Amadurecendo no paraíso

Conheça as histórias de Glaucia Gomes, Nara Vilemberg e Bruna Guerreiro, e os vários significados do que é ser mãe

Camila Passos / Troppo

Khalil Gibran, certa vez, definiu “mãe” como a mais bela palavra pronunciada pelo ser humano. A conclusão do ensaísta libanês tem uma razão muito natural, ou pelo menos naturalizável, de ser: é no vínculo materno que se espera encontrar o maior sentimento de pertencimento e compreensão.

Quando se é mulher, então, a relação com a maternidade é duplicada: se a figura da genitora é um arquétipo de conforto a toda pessoa, nós só passaríamos a experimentar a plenitude da vida ao exercer o mesmo papel para nossas próprias crias.

É claro que aí entra toda sorte de idealizações – desde as que atingem às mulheres que não têm intenção de gerar uma criança até versões definitivas e encerradas de como experimentar essa etapa tão rica e particular. Algumas mães, porém, desafiam essas expectativas e mostram que não há um jeito certo de viver esse laço.

A Troppo + Mulher conheceu algumas mulheres que, por meio de suas histórias, deixam claro que a única regra que faz da maternidade tudo o que ela significa é o amor.

Nunca é tarde demais

Difícil imaginar experiência de maternidade mais inusitada que a vivida pela copeira Glaucia Gomes. Ela trabalhava em um hospital quando conheceu Cotinha, uma senhorinha que ajudava em algumas tarefas rotineiras na cozinha. “Achei que ela era uma funcionária”, lembra. Depois, ela se deparou com a comovente história da idosa: moradora do local há 50 anos, chegou lá ainda criança, vítima de um acidente de carro, que vitimou fatalmente o irmão, Pedrinho, e a deixou (Cotinha) com sequelas irreversíveis.

“Ninguém quis ficar com ela. Ela perdeu a casa, e eu perdi o emprego. Na hora, eu agi com o sentimento. Não pensei no dia de amanhã nem na dificuldade que eu poderia ter”. (Foto: Felipe Oliveira)

 

 

 

 

 

Por conta disso, Cotinha tinha algumas deficiências: não conseguia falar e sua locomoção era limitada. Nascia então uma amizade entre as duas. “Como eu era copeira, ela me ajudava a encher as garrafas de água, desmontar os carrinhos, arrumar os talheres. A gente gostava dela, mas nunca me passou pela cabeça trazer ela pra casa porque ela era feliz ali”. Tudo mudou quando o hospital fechou, em 2017. Sem consultar ninguém da sua família, Glaucia – que já tinha uma filhinha de um ano e meio – teve um impulso que redefiniria os rumos daquela relação: levaria Cota consigo.

“Achei que ela era uma funcionária”, lembra Gláucia. Só depois se deparou com a comovente história de Cotinha, que morava no hospital havia 50 anos e não tinha mais ninguém no mundo. (Felipe Oliveira)

 

 

 

 

 

“Ninguém quis ficar com ela. Ela perdeu a casa, e eu perdi o emprego. Na hora, eu agi com o sentimento. Não pensei no dia de amanhã nem na dificuldade que eu poderia ter”. Desempregada, morando de aluguel e dependente da ajuda dos pais, Glaucia chegou ao auge da dificuldade depois de três meses com a nova integrante da família.

Chegou a cogitar deixá-la em um asilo, por acreditar que seria um ambiente em que as necessidades de Cota seriam mais bem atendidas. “Quando visitei o lugar, entendi que não poderia fazer isso com ela. Assumi o risco”. Felizmente, tudo foi se ajustando. Glaucia arrumou um novo emprego como cuidadora em uma casa de repouso. Cotinha a acompanha, e as duas cumprem essa rotina dia sim, dia não.

Hoje, a senhora também recebe um benefício, o que já ajuda nas despesas da casa. Recentemente, a família comemora uma nova vitória: Cota finalmente tem documentos – e em sua identidade, o sobrenome que consta é o da mãe afetiva.

“Deus encaminhou tudo do jeito certo. A única chance de ela ter um nome era eu ficar responsável por ela. Não ia mudar nada, no fim das contas. Ela já estava comigo. Fiquei muito feliz quando a advogada conseguiu dar meu sobrenome pra ela. Senti que o nosso laço se fortaleceu ainda mais”.

A tratadora sabe que a rotina pode vir a ficar complicada conforme Cotinha vá envelhecendo, então se prepara para comprar a casa própria e estabilizar sua situação financeira. “Eu tô ciente que, daqui a uns anos, ela não vai mais andar e eu vou ter que parar de trabalhar pra cuidar dela. Mas eu tô preparada. Acho que Deus sabe o que faz. Se Ele a trouxe pra minha vida, algum motivo teve. Desde que ela veio pra mim, só coisas boas me aconteceram”.

“Acho que Deus sabe o que faz. Se Ele a trouxe pra minha vida, algum motivo teve. Desde que ela veio pra mim, só coisas boas me aconteceram” – Gláucia Gomes

Presente mais que especial

A vida também surpreendeu Nara Vilemberg, com um chamado completamente fora de seus planos: aos 47 anos, ela tomou conhecimento de que estava grávida. “Foi realmente um grande susto para mim, assim como toda gravidez que não é planejada – tenhamos 15, 25 ou 47”, brinca.

O choque não era sem fundamento: além da idade considerada elevada para o que se espera da maternidade, ela já havia engravidado duas vezes e não tinha a menor intenção de ter um bebê nessa etapa da vida – tanto que seu plano de saúde nem mesmo cobria mais obstetrícia. Apesar do impacto imediato, Nara topou o desafio.

