela deu não só para eu como para todas as filhas e netos foi a de priorizar a família sempre, que são as pessoas que amamos e sempre estão conosco e de que só alcançaremos nossos objetivos através dos estudos. Ela é o grande amor da minha vida!”.

Troppo
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