A hora dos livros

Lorena Filgueiras

Companheiros fieis, os livros são o refúgio daqueles que buscam conhecimento e emoções em linhas bem traçadas, especialmente nestes tempos de isolamento. Embora a última pesquisa especializada tenha trazido um discreto aumento nos indicadores, 70% da população brasileira não têm acesso a livros e bens culturais. Mas como está a prática entre os 30% restantes? Qual foi o último livro que você leu? E as crianças/jovens da família? Em um país onde a média de leitura, por habitante, é de [apenas] quase cinco livros por ano, é importantíssimo estimular o hábito desde as mais tenras idades. Que tal aproveitar o período para trocar alguns minutos da internet e games por literatura?

O Instituto Pró-Livro (IPM), entidade criada em 2006 e dedicada ao fomento à leitura e difusão do livro, realiza, a cada quatro anos, uma pesquisa bem abrangente sobre o assunto. A última, divulgada em 2016, trazia uma discreta melhora no índice – em comparação à pesquisa do período anterior, quando a média de consumo de livros, por habitante, era de 4 por ano – mostrando que o brasileiro consome 4,96 livros atualmente. Na Argentina, nossa vizinha, a média é de 11 livros por ano para cada habitante. Há que se atentar a um detalhe importantíssimo: no Brasil, nem sempre os títulos são lidos até o fim, uma vez que a amostragem considera livros lidos por partes. 

Provavelmente, o resultado da pesquisa, previsto para este ano (como resultado de pesquisas entre 2016 e 2019) atrasará, em função do período delicado que atravessamos, mas a Troppo + Mulher decidiu ir atrás de pessoas inspiradoras, que sempre contrariaram as estatísticas e que dão um show de incentivo, quando o assunto são livros.  

A engenheira e designer de interiores Arianne Pereira, 27, lê todos os dias – “e no tempo que der”, afirma. A leitura tornou-se um hábito ainda na infância, iniciado pela paixão à saga de Harry Potter, da escritora J.K. Rowling. “O primeiro [livro] que tenho lembrança é o No reino perdido do beleléu [da escritora Maria Heloísa Penteado], que lia com meus pais”, relembra. Com algumas leituras atrasadas, ela também tem aproveitado o isolamento para colocá-las em dia. O horário preferido é antes de dormir. “É um momento em que desligo das situações cotidianas e foco apenas na história do livro. Eu recomendo muito que as pessoas façam disso um hábito pra vida. Para quem não é acostumado, começar com 10-15 minutos de leitura por dia ou definir uma meta de páginas pra ler em determinado momento, já ajuda. Experimentar diferentes gêneros literários também é válido, existem diversas opções, desde leituras mais leves a outras mais tensas. Pode ser que você não goste de romance, então talvez um suspense agrade mais. Livros digitais são uma boa e prática opção, existem diversos aplicativos disponíveis. O importante é começar”, sugere.

Arianne Pereira (Arquivo Pessoal)

Família que lê unida, permanece unida

A família da publicitária Chris Portilho, 42, é completamente apaixonada pela Literatura. Longe de parecer uma figura de linguagem, o amor aos livros foi passado de uma geração à outra. Inspirada pela matriarca, Chris transmitiu o hábito aos filhos, Eduardo, 14, e Júlia, 12. “As crianças sempre foram estimuladas por mim e pelo pai para a leitura. Líamos pra eles desde que eram pequenos. Minha mãe, por ser uma leitora voraz, sempre deu muitos livros pra eles, de acordo com o interesse de cada um. Nas nossas viagens, livrarias sempre estão no roteiro. Compramos muitos livros antes da quarentena, já no começo das aulas e aqui em casa funciona assim: peço pra elas fazerem resumos escritos ou orais e dividirem as histórias entre a gente, como forma de estimulá-los. A gente aprende muito junto”, conta Chris.

Da direita para a esquerda, em primeiro plano, Chris Portilho, a mãe, Marileuda e, seguida, os irmãos, Eduardo e Júlia. Unidos em todos os momentos e no amor aos livros (Arquivo Pessoal)

Eduardo, que está no 9º ano do ensino médio, vem alternado os livros com o jogos on-line. “Tenho buscado alternativas para preencher meu tempo livre, que agora tenho bastante: jogar Videogame, assistir diversos filmes e ler livros. Os gêneros que mais gosto são História e ficção”. Quando pergunto o que a leitura significa para ele, a resposta vem instantaneamente. “A leitura significa ampliação de conhecimentos e se entreter com histórias”.

Aos 12 anos, a caçula da família, Júlia, é falante e muito, muito espirituosa. Concluo que é (também) por conta do amor às letras. “Tento manter a calma, ajudo minha mãe com as atividades de casa e quando estou livre, tento procurar filmes para ver e ler livros sobre as extraordinárias mulheres que revolucionaram o Brasil. Eu gosto bastante de aventura e ficção científica, mas estou lendo coisas mais pé no chão esses dias. Na minha opinião, a leitura serve, entre outras coisas para fazer o mundo melhor e com menos injustiças”, afirma.

A avó dos pequenos, Marileuda Bezerra, 68, que está passando este período na companhia de Chris e dos netos, afirma que ler tem sido um importante instrumento para manter o bom humor. “Procuro estar sempre ocupada. Leio e escrevo muito. Tenho relido vários livros e, de novo, estou lendo Clarice Lispector, Kafka, Martha Medeiros e Somerset Maugham”, detalha. No dia a dia, a funcionária pública aposentada também tem dedicado o tempo à fotografia, maquiagem e a viajar mais pela internet.

