'Amo amadurecer!'

Lorena Filgueira

A atriz Flávia Alessandra, 45, é uma mulher realizada. Casada, mãe de duas meninas, ela tem vivido o período do isolamento na companhia da família, enquanto se exercita, estuda, lê e cuida das plantas – uma paixão assumida. Vivendo a personagem Helena, na novela ‘Salve-se quem puder’, nossa convidada especial diz que a ficha “demorou a cair”, quando foi comunicada da suspensão temporária das gravações e exibição do folhetim. Ao mesmo tempo em que testemunha notícias desoladoras, a atriz se diz emocionada com a corrente do bem que tem se formado mundo afora. E falamos disso: dos bons exemplos, família, casamento e equilíbrio – uma qualidade que salta aos olhos de quem tem o privilégio de bater um papo com Flávia Alessandra.

Flávia Alessandra (Dêssa Pires)

Troppo + Mulher: Neste momento em que vivemos uma conjuntura muito delicada e particular, como você tem administrado trabalho, família e, fundamentalmente, a saúde mental/emocional?
Flávia Alessandra: É um momento muito delicado. Algo que a gente nem referência tem, porque nunca passamos por nada similar. E acho que não tem uma resposta de como lidar com a pandemia, com o isolamento... É muito pessoal! Eu, Flávia, tenho vivido um dia de cada vez. Fico com as minhas filhas, cuido da casa, cuido das minhas plantas... Vejo televisão, séries... Leio também. E, às vezes, não faço nada também. Tenho uma posição de privilégio diante de uma grande maioria, então eu não posso jamais reclamar. Tenho minha casa, reserva financeira, minha família com saúde, a empresa em que eu trabalho me permite ficar em casa... Minha preocupação é com os outros, como ajudar quem está precisando. Temos feito esse exercício aqui em casa. Acho que tem duas palavras que mais ressoam nesse momento: afeto e solidariedade.

T+M: Ante episódios que fogem aos nossos controles, é da natureza humana buscar justificativas. Qual a lição mais importante que você tirou/ou tem tirado do cenário?
FA: A minha percepção está voltada muito para as pessoas que estão se mobilizando em prol do outro, daqueles mais vulneráveis nesse momento. Essa corrente do bem é algo que me emociona e que me dá esperança no ser humano, porque é tanta notícia tenebrosa! Meu desejo é que esse fazer o bem continuasse após a pandemia, que não fosse algo só de agora. Gostaria que essa onda de afeto e solidariedade seguissem conosco.

T+M: Algo tocou você, especificamente?
FA: Tudo! É um misto de emoção. É até difícil eleger algo, porque estamos à flor da pele. Vejo notícias no jornal que me fazem chorar. Leio posts que me dão esperança. É uma montanha-russa de emoção que estamos vivendo nessa pandemia. Mas o que mais me toca é ver pessoas se mobilizando para ajudar os mais vulneráveis. Essa é uma preocupação minha. Sou embaixadora da Brazil Foundation, então é uma causa que eu estou de olho e participo ativamente.

T+M: Como tem sido sua rotina/de sua família neste período?
FA: Não existe uma rotina específica. Tem dias que eu quero ficar em contato com as minhas plantas, que são uma paixão que eu tenho e é algo que distraí a minha mente. Em outros, pratico alguma atividade física, porque eu gosto e me faz bem. Aí chamo a Giulia [filha mais velha da atriz com o já falecido diretor Marcos Paulo] e fazemos juntas. Em outros momentos, fico com Olívia [a filha caçula, fruto do casamento com o ator Otaviano Costa]. Cada dia é um dia. Torço muito para que esse período passe logo.

T+M: Quais seus planos que a Pandemia colocou em compasso de espera, para além da participação na Salve-se quem pude [novela que teve gravações e exibição interrompidas em função da pandemia]?
FA: Principal mesmo foi a novela. Estava completamente envolvida com o trabalho, com as gravações e, de um dia para o outro, paramos. Uma atitude muito responsável e sensata da emissora, que preservou os funcionários nesse momento. Quando tenho uma novela, eu me programo e reservo a minha vida para aquilo, porque é algo que toma o tempo. Estava programada para ela. Agora é esperar e ver quando a gente consegue voltar a contar nossa história para o público.

T+M: Você comentou, em entrevista recente, que quando recebeu o telefonema do autor da novela informando a interrupção das gravações, demorou a absorver. Sua “ficha caiu” neste momento? Se não, quando foi que se apercebeu da gravidade?
FA: Sim, foi isso mesmo. Ali eu entendi a gravidade da situação. A emissora interromper todas as suas novelas? Eu nunca vi isso! E isso só aconteceu porque o momento pediu isso. É um vírus que vem evoluindo de forma assustadora, levando tantas pessoas. Já sabia sobre o vírus, sobre o que estava acontecendo, mas, quando paramos, eu entendi que nosso país seria gravemente afetado. E isso mexeu comigo. São muitas pessoas morrendo, amigos ficando doentes... O isolamento social ainda é a única forma que temos de nos proteger. Quem puder, porque eu sei que tem pessoas que não podem, fique em casa.

