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A última resistência

Lorena Filgueiras

Quando a pandemia foi oficialmente decretada, a recomendação geral foi a adoção de práticas mais rígidas de higiene pessoal, além do isolamento, como maneira mais eficiente de conter o avanço da doença. Passados oito meses, diante do aumento considerável de novos casos, conversamos com pessoas que ainda estão em isolamento – do qual, aliás, não saíram, desde que o Coronavírus passou a ser o grande pesadelo da humanidade. E que nenhum de nós se iluda: ainda não terminamos de viver a primeira onda.

A professora Marcelle Rolim, 44 anos, o marido, Petronio Lima Filho, 40, os filhos Ulisses, 13 e o caçula, Lucas, 5 anos, estão isolados desde o dia 15 de março. “A gente se deu conta [da gravidade da situação], ainda em março, quando as instituições que trabalhamos e as escolas das crianças começaram a fechar as portas”, conta. 

Petrônio Lima Filho, Marcelle Rolim, Lucas e Ulisses (Divulgação / Arquivo Pessoal)

A nova rotina, radical, fez com que a família adotasse novos hábitos, como fazer supermercado somente pelo aplicativo, numa maneira de sequer colocar os pés na rua. “Mas estava ficando muito caro e restritivo, então começamos a ir ao supermercado quinzenalmente. Só meu esposo vai”, ela relata. Apesar de todos estarem unidos em um único propósito, não foi fácil. Ainda não é, especialmente para as crianças. “A gente não sai de casa, então as atividades com as crianças são brincadeiras de desenhar, pintar, colar, filmes, banho no quintal. Tem sido cansativo e meio estressante porque as crianças se sentem presas”. 

Os pais de Marcelle, já com uma certa, também se ressentiram muito, o que fez com que a rigidez fosse ajustada, pelo bem deles. “O mais difícil foi ficar os seis primeiros meses sem encontrar meus pais, que moram em Belém, mas são idosos e a gente não ia visitá-los para protegê-los. As crianças sentiam muita falta deles e vice-versa. Eles são os únicos netos deles e a gente tinha uma rotina de muita proximidade, as crianças sempre dormiam lá e todo domingo a gente almoçava com eles”, diz. “Agora em setembro, nós nos encontramos porque eles estavam adoecendo de tristeza de não poder ver os netos. Decidimos que a gente ia retomar devagar os encontros, já que eles também não saem de casa, assim como nós, mas ainda assim a gente se encontra de máscara, apesar de eles abraçarem as crianças”. 

As tensões características de todo um momento tão atípico também apareceram sem avisar. “Nem sempre conseguimos driblá-las. Às vezes a gente grita, briga, se estressa, chora, mas aos poucos retomamos a sanidade, porque não está fácil. As crianças são agitadas e o acúmulo de trabalho e cuidado com eles é muito desgastante, mas a gente procura fazer coisas pra tentar relaxar, cuidar de plantas”. E adotaram um cachorro, ou melhor, uma cachorrinha linda, que ganhou o nome de Frida. “Isso fez um bem danado pra as crianças!”. A despeito das dificuldades, houve muitos momentos bacanas, segundo Marcelle, “além de um tempo com as crianças, partilhar coisas em comum, mais diálogo”, enumera.

No meio da pandemia, houve mudança

Como não dava para adiar, Marcelle revela ainda que a família mudou de casa, há aproximadamente dois meses. Apesar de tenso, todos agradeceram a mudança de ares. 

Diante do aumento dos novos casos, a professora diz que é revoltante ver como a vida parece estar “normal” para alguns, enquanto que para outros (incluindo sua própria família), esta longe de ser. “É assustador porque a gente tem a sensação de que isso não vai acabar nunca! Não consigo entender essa necessidade doida do povo lotar os shoppings, os bares, restaurantes em plena pandemia, com tanta gente morrendo diariamente. Eu entendo a necessidade das pessoas trabalharem, sei das dificuldades de grande parcela da população que é carente e que não tem condições mesmo de ficar em casa, porque isso é, sim, um privilégio pra poucos, porque precisa correr atrás do pão de cada dia. Por isso eu fico muito indignada com pessoas que sabemos que têm condições de cumprir a quarentena, fazer o isolamento, manter os cuidados básicos e não fazem nada disso. Eu sei que não tá fácil pra ninguém, que todos querem poder viver normalmente, mas ainda não é possível. Portanto, acho [as aglomerações] uma falta de empatia enorme com quem perdeu familiares, amigos”, finaliza.

