Alimentação saudável sem estresse e sem restrições

O Brasil tem um Guia Alimentar que é referência mundial e aponta recomendação de alimentação e nutrição saudáveis; as escolhas fazem diferença

Flávia Ribeiro

Celebrado em 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação, é um convite para que reflitamos mais sobre as escolhas feitas na hora de sentar à mesa. Para quem precisa de orientação, desde 2006, o país adotou o Guia Alimentar para a População Brasileira, que traz princípios, recomendações e diretrizes para atender os direitos à saúde e à alimentação adequada e saudável.

Em sua segunda versão, construída após ampla participação popular, de instituições de pesquisa e de saúde, o guia, produzido pelo Ministério da Saúde e publicado em 2014, traz quatro categorias de alimentos: os in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários, processados e ultraprocessados.

O documento traz que os in natura são obtidos diretamente de plantas ou de animais, como folhas e frutos ou ovos e leite, podendo ser consumidos sem que tenham sofrido qualquer alteração após deixarem a natureza. Os minimamente processados foram submetidos a alterações mínimas, antes de sua aquisição, como grãos secos, polidos e empacotados ou moídos na forma de farinhas. Já os ingredientes culinários correspondem a produtos extraídos de alimentos in natura ou diretamente da natureza para temperar e cozinhar alimentos, como óleos, gorduras, açúcar e sal. Os processados são fabricados essencialmente com a adição de sal ou açúcar a um alimento in natura ou minimamente processado, como legumes em conserva, frutas em calda e pães. Já a quarta categoria passa por diversas etapas e técnicas de processamento e recebe vários ingredientes, muitos deles de uso exclusivamente industrial, em sua fabricação. Exemplos incluem refrigerantes, biscoitos recheados, “salgadinhos de pacote” e “macarrão instantâneo”. 

“Um exemplo: o milho pode ser comprado in natura, na espiga; também pode ser minimamente processado quando já vem sem casca, embalado a vácuo e pronto para cozinhar. Quando comprado em conserva ou enlatado, é processado. Já os salgadinhos de milho, que são vendidos em supermercados, são ultraprocessados porque possuem milho na composição, mas também sal, corantes, óleo, emulsificantes e uma série de ingredientes. Em geral, essa categoria é produzida com muitos ingredientes que fazem com que eles tenham um prazo de validade maior, ou seja mais tempo de prateleira” explica Naiza Bandeira de Sá, professora da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal do Pará.

O Guia recomenda que os alimentos in natura e minimamente processados sejam mais consumidos, por outro lado desaconselha os ultraprocessados. “O excesso desses alimentos é que traz consequências para a saúde, como a obesidade e excesso de peso, hipertensão, risco maior para diabetes e doenças crônicas não-transmissíveis, de forma geral. Além disso, a composição nutricional desses produtos é concentrada em gordura, açúcar e sal, que são usados para tornar mais palatável e isso acaba implicando o excesso de calorias. Há outros impactos como na experiência do comer, uma vez que alteração no o paladar. Quando as pessoas costumam comer muito essa categoria de alimentos, costumam perder o prazer em provar os sabores amargo e o azedo e conhecem mais o doce e o salgado, porque são alimentos ricos em açúcar e sal” diz a professora.

Revisão

Há algumas semanas, o Guia Alimentar para a População Brasileira ganhou destaque nas manchetes da imprensa após o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) emitir uma nota pedindo a revisão do documento, publicado em 2014. A questão recai sobre o conselho de evitar os ultraprocessados. “O guia brasileiro é referenciado inclusive internacionalmente. O do Canadá, por exemplo, foi feito com base no [guia] brasileiro. É mundialmente reconhecido. É um excelente material sobre alimentação e nutrição. Ele substitui a pirâmide, que era usada para fazer educação alimentar e nutricional. É mais completo e de mais fácil compreensão. Ele não diz que é proibido tomar refrigerante, porque não é proibido: esses alimentos só devem ser evitados”, comenta a professora.

