A rainha das lives, mulher de riso farto!

Lorena Filgueiras

Flui muito naturalmente falar de Teresa Cristina, uma artista de sorriso franco e espontâneo. Desconheço um outro artista que tenha se reinventado e encantado tanto, diante desses tempos tão difíceis que o mundo vive, quanto nossa entrevistada especial deste domingo – uma entrevista, aliás, há bastante tempo desejada e que, enfim, ocorre, entre uma live e outra. Descontraída e muito à vontade, a cantora [e cupido oficial dos “Cristiners”, como são carinhosamente chamados seus fãs] transitou tranquilamente por inúmeros temas: política, Arte, seus compositores e artistas favoritos, além de ter revelado que as lives nasceram de muita angústia e inquietude, e que ama rock pesado. Com vocês, a majestade e capa desta edição.

Troppo + Mulher: Você conquistou o título de “Rainha das Lives”, por suas apresentações que, inclusive, nasceram de uma tremenda inquietude – como muitos de nós se sentem ainda agora. Com mais de 180 lives e 450 horas de transmissão, como você se sente agora? Ainda inquieta? O que mudou?
Teresa Cristina: Estou ali para cantar, contar histórias, me aventurar em canções que nunca pensei em colocar em algum repertório. Converso com o público, recebo amigos e artistas que nunca pensei em dividir um espaço. Acho incrível quando vejo atores e músicos conversando com os outros seguidores. Se fosse numa situação normal, provavelmente eles seriam abordados com um pedido de selfie. Ali, todos estão na mesma festa, num clima mais relaxado. São seis meses de lives diárias. Comecei entre 22h e 01h. Desde 28 de setembro, o horário das apresentações mudou para 20h. Fico até 22h, 22:30. Acho que essa é a minha inquietude: ser uma artista que faz apresentações diárias: são mais de 190 em todo esse tempo. O fato de me aventurar em ritmos e canções que nunca imaginei cantar, mas [que] sempre gostei, fazem parte dessa mudança. 

T+M: Eu preciso falar sobre quão incrível tem sido você entrevistar gente que habitualmente não curte nem dar entrevista, como o Chico Buarque. Assim sendo, pensas em transformar os conteúdos das lives em algo maior? Um livro, um programa especial, um compilado? Imaginavas que elas seriam as mais concorridas e bem frequentadas? 
TC: São muitos os sonhos, os projetos, as vontades. Achei uma graça quando o Chico [Buarque] entrou na live em homenagem ao [Antônio] Pitanga e disse: “Parabéns pelo seu programa, Teresa! Está um sucesso!”. Foi carinhoso! Tenho muita vontade de registrar meu conhecimento e os meus estudos eternizados em livros. Sejam sobre minha história ou [sobre] o renascimento do samba e de suas rodas, que me fazem tanta falta neste momento. Já pensei em programas musicais, com papos bons, claro. Esse momento me permitiu também sonhar. Mas tudo o que acontecer, será depois da vacina. [Risos]

T+M: Quero saber se temos alguma notícia de relacionamento que engatou no Cristinder... [eu rio]
TC: O CrisTinder começou como algo abstrato. Não é que existe um aplicativo de paquera. Mas o CrisTinder é o que acontece quando começa a live. As pessoas entram, escrevem, se identificam, contam que estão solteiras e dali começa um papo. Recebi várias histórias de paqueras. E na timeline vejo indiretas e outras bem diretas. [ela ri] Já rolaram namoros. Também já aconteceram romances terminados. Sei de várias histórias e me divirto.