“Esse não pode ser o novo normal”

Breno Torres (Divulgação / Acervo Pessoal)

O escritor e professor Breno Torres, 25 anos, está isolado junto com pai e mãe, desde o comecinho da pandemia. Raramente saem de casa, mas quando têm de fazê-lo, tomam todos os cuidados imprescindíveis aos novos tempos. “Sempre saímos de máscaras, um potinho de álcool gel no bolso e, se o lugar estiver cheio, colocamos faceshield”, conta. “Também peço para a pessoa se afastar, se ela não estiver cumprindo a distância delimitada”, complementa. 

Mesmo com os cuidados, o professor conta que houve casos de infectados na família – todos recuperados. “Só não foi aqui dentro de casa”, diz, mas conta que as irmãos e sobrinhos sentiram alguns sintomas.

Breno diz que não consegue ver o “novo normal” em face de milhares de mortes em todo o Brasil e no mundo. “Isso não pode ser visto como normal”. “Tenho essa responsabilidade e penso sempre que se eu fizer minha parte, esse número pode baixar. Quisera eu que todas as pessoas tivessem esse mesmo pensamento. Isso acaba de levando a outro sentimento, que é a revolta! É escandaloso ver casas de show abrindo, bares lotando, sem cuidados neste contexto de pandemia. Deveria ser um momento de recolhimento, porque é necessário e pela perda de tantos. Isso me decepciona muitíssimo mesmo”, desabafa.

“Criamos um espaço de ‘sujeira’, que é o pátio. Intensificamos a limpeza das compras e com o próprio autocuidado, na manutenção de nossas saúdes, então passamos a comer melhor, alimentos com mais nutrientes e chegamos à conclusão de que cuidados reforçados são os que adotamos para fortalecer nosso organismo”. Os planos de Breno foram momentaneamente adiados: uma pós-graduação há muito desejada, o curso de italiano e eventos literários, tão importantes à vida profissional que ele abraçou. Ele explica que todos os adiamentos se deveram, também, à ansiedade diante do pouco que se sabe a respeito da doença. Tantas mudanças drásticas, defende ele, “permitem um mergulho mais profundo em nós mesmos, sonhos, vontades e metas”. “Sinto falta de coisas básicas, que espero voltar a fazer em breve. Dar uma volta sem me preocupar, rever amigos, andar com eles em lugares públicos”.

Arícia Lobo, 23 anos, é empresária e desde março, também está cumprindo isolamento, juntamente com a família: pais, avós e irmãs. “Quando preciso sair na rua sempre levo meu álcool em gel na bolsa e evito tocar no meu rosto. Quando chego em casa, lavo novamente minhas mãos, coloco minha roupa pra lavar e sigo direto pro banho”, conta.

Arícia Lobo (Divulgação / Acervo Pessoal)

Uma perda, entretanto, mexeu bastante com ela. O pai do namorado faleceu 3 semanas após ter contraído o vírus. “Morreu na UTI, mesmo após uma melhora no tratamento”, diz. “Fico com medo, principalmente pela falta de empatia e pelo egoísmo das pessoas em ignorar o cenário que estamos vivendo. O que mais me surpreendeu foi a normalização das mortes, como se fosse algo que não pudesse ser evitado. A sociedade diz que não aguenta mais e que sai pelo bem da saúde mental, mas a verdade é que não existe justificativa pra isso. Só reforça ainda mais um individualismo descarado. Um ‘rolê’ pode custar não só a minha vida, mas como a dos meus familiares. Isso é o suficiente pra eu evitar e temer aglomerações”.

(André Loreto)

Os planos também foram momentaneamente adiados: a formatura e expansão dos negócios. Mas nada tira o foco da empresária, que faz planos, para quando for seguro e possível sair de casa: rever os amigos e viajar.

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Troppo
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