A intenção do documento é fazer com que as pessoas reflitam mais sobre alimentação, o hábito de comer, de preparo, etc. “Se comer dois biscoitos, tomar um refrigerante, copo de suco em pó, eventualmente e se não for uma rotina, então, dificilmente fará um mal à saúde. Mas a grande questão dos ultraprocessados é que eles são a base da alimentação da sociedade brasileira. As pessoas estão muito acostumadas a desembalar a macarrão instantâneo, a lasanha que já vem pronta, o frango que já vem temperado.
Cozinhar é um ato positivo. Além de ser prazeroso descobrir o que está comendo, de onde veio. Você se conecta mais com os alimentos quando cozinha. Agora, há pessoas que também preferem usar os aplicativos que facilitam para quem não aprendeu ou não gosta” pontua Naíza.

Os reflexos da pandemia

Sempre adepta de uma alimentação saudável e evitando carne vermelha, a advogada, Sâmya Letícia Santos, 31 anos, já vinha estudando o vegetarianismo e veganismo e adotado uma dieta mais baseada em vegetais, frutas, legumes, verduras. No fim do mês de abril, teve Covid-19 e vários problemas em decorrência da doença e dos medicamentos. “Eu tive que usar uma grande quantidade de corticoides, entrei em um grande processo inflamatório, com vários edemas pelo corpo. Um inchaço generalizado. Aumentei vários quilos. Pesquisei, estudei, busquei uma nutricionista e resolvi adotar uma dieta vegana. O objetivo não só pela questão da saúde, mas para desinchar” comenta.

Além disso, há cerca de quatro anos, Sâmya também descobriu que tem uma doença autoimune. “Nas pesquisas sobre alimentos inflamatórios, identificou que alimentos processados e ultraprocessados são extremamente inflamatórios, pelo uso de substâncias para conservação, pela troca de elementos naturais para elementos químicos para substituir cor e sabor e dar aparência e aspecto de alimentos natural, quando muitas vezes não é natural” revela a advogada. Ela lembra que na infância, a família sempre preferiu alimentos preparados em casa. A avó fazia comida caseira. Evitavam o uso de óleo. Mesmo assim, ela percebe que havia alimentos que podem ter influenciado na sua saúde. “Comia muito biscoito recheado porque era o lanche da escola. Tínhamos acesso a muitos alimentos industrializados. Ou seja, assim como tínhamos uma alimentação saudável, também tinha acesso a alimentos que provavelmente foram gatilhos de algumas alergias que desenvolvi” fala.

Agora, vegana, ela sente os efeitos positivos na mudança em sua rotina alimentar. “Desinchei e sinto que meu organismo reagiu muito rápido à retirada do leite de vaca e da carne vermelha. Outra coisa é que sempre tive cólicas menstruais muito fortes e nos últimos meses não precisei de remédios para controlar as dores”. Além disso, sentiu melhores na pele e não sente o desgaste muscular quando treina. “Faço canoagem, corrida e musculação e não sinto mais dor muscular pós-treino”, destaca Sâmya, comentando que já fez exames de controle e os índices estão melhores, além de ter emagrecido também.

Crítica à revisão

A apresentadora, escritora e cozinheira Rita Lobo criticou a nota do Mapa, em entrevista ao podcast Café da Manhã, da Folha de São Paulo. Ela afirmou que o Guia Alimentar é "uma pedra no sapato" da indústria de ultraprocessados e ressaltou os perigos desses alimentos. "Infelizmente, agora essa indústria encontrou um porta-voz importante para atacar o Guia", frisa, se referindo ao Ministério da Agricultura. Lobo ainda destaca a reação da indústria por se sentir prejudicada quando o Guia recomenda evitar essa categoria de alimento. “E vai fazer muita força para que essa informação baseada em ciência não chegue à população ", diz Rita.

Troppo
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