A violência de cada dia

Mais do que flores e chocolate, mulheres querem que respeito sempre presente e lembram que o oito de março é mais um dia de luta pelo fim da violência

Flávia Ribeiro

Na semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo, 8 de março, a jornalista Patrícia Campos Mello, de São Paulo, entrou na lista dos mais graves ataques a jornalistas no mundo. Ela virou alvo das milícias digitais e recebeu ataques de cunho sexual após um depoimento prestado à CPMI das Fake News por Hans River do Nascimento, ex-funcionário de uma empresa envolvida em disparos de mensagens em massa por WhatsApp.

A situação de Patrícia não é isolada. Agressão verbal, violência psicológica, exploração econômica e violência física são os atos de violência relatados com mais frequência por FLÁVIA RIBEIRO revistatroppo@oliberal.com.br FOTOS: DUDU MAROJA 6 jornalistas mulheres, no estudo “Mulheres jornalistas e liberdade de expressão - Discriminação e violência de gênero contra jornalistas no exercício da profissão”, realizado pela Relatoria Especial para Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e publicado em 2019. O documento ressalta que mulheres enfrentam um “risco duplo” para exercer a profissão, apesar dos avanços na representatividade feminina em áreas como a política e a comunicação nas Américas.

Em Belém, a jornalista Maria (nome fictício) conheceu bem o “risco duplo” de ser mulher e jornalista. Em 2014, ela fazia a produção de um projeto, quando concedeu uma entrevista. “Eu falei da programação, mas não deu para citar tudo. Naquele momento, eram muitas os eventos dentro da programação”. Foi o suficiente para que ela sofresse variados xingamentos nas redes sociais, a maioria de cunho sexual, por parte de um visitante da mostra, que se sentiu prejudicado.

À época, iniciando a carreira e com aproximadamente cinco anos de profissão, ela relembra que vários amigos do rapaz pediram desculpas por ele. “Não havia uma discussão sobre feminismo tão forte quanto hoje, mas eu já entendia que essa postura dos amigos dele também era equivocada. Por que eu precisava relevar quem estava errado e me agrediu publicamente? Eu não tinha que desculpá-lo e os amigos dele não precisavam vir pedir desculpas para mim. Eles deviam ter falado com ele, para mostrar a gravidade da situação, o que acredito que eles fizeram. Eu até compreendo que me procuraram porque eles claramente compreendem que fui desrespeitada e atacada gratuitamente, mas o que me foi pedido não era justo”, afirma.

Maria foi incentivada a levar o caso à Justiça, mas acabou não fazendo. Bloqueou o agressor das redes sociais e nuca mais teve contato. “Várias mulheres vieram falar comigo dizendo que ele sempre as atacava também, depreciando a condição de serem mulheres”, ressalta.

Em outra situação, após uma matéria crítica sobre um outro projeto, ela foi muito atacada por quem julgou o texto como errado. Ela ficou abalada, chegou a ter uma crise de ansiedade e precisou de atendimento hospitalar. Como tudo ocorreu no ambiente virtual, foi preciso desativar as redes sociais. “Sem dúvida nós, mulheres jornalistas, somos muito mais vulneráveis à uma exposição cruel e misógina, não só em relação ao trabalho, mas à própria vida e até mesmo ao corpo, num grande combo de violência. É o que fica latente quando vemos o caso da Vera Magalhães [a jornalista que divulgou print do perfil pessoal do presidente da República, em que ele compartilhou um vídeo conclamando a um ato contra o congresso brasileiro]. Existe uma conjuntura histórica que permite tanto aos homens, quanto também às outras mulheres (porque não são somente os homens que atacam, infelizmente) normalizar a violência contra a mulher” analisa Maria.

Maria afirma que a chegada de mais um Dia Internacional da Mulher só demonstra que ainda não há o que se comemorar “É um dia de mostrar, com maior expressão, como ainda somos mortas, assassinadas, como ainda somos vítimas de assédio sexual no trabalho, que ainda ganhamos menos do que os homens e que precisamos de estrutura de políticas públicas que nos fortaleçam enquanto mães e que nos possibilitem ter uma vida equilibrada entre maternidade trabalho.. que algumas de nós ainda são mais impactadas, como as negras e as mulheres transgênero, que são vítimas de assassinatos bárbaros”.