T+M: Preciso muito te perguntar sobre a live que o Lula “invadiu” de maneira carinhosa e você rememorou que foi à Índia por causa dele. Ele também mencionou que, até então, você não tinha patrocínio... e o patrocínio apareceu! Ele foi teu “amuleto da sorte”? Você repetiria um ao vivo com ele? Teve receio de que os haters enchessem tuas redes?
TC: Toda vez que um artista, uma pessoa que eu admiro, entra na minha live –  sempre entram sem avisar, quando vejo a pessoa está ali e eu chamo –, fico surpresa. Me surpreende a humildade de entrar ali e querer participar, dar alguma opinião. Por isso, fiquei surpresa com essas pessoas. Caetano me surpreendeu pois não estava fazendo lives na época. Lula foi o maior presidente que o Brasil teve, posso chamar de amuleto sim! Claro! Ele entrou para pedir uma música de Ataulfo Alves. No momento em que temos um presidente truculento, ignorante, contrário à cultura e ao que é belo, isso faz muita diferença. Ter um ex-presidente que pede Ataulfo Alves e Lupicínio Rodrigues... Aquilo me emocionou muito: a fala dele e o carinho com que ele tratou a cultura brasileira, o samba. Foi emoção demais. Repetiria lives com ele sempre que ele quisesse. Nossa! Assim como me emocionei com a Simone, a Joanna, o Chico César e o Gil. Mexe demais comigo! E o mais bonito é que essas pessoas acabam se misturam ao público da live. As pessoas enlouquecem, elas ficam emocionadas também junto comigo. Os haters aparecem, eu bloqueio, sacaneio. Mas tenho uma boa retaguarda de público que também me ajuda a limar esses robôs. Porque só podem ser robôs... [ela ri] 

T+M: O que mudou na tua vida com as transmissões ao vivo?
TC: Desde a minha relação com os fãs até o meu conhecimento de internet. Comecei as lives com uma preocupação séria: o medo de entrar em um quadro depressivo. As notícias começaram a ficar cada vez mais fortes e sérias. Minha mãe tem 80 anos e um grau de ansiedade muito forte. Perdi o sono. Não conseguia dormir. Absorvi notícias pesadas, aliás até hoje, né? Daí pensei: preciso fazer alguma coisa que me dê prazer imediato. Nada funcionava. Uma noite, fiquei ouvindo Dona Ivone Lara até 6h da manhã. Escutei coisas que eu achava que conhecia. Foi uma descoberta. Eu não conhecia nada. Músicas que eu nunca tinha ouvido. Todo mundo estava fazendo live e pensei: acho que vou fazer alguma coisa para falar sobre as músicas dela. No mesmo dia algum seguidor, no Twitter, falou de samba de terreiro como se fosse de Umbanda ou Candomblé. E várias pessoas seguindo a mesma coisa. Aí comecei a explicar sobre Samba de Terreiro. Pensei: vou fazer uma live falando de Samba de Terreiro. O assunto não coube em uma live só. Já tinha começado a ocupar minha mãe fazendo aos domingos com ela, porque ela gosta de cantar também. Então comecei a fazer esporadicamente. As coisas ficaram piores (a pandemia), as declarações do presidente ficaram ainda mais perigosas. Quando vi, estava com lives todos os dias. E percebi a minha animação ao pesquisar os temas e curiosidades que eu iria apresentar à noite, trocando ideia com as pessoas. 

T+M: Tens debatido e falado muito sobre o protagonismo da Arte nestes tempos tão desafiadores. A arte vai sair diferente? O fazer artístico vai se reinventar? O que achas que, em função da pandemia, entrou em nosso cotidiano e não mais sairá? Falo das próprias lives, vaquinhas virtuais, ingressos solidários...
TC: Com certeza. Artistas vivem de palco, aplausos, shows e da troca com o público, que só nos fortalece. Uma noite, fiquei ouvindo Dona Ivone Lara até 6h da manhã. Escutei coisas que eu achava que conhecia. Foi uma descoberta. Eu não conhecia nada. Músicas que eu nunca tinha ouvido. Todo mundo estava fazendo live, pensei: acho que vou fazer alguma coisa para falar sobre as músicas dela. Foi assim que me renovei ou, como você disse na pergunta, me reinventei. A arte vai continuar sendo vitoriosa e sai mais forte dessa pandemia, pois ela sempre sobrevive. Ela teve força, base, história e sobreviveu contra o nazismo, o fascismo. Essa pandemia veio para mostrar isso. O que tem segurado a gente é a arte.