T+M: Você tem uma longeva carreira e percebo que você e muito reservada, um paradoxo ao momento em que as redes sociais são instrumentos de exposição: como lidas com elas? E com os haters?
FA: Eu tenho uma relação tranquila mesmo com as redes sociais. Tenho o entendimento de que ali é um lugar em que eu divido aquilo que eu quero dividir ou o que quero comunicar. E ter esse contato direto com os fãs é algo que eu gosto muito. Adoro interagir, trocar... Sobre os haters, eu não costumo dar atenção. Nem acho que eu seja uma pessoa que tenha muito haters. Gosto de olhar para o que é bom. É assim que eu gasto o meu tempo e energia.

T+P: Voltando um pouco ao começo, sei que você começou menina ainda - mas em qual momento você teve clareza de que ser atriz era o que queria?
FA: Ah, comecei muito cedo sim, mas demorei a ter a certeza de que ficaria na carreira, mesmo. Inclusive, eu me formei em Direito. Foi apenas em A Indomada, lá em 1997, [quando] já tinha alguns anos de TV, que eu entendi que não daria para fazer outra coisa da minha vida que não fosse atuar. Essa é uma novela emblemática para mim, porque me trouxe essa certeza de que eu viveria de arte.

T+M: Quais foram as maiores dificuldades nessa trajetória?
FA: É uma carreira instável, todo mundo diz isso. Mas qual é a carreira que já começa estável? Nenhuma, não é?! Eu acho! Até você provar o seu valor, mostrar que sabe fazer o trabalho e conquistar o seu espaço, é um período de incerteza. Acredito que acontece com todos os profissionais iniciantes. Passei por isso. Até eu me firmar e me sentir segura, foi um processo. Uma carreira é construída a longo prazo. É com dedicação, estudo, é dia a dia.

T+M: Hoje os 40 são os novos 30 - como encaras esse momento de sua vida? És uma profissional e mulher realizada?
FA: Eu entendo quando você diz que os 40 são os novos 30, mas eu acho muito importante dizer isso: os 40 são os 40 e eles são maravilhosos, assim como os 30, os 20! Eu sou resultado de tudo o que vivi. Amo amadurecer, perceber como meus pensamentos evoluíram, os meus sentimentos, as minhas emoções... E isso só acontece com o tempo. Eu me sinto muito realizada como mulher e como profissional. Mesmo! Tenho uma trajetória da qual eu me orgulho demais. Estou muito bem comigo, com a minha idade. Eu sempre me cuidei pensando em ter saúde e bem-estar ao longo da minha vida. Essa é a prioridade.

T+M: Falando da novela, como reages ao fato de que a Helena [personagem que é vivida por Flávia na novela Salve-se quem puder!] é considerada fria? Como tem sido e foi inicialmente o processo de construção dela?
FA: Minha primeira reação ao convite foi negar (risos). Juro! Quando eu soube que não saberia as reais intenções da Helena, eu paralisei. Não sabia de nada sobre o passado dela. Daniel só tinha me dito que Helena acreditava que a Luna e o Mário tinham morrido. Mas eu não sabia o que tinha acontecido. Depois eu percebi o quanto que seria desafiador e estou amando o texto do Daniel. Sobre a frieza, eu não sabia se era uma defesa que ela tinha criado por algo lá de trás ou, se de fato, ela era mais pragmática. Mas com as últimas revelações, a gente já sabe que ela não era essa mulher fria. Ela se tornou. 

T+M: Há um aspecto intrigante da personalidade da Helena, que é o amor e a devoção aos enteados. Você é uma mãe super apaixonada e companheira de suas filhas - quais emoções você tem revivido de maneira distinta, em função da diferença de idade delas? Em quais fases elas estão e como você se insere nelas?
FA: Eu sou a mãe que está presente e quer saber de tudo (risos). Lá em casa é assim. Sou amiga? Sou! Mas antes eu sou mãe! Olívia tem 9 anos. Giulia, 20. São fases diferentes, assuntos diferentes. É bom porque eu estou sempre me renovando nos assuntos (risos). Mas cada filho é um filho. As duas são completamente diferentes e você precisa ter isso em mente quando cria um filho. Amo ser mãe.

T+M: Você e Otaviano são um casal muito admirado. Depois de tanto tempo, há segredos para uma relação tão harmoniosa? Quais os desafios e conquistas para manter a chama acesa? Neste momento em que estão 24 horas juntos, como tem encarado? Muitos casais têm sentido dificuldades em separar e respeitas os espaços individuais.

FA: Nós somos muito parecidos. E as diferenças que existem, elas nos completam, sabe?! Eu gosto de estar com ele, de conversar com ele... Acho que, numa relação, é preciso ter admiração. E eu o admiro como homem e profissional. E ter tesão também, o que não nos falta depois desses anos todos. Vivemos algo inédito antes dessa pandemia. Otaviano estava gravando o Extreme Makeover Brasil (programa do GNT) em São Paulo e ficou quase dois meses fora de casa. A gente nunca tinha ficado tanto tempo longe. E vou ser sincera: gostei não! (risos). Nesse isolamento, estamos recuperando esse momento que ficamos separados. E somos o apoio um do outro. Mesmo. Temos essa cumplicidade. Mas não tem fórmula secreta, nem nada disso. Essa é a nossa relação, nosso jeito de viver juntos.

Para conhecer mais:
@flaviaalessandra

Troppo
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