Negra, de periferia, lésbica e mãe de santo, Jucilene Carvalho também fala que hoje é mais um dia de luta. “Pela igualdade de gênero e contra o patriarcado. Para lembrar de todas as mulheres que foram assassinadas ao longo da nossa história, que foram cercadas pelo direito à vida e à liberdade. Pelo direito de ser, viver, estar. Ser o que quisermos, estar onde quisermos estar. Parece simples, mas são direitos que nos são arrancados todos os dias”, comenta Jucilene, Mãe Juci D'Oyá, que é sacerdotisa de Umbanda do Terreiro de Umbanda Casa de Mãe Herondina e militante de movimentos sociais.

Jucilene Carvalho (Dudu Maroja)

Em sua trajetória, Jucilene afirma que vem sofrendo violências desde a infância. “Eu incorporo desde os sete anos de idade. Por ser de família católica, eu fui muito oprimida. Eu tinha medo disso tudo. Por ser lésbica, ao longo do tempo, eu fui entendo a diferença do meu pensamento, aceitando o meu corpo com os desejos que ele tinha”. Ela chegou a se casar com um homem durante 16 anos, com quem teve três filhos. “Foi uma superação eu me entender como sou, como nasci e o que eu sou. Eu superei muita coisa por me aceitar e também o preconceito da família. Porque depois que nós mostramos para a família que somos de terreiro e ainda sapatão, isso implicou que uma parte se afastou de mim. É um preconceito que a gente vive. É uma realidade latente para mim e muitas pessoas de terreiro. Pelo meu entendimento de ser mulher livre, militante, atuante, eu enfrento isso”, comenta.

No entanto, depois da mudança da vida ela também teve motivos para comemorar. “Ganhei outra família: a do amor, a do coração, a do axé. Filhos, pais, irmãos de santo, que te acolhem, te abraçam, que te enxergam com admiração. Eu fico muito emocionada quando meus filhos de santo dizem que têm orgulho de mim, por eu ser essa mulher que luta, que resiste e que não tem vergonha de dizer que é gay. Eu espero que todas as mulheres que são de axé, que são homossexuais e que têm a necessidade dessa liberdade, consigam enxergar e lutar, porque todo dia é de luta e de superação. Precisamos aprender a dar uma volta nos obstáculos da vida”, afirma Jucilene, concluindo que a data é “para reflexão, luta e combate por tudo o que sofremos e somos cercadas. É um dia de lutar pela vida e liberdade de todas as mulheres, e pelo fim da violência”.

Tipos de violência

As situações vividas pelas jornalistas são exemplo de violência impostas sobre mulheres. Existem vários tipos de violência, conforme explica a psicóloga Lyah Corrêa. “Embora, violência de gênero, contra a mulher e doméstica sejam encarados como sinônimos, é importante compreender que violência de gênero é, antes de tudo, é um fenômeno social, cultural e histórico que se configura enquanto o estabelecimento de relações de poder de um gênero sobre o outro. Sendo culturalmente do gênero masculino sobre o gênero feminino, expresso pela dominação (física, verbal, psicológica, moral, etc). Nesse sentido, a violência contra a mulher se demarca neste contexto enquanto polo do alvo desta violência. E por ser um fenômeno social, cultural e histórico, significa dizer que ela atravessa diversos contextos e estruturas. De acordo com a socióloga Heleieth Safiotti, este tipo de violência também está muito presente no âmbito doméstico, privado. Considerase que, na violência doméstica, o estabelecimento de relações violentas também inclui outras perspectivas, tais como: violência contra o idoso, criança etc. A violência contra a mulher é uma das mais frequentes dentro dessa perspectiva, o que torna o assunto extremamente necessário a ser debatido e combatido”.