Teresa Cristina (Leo Aversa)

T+M: Sua relação e interação com fãs e seguidores mudou? 
TC: Se olhar pelos números do instagram, por exemplo, antes da pandemia eram 98 mil seguidores. Hoje esse número passa dos 353 mil. São novidades muita gostosas de sentir, mesmo em um momento tão difícil, [como o] que passamos com todo esse desgoverno em relação à pandemia. Nunca tive fã-clube cativo. Tenho muito carinho pelos “Cristiners”. Eles mandam mimos para mim, coisas bem simples, mas que têm um efeito bem grande em mim. Enviam salgadinhos, cartinhas feitas à mão. É uma demonstração de carinho que tem mexido muito comigo. Me emociona, pois ganho avalanches de carinhos todos os dias. É uma experiência muito nova para mim. 

T+M: Nesta pandemia, como você tem vivido seus dias? Acreditas que a humanidade sairá desse “período probatório” diferente? 
TC: A gente não sabe de nada nessa quarentena. Só o que eu sei é que vou continuar fazendo minhas lives. Moro com minha mãe, Hilda, de 80 anos e minha filha de 11 anos, Lorena. Tenho meus afazeres domésticos e divido o dia entre essas tarefas e a elaboração das apresentações baseadas em temas que me vêm à cabeça.  Dedico várias horas por dia a pesquisar e montar repertórios. Confesso que não gosto muito da expressão “novo normal”. Não consigo me adaptar muito a ela, até porque todas as vezes que ouço, penso que as pessoas acham “normal” termos mais de 150 mil mortos. Isso não é normal. Não estamos em um momento normal e não quero achar que isso é normal. Não consigo fazer nenhuma projeção, pois não sabemos se vai aparecer alguma vacina, se vamos voltar com os shows. A minha mente bloqueia. A pandemia me colocou presa em um dia. Então, em um dia eu tenho só o plano de terminar o meu dia. Não consigo projetar para frente. Talvez seja uma incapacidade minha neste momento.

T+M: A pandemia adiou o lançamento do teu disco cantando Noel Rosa – quais outros planos ficaram guardados, ainda que momentaneamente?
TC: A ideia era ter lançado no primeiro trimestre o DVD “Teresa canta Noel – Batuque é um privilégio”. Com a pandemia, foi adiado. E acabou sendo interessante. O lançamento foi em horário nobre, no mês de julho, pelo Canal Bis. E deu a oportunidade para que os telespectadores assistissem diversas vezes ao show. Um lindo espetáculo, verdadeira homenagem à obra do Noel com primorosa direção do Caetano Veloso. Além disso, o trabalho se tornou um DVD digital com acesso fácil e gratuito. O álbum é limitado em 14 faixas. No show, pude cantar canções que não escolhi regravar porque já tinham gravações muito cristalizadas. Mas no show, tive essa liberdade. “Três Apitos”, “Palpite Infeliz” e as marchinhas de carnaval entraram na apresentação. O show é maior, tem um olhar mais abrangente sobre a obra do Noel.  Ele, Cartola e Nelson Cavaquinho, além de serem três poetas, são grandes melodistas. Esse trabalho é uma trilogia e, quando isso passar, quero encerrar com a homenagem ao Nelson Cavaquinho. Além disso, pretendo lançar meu álbum autoral.

T+M: Cristina, como uma rockeira foi parar no samba? Sei que você é apaixonada por rock – a gente perdeu uma cantora headbanger?
TC: Confesso que no começo queria cantar em banda de metal, mas quando ouvi Candeia [cantor falecido em 1978], me apaixonei pelo gênero. Minha vida se divide em A.C. e D.C, antes de Candeia e depois de Candeia. E imaginar que, quando era apenas uma criança, a música de Candeia era motivo de zombaria. Meu pai, Seu Lula, era feirante. Quando ele ensacava limão para vender, eu zombava daquela música que ele ouvia na vitrola. Era Candeia. Anos depois, achei aquele disco e só entendi a maravilha que aquilo representava. Aquele disco começou a mudar a minha vida. Fiquei hipnotizada e fui a campo para tentar conhecê-lo ainda mais. Me aproximei de João Batista Vargens, biógrafo de Candeia e da Velha Guarda da Portela. Nem sonhava em virar cantora. Mas a Velha Guarda, e principalmente Monarco, me abraçaram. Me dava chance nos shows. Isso eu nunca mais vou ter como pagar. A faculdade me fez mergulhar ainda mais na obra do Candeia. E aí acabei virando compositora. Resumindo, ele mudou a minha vida. 