É de pequeno, que se faz um grande leitor

A pedagoga especialista em psicopedagogia e educação inclusiva, Karla Carolina de Sousa Bezerra, 35, reitera que o hábito da leitura é um processo que deve ser incentivado antes da alfabetização, por meio da exposição da criança aos livros, seu manuseio, além de contação de histórias, leitura de imagens. Tudo isso deve ser trabalhado desde pequeno. Ela afirma ainda que a questão da acessibilidade faz toda a diferença. “Os livros devem ficar/ser de fácil acesso e manuseio às crianças e sempre relacionando o momento da leitura a algo prazeroso. Infelizmente esse hábito, muitas vezes, é associado à punição e isso não é correto. A formação do leitor antecede a alfabetização, então antes de começar a ler, a criança já pode ser apresentada ao mundo da escrita. Antes de 1 ano de idade, é importante permitir que o bebê manuseie livros permitindo o contato com a leitura, para que ele vá entendendo que o livro faz parte da sua rotina. Entra aqui também o exemplo dos pais: uma criança que enxerga seus pais 24 h em frente à TV ou ao computador não será estimulada para abrir um livro, vale ressaltar”, afirma.

Karla vê com preocupação o momento atual, em função das limitações impostas pelo isolamento. “Em um país onde leitores são a minoria torna-se preocupante quando crianças e adolescentes não apresentam o mínimo interesse pelo hábito da leitura, preferindo estar com seus equipamentos eletrônicos na maior parte do dia. Em tempos de pandemia, torna-se mais difícil a organização do tempo, pois as opções ficam limitadas. É interessante que os pais criem uma rotina envolvendo esse tipo de prazer para atrair seus filhos para o universo da leitura: para adolescentes, é possível usar histórias de games, bibliotecas virtuais ou seriados de sua preferência; montar o Clube da leitura, trazer o seu próprio universo para essa prática. Com as crianças você pode montar o ‘Cantinho da leitura’, que pode ser uma estante ou um baú/caixa para armazenar os livros e ser de fácil acesso, permitindo o manuseio dos pequenos. Enfeitar o local, ler histórias em conjunto, dramatizar, inserir as crianças entre os personagens... tudo isso vale para deixar o ambiente agradável e associar o momento da leitura ao prazer. Combine com os pequenos: de 30 a 60 minutos por dia, dependendo da faixa etária para momentos de leitura. Desligue a TV, celulares ou qualquer coisa que chame atenção. Faça desse momento uma forma saudável de convívio e bem-estar. Envolva outros familiares e lembre-se que um bom leitor nasce de bons exemplos na família, ou seja, leiam mais! Com esforço e rotina tudo pode se transformar!”, ensina.

E o começo (ou fortalecimento do hábito) não precisa, necessariamente, iniciar pelos livros: os gibis ajudam muito no processo. “Suas cores chamativas, expressões gestuais dos personagens, charges, uso da figura de linguagem onomatopeica para compensar ausência de som... Tudo isso proporciona benefícios ao desenvolvimento cognitivo das crianças e adolescentes. Diria que não existe o melhor gênero: existe a aquisição da leitura e, a partir disso, o amadurecimento do leitor em diversificar conteúdos a serem lidos”, finaliza.

Raízes profundas precisam de solo fértil

Ano passado, em uma viagem a Alter do Chão, conheci o pequeno Raiz, 7. O nome poético me chamou tanta atenção quanto a voracidade com que ele “devorava” os livros e gibis com os quais andava pela cidade. Quando contei para ele que eu era muito apaixonada pela Turma da Mônica e que tinha uma coleção de quase 300 exemplares de suas histórias em quadrinhos, seus olhinhos brilharam. “Você pode me emprestar uns?”, ele perguntou. Ri e prometi que mandaria alguns em PDF para ele ler. 
O pai, o empreendedor Kairós Kanavarro, 36, conta que desde que Raiz demonstrou interesse em ler, foi necessário estudar metodologias de ensino. “Após a alfabetização de Raiz, quase que diariamente tinha ‘a hora da leitura’”, quando papai e filho liam, cada um, uma obra de seu interesse.
Kairós revela ainda que em todas as fases do filho, ele e a mãe do Raiz sempre liam livros e textos para o pequeno. Quando pergunto quantos livros, em média, o Raiz lê por semana, a resposta novamente me surpreende. “Ele lê uns 20 livros por dia, no mínimo”. Como moram na vila de Alter, que fica bem distante do centro de Santarém, existe uma enorme dificuldade de achar livros e gibis. “Ele relê várias vezes os mesmos porque não conseguimos achar variedades”, revela. Na casa da família, não há televisão. “Ele adora videogame (pelo smartphone) e filmes. Ele sabe que tudo tem sua hora e limite, sem problemas. Desde sempre tem espaço pra cada coisa. Quando ele se comporta bem, ganha o direito de jogar, mas leitura é à vontade, pelo tempo que ele quiser”.

O relato de Kairós lembrou-me demais da minha infância com minha irmã, Marília. TV não havia em casa, mas essa é uma outra história (um dia eu conto). Pergunto a você: qual será o próximo livro que vai ler?

Troppo
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