Lyah Corrêa (Dudu Maroja)

Além disso, outros conceitos importantes abordam a maneira com que a violência é expressa. A violência física, por exemplo, pode ser caracterizada pela ofensa física ou à integridade da mulher, como bater, espancar, empurrar, jogar objetos, sacudir, puxar os cabelos, etc. Já a violência verbal se configura a partir do campo das palavras ou de manifestações que a comunicação seja utilizada com a finalidade de limar, inferiorizar, ofender e diminuir a mulher. Já violência psicológica foca na diminuição da autoestima da mulher e pode ser manifestada pela violência verbal e física e de outras formas também. “Ocorre uma diminuição de sua autonomia enquanto mulher, enquanto pessoa. Neste tipo de violência, é comum quadros de depressão devido à autopercepção inferiorizada de si devido à violência” pontua a psicóloga.

 

Segundo Lyah, o homem heterossexual cisgênero é o maior agente da violência contra a mulher. “Estudos na área da Psicologia, Antropologia e Sociologia apontam que o caráter histórico, social e cultural da construção do masculino fornece subsídios para justificar as manifestações de poder que homens exercem sobre mulher. A ideia histórica errônea de que homens são superiores – e de manutenção desta perspectiva ao longo dos tempos, inclusive, legitimada pelas instituições sociais – favorece também a manutenção de ideias e práticas violentas contra mulheres consideradas como “normais”. Esse caráter de naturalização da violência contra a mulher é um grande entrave na discussão sobre as estratégias de enfrentamento”, comenta.

Para ela, dentre as formas de combate para a situação de violência pelas quais passam as mulheres, é importante o homem estar no debate sobre relações de gênero, seja em que esfera for. As medidas punitivas têm que estar alinhadas às educativas e, consequentemente, às combativas, pois o debate é social, político, histórico, cultural. “Atualmente, o âmbito das políticas públicas para mulheres, no Brasil, tem se mostrado como uma das possibilidades de ajuda a mulheres vítimas de violência por conta do gênero. No entanto, garantias como: medida de punição, proteção e prevenção ainda estão aquém de serem de fato satisfatórias. Nesse sentido, acionar esses instrumentos sociais (delegacias e outros órgãos), procurar grupos e redes de apoios, movimentos sociais etc. ainda são possibilidades de ação para criar fissuras na barreira de 'naturalização’ da violência contra a mulher. Além disso, debates constantes tanto na esfera micro quanto macro política também são mecanismos de externalizar o debate”.

Dentre as políticas públicas desenvolvidas no Pará, há 16 delegacias da Mulher, que são especializadas no atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar e nos crimes sexuais. “Dentro da violência doméstica as vítimas são acolhidas pelo serviço social que tem a função de dar suporte emocional para a mulher no sentido de empoderá-la.

Para que não desista no meio do caminho. Depois, as vítimas são encaminhadas (dentro de um mesmo prédio) para a delegacia, onde registram boletim de ocorrência e solicitam as medidas protetivas, se assim optarem e são encaminhadas à Secretaria da Vara de Violência Doméstica (que também fica no mesmo prédio), que as analisa em 24hs”, conforme explica a delegada Janice Aguiar. Ela informa ainda que as medidas de prevenção consistem na participação das delegadas eventos tais como palestras, seminários, congressos, tudo com o objetivo de informar sobre os direitos da mulher.

Janice Aguiar (Dudu Maroja)

A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) informou que diminuiu em 32% os casos de feminicídio ao comparar os anos de 2018 (68 casos) e 2019 (46 casos). Em 2020, no mês de janeiro, seis ocorrências foram computadas. Feminicídio é caracterizado quando “a mulher que for vítima de homicídio cometido pelo menosprezo do autor a sua condição de mulher”, fala a delegada.

O Brasil é o quinto no ranking mundial dos que mais matam mulheres, de acordo com o Relatório Especial do Comitê do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A taxa de assassinatos de mulheres no Brasil é de 4,7 para cada 100 mil. Já os dados do Núcleo de Estudos da Violência da USP e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que a cada duas horas uma mulher morre no Brasil vítima de violência, incluindo o feminicídio.

Troppo
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