T+M: Você chamou atenção do Caetano cantando Cartola – um artista que é imprescindível à tua trajetória. Como pintou esse convite? Caetano compartilhou algum conselho contigo? 
TC: Eu sou fã do Caetano. Bebo na fonte dele. Nós conversamos ainda durante a turnê do Cartola, quando estávamos juntos. Eu já tinha falado sobre o desejo de cantar Noel e o Caetano conhece muito a história e a obra dele. Ele [Caetano] entrou em tudo, para dizer a verdade. Até dicas de harmonização deu. O Caetano ganha pelo detalhe, porque tudo o que faz é pensado, planejado. Ele me chamou a atenção para a prosódia do Noel. É o rei da rima rica. Em “Gago Apaixonado”, por exemplo, a gagueira tem melodia certa. Eu fico muito incomodada quando ouço uma gravação e as pessoas acham que, para cantar essa música, é só ficar gaguejando. Não! A gagueira tem melodia certa. É [e ela cantarola] “Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago”. Tem um raciocínio. Isso acontece muito com Noel: você acha que o samba foi feito de qualquer jeito, mas, ao olhar com calma, vê que está alinhado, com figuras de linguagem no lugar correto. Não foi fácil, mas as conversas com Caetano me ajudaram a definir o repertório.
T+M: O samba nasceu como música de protesto, de resistência. Imagine ser sambista neste tempo em que artistas são criminalizados... Como reages às críticas e tentativas contínuas de marginalizar o artista? 
TC: A falta de apoio aos cantores de samba não é de agora. A pandemia jogou uma lente de aumento em várias situações. Tivemos de passar por isso para entender que não é toda a população que tem água encanada, luz, tratamento de esgoto. As pessoas vivem em condições precárias. Quando começamos a falar sobre usar o álcool gel, por exemplo, esqueceram que há pessoas que nem água têm em casa. Os cantores de samba, em sua maioria – salvo algumas exceções – sempre tiveram cachês mais baixos. A relação com os contratantes sempre foi na base do “tudo tá bom”. Nunca precisou de um som incrível, uma grande produção. Isso é um reflexo do que sempre aconteceu. 

T+M: Há algum compositor/cantor que não conhecias e ao qual/à qual foste apresentado neste período pandêmico?
TC: Essa foi uma das grandes delícias de estar ali, todas as noites a serviço da música. Pude conhecer quem divide deste mesmo ofício que eu. E me encantei perdidamente. São muitas as vozes que ainda precisam de um espaço digno de reconhecimento. Muitas vozes pretas. Muitas vozes invisíveis. Muitas vozes de mais idade. Foram muitas para enumerar todas. Falo de Silvia Borba, Mel Mattos, Mãe Alba de Darabi, Wendy Loiola, Jonathan Ferr, AoCoral, Ana Paula Cruz, Mestre Aurinda do Prato, Sergio Pererê, Fernando Ébano e vários novos artistas durante estes seis meses e meio.

T+M: És portelense doente – estás preparada para um carnaval sem desfile? Como está teu coração diante dessa possibilidade?
TC: Sem desfile não há carnaval. E Carnaval, pelo que entendi, foi adiado, não cancelado. O Carnaval é um lugar de reinvenção, né, diante de impossibilidades. Acredito que as pessoas encontrarão uma maneira de que ele não passe em branco. 


Para conhecer mais:
@teresacristinaoficial

Troppo
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