A vida surpreendeu Nara Vilemberg com um chamado completamente fora de seus planos: aos 47 anos, ela tomou conhecimento de que estava grávida de Amanda. (Troppo)

 

 

 

 

“Minha ginecologista me cobriu de cuidados e exames, tanto para mim quanto para o bebê. Mas no geral, minha gestação foi bem tranquila”. A recepção da notícia pela família e profissionais foi acolhedora, mas isso não a impediu de se sentir desconfortável com o possível julgamento dos desconhecidos. “Fiquei muito envergonhada por estar grávida com uma idade avançada. Dizia que não iria sair de casa, mas eu tinha um filho de nove anos e tinha que levá-lo às atividades da escola. Aos poucos, fui me acostumando e levando minha vida normalmente”, relembra.

Então nasceu Amanda, e com sua chegada vieram novos desafios: portadora de Down, a bebê inspirava cuidados especiais. Nara, que trabalhava no comércio de seu marido, passou então a se dedicar exclusivamente à filha. “Toda criança com Down tem mais idas a médicos do que qualquer outra, principalmente os cardiopatas como a minha filha. Qualquer resfriado, então, já era um Deus nos acuda”, conta ela.

Aos quatro anos, a menina precisou fazer uma cirurgia para colocar o quadro em ordem e reparar os problemas de um malsucedido cateterismo anterior. Desde então, a observação de sua saúde demanda atenção constante – só para garantir, porque Amandinha vai muito bem.

"Ninguém está preparado para ter um filho especial; mas, quando isso acontece, é preciso que toda a família se empenhe para que esta criança cresça feliz e se sinta amada. Sinceramente, eu não existo sem ela.” (Troppo)

 

 

 

 

“Sempre tem as idas ao endocrinologista uma vez ao ano, ao ortopedista, pneumologista, e ainda fazer acompanhamento com o [médico] vascular. Vida normal, mas com todos esses cuidados”, explica Nara, que acredita que a idade lhe proporcionou mais experiência e tranquilidade para essa vivência. “Talvez, se eu tivesse um filho Down muito jovem, não saberia como lidar com tal situação. Ninguém está preparado para ter um filho especial; mas, quando isso acontece, é preciso que toda a família se empenhe para que esta criança cresça feliz e se sinta amada. Sinceramente, eu não existo sem ela”.

“Ninguém está preparado para ter um filho especial; mas, quando isso acontece, é preciso que toda a família se empenhe para que esta criança cresça feliz e se sinta amada. Sinceramente, eu não existo sem ela” – Nara Vilemberg

Amor sem medidas

A escritora Bruna Guerreiro também foi mãe relativamente tarde, aos 36 anos. Porém, diferente de Nara, sua gravidez foi planejada. “Eu demorei um bocado para decidir que queria ser mãe, não era um sonho. Em um determinado momento da minha vida, achei que podia ser legal viver isso e eu e meu marido decidimos tentar”.

Além de todas as implicações que a gestação traz para a vida de uma mulher, Bruna tinha uma preocupação a mais para lidar: por ser obesa, a ideia determinista de que os próximos nove meses seriam necessariamente desastrosos lhe assombrou por um tempo – sobretudo quando se deparou com um atendimento médico abusivo.

"Em determinado momento da minha vida, achei que podia ser legal viver isso (a gravidez) e eu e meu marido decidimos tentar”. (Troppo)

 

 

 

 

“A primeira médica que me atendeu enquanto eu estava tentando engravidar me rendeu uma experiência traumática. Ela tinha uma postura seca, e quando eu fui à primeira consulta com o exame positivo, ela simplesmente me apavorou. Disse que não se responsabilizaria por nada que acontecesse comigo e com o bebê se eu engordasse ao menos um quilo. Foi uma consulta horrível”, reclama. Felizmente, Bruna encontrou em outro profissional a segurança que precisava para carregar seu filho. “Claro que sei que a obesidade é um fator de risco na gravidez. Mas existem formas de lidar, né?”

Naturalmente, a escritora precisou tomar algumas precauções ao longo do período. Tomou religiosamente as medicações prescritas e seguiu uma dieta restritiva para evitar inchar e ter pressão alta – principalmente ao se ver diante de um possível quadro de pré-eclâmpsia, que poderia se agravar com um episódio de hipertensão. “Tive medo sim, por mim e pelo bebê. Mas deu tudo certo e nós ficamos muito bem, eu e ele”.

“Gravidez de risco não significa que vai acontecer algo de ruim. Só significa que você vai ter que cuidar mais de perto” (Troppo)

 

 

 

 

Na hora do parto, a ruptura levemente antecipada da bolsa foi motivo de novos momentos de tensão e pavor, mas outra vez tudo aconteceu como precisava. “Foi diferente do que me disseram que seria, porque me apavoraram bem mais. Mas é uma experiência normal, não tem nada a ver com obesidade. É que a gente vê muita novela e acha que, quando a bolsa estoura, é aquele Deus nos acuda, mas calma: dá tempo de tudo”, aconselha. “Agora, a experiência da maternidade nunca vai ser como te contam. Eu tive que pesquisar na internet até as melhores posições de amamentação para mulheres obesas. Não é sempre óbvio”.

Para Bruna, obesidade não é sinônimo nem de saúde ruim, nem de gestação turbulenta. “Minha irmã também é obesa e teve duas gestações saudáveis, também após os 30 anos de idade. Eu nunca tive pressão alta, nem tenho diabetes, que são perigosos para gravidez. E tem mais: gravidez de risco não significa que vai acontecer algo de ruim. Só significa que você vai ter que cuidar mais de perto”. 

“Gravidez de risco não significa que vai acontecer algo de ruim. Só significa que você vai ter que cuidar mais de perto” – Bruna Guerreiro

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